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terça-feira, 3 de março de 2026

Candidaturas ao Prémio Eduardo Lourenço

 

O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) tem abertas até ao próximo dia 27 de março as candidaturas para a vigésima segunda edição do Prémio Eduardo Lourenço.

Esta galardão destina-se a premiar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da Cultura, Cidadania e Cooperação Ibéricas.



Instituído em 2004 para homenagear o mentor do CEI, o Prémio, no montante de sete mil e quinhentos euros, será atribuído por um júri constituído pelos membros da Direção do CEI, por oito elementos representantes das Comissões Executiva e Científica e quatro personalidades convidadas pelas Universidades de Coimbra e Salamanca.

Qualquer instituição ou pessoa pode enviar propostas de candidatura para o Centro de Estudos Ibéricos. O regulamento está disponível aqui.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Toponímia guardense...


A Rua Francisco de Passos é uma das mais conhecidas artérias da zona histórica da cidade. 

O seu nome evoca o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de Junho de 1926 e 25 de Agosto do ano seguinte

Embora o nome do primeiro governador do período do Estado Novo lhe tenha sido atribuído, por decisão do executivo municipal da Guarda, é por Rua Direita que muitos a continuam a identificar, privilegiando assim a tradição.

Guarda - Rua Francisco de Passos - HS.jpg

Aqui está uma atitude que reforça, no quotidiano, a importância de uma informação, complementar nas placas toponímicas citadinas (em especial, como é óbvio, nas zonas mais antigas), referenciando a atual e as anteriores designações.

Pinharanda Gomes alertou, numa das suas obras (e igualmente em vários textos) para o facto de que “a conservação dos toponímicos incólumes constitui um ato de prudência e de sapiência porque, ao mudar-se o nome de um lugar, atribuindo-lhe outro nome, porventura aleatório, é como se o nome antigo fosse arquivado e lançado ao esquecimento, pelo que a mudança de nomes censura a memória e perturba os roteiros orientativos”, considerando assim a “restituição da toponímia” um ato “de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade”.

Se percorrermos o roteiro citadino, encontramos os mais variados exemplos de mudanças que romperam com a memória do passado.

A Rua Francisco de Passos – Rua Direita – constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

Atualmente, a sua extensão está substancialmente reduzida pois este arruamento compreende o troço entre o entroncamento da Rua do Comércio, Praça Luís de Camões, Rua Augusto Gil e o Torreão; estabelece ligação, nomeadamente, com as ruas de D. Dinis, São Vicente, Largo de São Vicente, Rui de Pina e D. Sancho I.

É, sem dúvida, uma rua com história onde encontramos habitações centenárias e o edifício que funcionou (séculos XV e XVI) como Paço Episcopal; ali pode ser apreciada uma janela renascentista, “obra executada pelos artistas que estiveram a decorar a estilização da Sé Catedral, nomeadamente a Capela dos Pinas, no interior deste templo”.

Uma rua que abre outras artérias aos transeuntes, remetendo-os para a (re)descoberta da zona histórica da mais alta cidade portuguesa, unindo passado e presente.

 

Helder Sequeira

 

domingo, 1 de março de 2026

Gouveia recorda Vergílio Ferreira

 

A Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Gouveia, assinala hoje, 1 de março, os 30 anos da morte daquele escritor (1916-1996), através de um conjunto de atividades culturais, que pretendem celebrar a sua obra e aproximar as novas gerações da literatura portuguesa.

Sob o mote “Evocação e Memória”, a iniciativa propõe um programa pensado para diferentes públicos, combinando momentos pedagógicos e de contacto direto com o legado literário do autor.


A programação começa pelas 11 horas com uma oficina de escrita criativa destinada a jovens entre os 10 e os 15 anos, incentivando a expressão literária e o desenvolvimento da criatividade através da palavra escrita.

Durante a tarde, a partir das 15h, terá lugar uma visita guiada à Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, espaço dedicado à preservação da memória do escritor e à divulgação da sua obra. No final da sessão, será realizado o sorteio do I Volume de Conta Corrente, uma das obras mais emblemáticas do autor, entre os participantes presentes.

Com esta evocação, o Município de Gouveia pretende não apenas homenagear o escritor, mas também estimular o interesse pela leitura e pela criação literária junto das novas gerações, garantindo que o pensamento e a obra de Vergílio Ferreira continuam presentes no panorama cultural contemporâneo.



Escola Superior de Saúde da Guarda

  

Escola Sup de Saúde da Guarda-IPG_HS .jpg

Em março de 2005, com a publicação da Portaria n.º 235/2005, a Escola Superior de Enfermagem da Guarda foi convertida em Escola Superior de Saúde da Guarda, estando integrada no Instituto Politécnico da Guarda.

A Escola Superior de Saúde (ESS) do Instituto Politécnico da Guarda assinala hoje a passagem do seu 58º aniversário.

Recorde-se que a Escola Superior de Saúde da Guarda foi criada, como Escola de Enfermagem, em 1965, por despacho ministerial de 16 de julho.

Em 1988, pelo decreto-lei n.º 480/88, de 23 de dezembro, o ensino de enfermagem foi integrado no ensino superior politécnico, tendo sido reconvertida em Escola Superior de Enfermagem em setembro de 1989.

A Escola iniciou no ano seguinte o Curso Superior de Enfermagem, que conferia o grau de Bacharel. Pela Portaria n.º 311/96, de 27 de julho foi criado o Curso de Estudos Superiores Especializados em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica. Em outubro de 1999, iniciou o Curso de Licenciatura em Enfermagem e em março de 2000 passou a lecionar o Curso de Complemento de Formação em Enfermagem.

Foi integrada no Instituto Politécnico da Guarda um ano depois; pela Portaria n.º 220/2005, de 24 de fevereiro foi criado o Curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica.


 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Capela do Mileu

Capela do Mileu. Guarda. Foto: Helder Sequeira

 

Salvaguardar a memória...


A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses comemorar, em 2026, o seu 150º aniversário.

O programa comemorativo, como já foi divulgado, englobará uma diversidade de iniciativas e atividades.

Entretanto, e a título de sugestão, não poderíamos deixar de apontar a importância de colocação de sinalética/informação nos locais onde funcionaram os antigos quartéis dos Bombeiros Voluntários da Guarda.

Antigo quartel dos Bombeiros da Guarda

Será um importante registo da memória citadina; a partir das placas informativas (onde a colocação de um código QR pode remeter para uma plataforma digital na qual estejam disponíveis fotos das instalações, do edifício, de antigos equipamentos, de bombeiros e dirigentes, etc.) a colocar.

O reencontro com a história citadina, e neste caso dos Bombeiros da Guarda, pode ser proporcionado nas ruas desta altaneira e secular urbe.

 

H.S. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Um beirão migrante...


“Carlos Luiz – o beirão migrante” é um livro, da autoria de Paulo Leitão Batista, que evoca o percurso pessoal, profissional e político de um sabugalense que soube servir o seu concelho e o seu distrito. A propósito desta biografia política, João Soares sublinhava, no prólogo, que ela traça a “forma empenhada, cuidada, atenta e solidária como o parlamentar Carlos Luiz representou sempre, ao longo dos seus vários e ricos mandatos parlamentares, quer a nossa emigração, quer os interesses do interior de Portugal”.

Paulo Leitão Batista afirma que Carlos Luiz “abraçou a política para defender com garra o homem beirão e o homem migrante, inspirado na sua própria existência de vida e na aventura coletiva do seu povo de origem que, parecendo resignado ao amanho dos agros, passou a salto para a fronteira para ir em busca de melhor fortuna em terras distantes”. Refere, igualmente, na nota introdutória a esse livro que a vida política de Carlos Luiz se centra “em dois planos, que retratam o seu caráter: dedicação às causas dos que o elegeram e prestação de contas do trabalho realizado”.

Tivemos o ensejo, a convite do biografado e do autor da obra, de proferir algumas palavras na sessão de apresentação deste livro (ocorrida a 10 de junho de 2022, no Sabugal), o que nos levou a evocar um texto de Augusto Gil (escrito em 1911, na qualidade de jornalista e não de poeta como tradicionalmente é conhecido). “Os homens só valem pelo que de bondade e verdade tragam aos outros homens, porque, uma ou a outra, não caíram nunca em terra estéril, nem mesmo quando tombam na indiferença de rochedos”.

Bondade e verdade são duas palavras que bem se podem utilizar na biografia de Carlos Luís, para além de outras. Aliás, elas constituem o íman que sustenta o registo da memória, a propósito do nosso primeiro encontro com a personalidade retratada neste oportuno trabalho de Paulo Leitão Baptista; também ele um sabugalense de alma e coração. Do Sabugal guardo as lembranças e os afetos do período em que ali vivi e estudei. Anotamos uma observação de Pinharanda Gomes, ilustre sabugalense e figura relevante da cultura e da filosofia portuguesa. “(…) Na esquina do tempo, e tendo saído da Guarda há muitos anos (parece que temos o destino da emigração) foi-nos concedida a graça de permanecer fiel à mátria”.

Carlos Luiz - apresentação de livro-01.jpeg

Foto de arquivo. Sessão de apresentação do livro, no Sabugal. 


Carlos Luís, apesar da sua multifacetada vivência em tempos e lugares tem permanecido também fiel à mátria, a uma terra que é o reflexo da universalidade. E volto ao reencontro com Pinharanda Gomes. Escrevia ele, há algumas décadas: “(…) a nossa região, una no espírito e divisa no corpo, é múltiplo nas almas e nas existências. Somos unos, somos múltiplos. Somos uma terra que tem características de singularidade, e que demora a assumir o que lhe é próprio. Somos um reflexo de universalidade nesta pátria, pequena pátria, coração da Lusitânia”.

Carlos Luís nunca afastou o coração desta pequena pátria, pela qual trabalhou e tem trabalhado; é certo que muitos esforços, nos bastidores, não são conhecidos, mas a sua importância é inquestionável, fundamental. Assim, e remetendo-nos esta publicação biográfica para muitos anos de intenso labor e diversidade de intervenções cívicas, políticas e culturais, o passado não deve ser olvidado.

Marc Bloch afirmava numa das sua obras que “o passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa”. Acrescentava, dentro desta linha de pensamento, que “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.

Ora, este livro evoca um passado, de um cidadão que soube assumir sempre os seus compromissos, com elevado sentido de responsabilidade e liberdade, mesmo em tempo de incertezas. Que hoje também vivemos… Albert Camus falava de cidadãos “impacientes do presente, inimigos do passado e privados do futuro”; lembrava, por outro lado que “nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos”. O atual cenário bélico tem mostrado como a liberdade é cerceada…para não ficarmos privados do futuro e fruirmos da liberdade teremos de, objetivamente, aprender com esta invulgar experiência dos últimos anos, aferindo as necessárias adaptações ao nível da sociedade (globalmente entendida) e no plano individual; definindo prioridades, novas metodologias, fórmulas concretas de cooperação, acompanhadas de um constante exercício de cidadania.

Carlos Luís foi um exemplo e um protagonista de uma cidadania ativa, eficaz, consequente, materializada nos lugares por onde passou. “(…) As pessoas e as ideias, como as árvores, são uma harmonia com a hora e o lugar (…)”, escrevia Vergílio Ferreira, para quem “(…) o que mais importa não é o novo que se vê, mas o que se vê de novo no que já tínhamos visto”.

E que vemos agora com nova oportunidade, neste livro; sobre uma pessoa que conhecemos na década de 80, aquando da passagem do Carlos Luiz pelo Governo Civil do Distrito da Guarda, como adjunto de João Gomes (o então Governador Civil).

Logo nessa altura foi possível percebermos estar perante um homem que cultivava a diferença; cordial, atento, entusiasta perante as ideias e projetos que lhe eram apresentados. Era o tempo em que desenvolvíamos um projeto informativo consubstanciado no jornal Notícias da Guarda; uma publicação que Carlos Luiz acarinhou, apoiou, sentiu como sua e da região; desafiando-nos a implementar novas ideias que alargassem ainda mais o já significativo horizonte geográfico desse periódico.

Mesmo depois de deixar a Guarda, para exercer as funções de deputado (inicialmente), continuou atento à realidade da comunicação social guardense, desde logo também à Rádio Altitude.

Nas funções diretivas que tive nestes dois órgãos de informação, e nos múltiplos e diferenciados contactos ao longo dos anos, Carlos Luís foi sempre um excelente interlocutor, demonstrando um elevado respeito pela função social da rádio e do jornal, aceitando o confronto crítico, sabendo esclarecer e dialogar com inequívoca serenidade.

Teria, necessária e justamente, de deixar aqui este testemunho. “(…) Porque – dizia Vergílio Ferreira – a verdade das palavras não está só na sua verdade, mas na coerência e no momento em que se dizem”. Ao percorrermos a biografia de Carlos Luiz, ao atentarmos sobre o trabalho político desenvolvido, extraímos a sua determinação em afirmar a verdade e a liberdade.  “Não há forma de verdade sem liberdade, não há forma de liberdade sem verdade”, como observava Pinharanda Gomes.

O exemplo pessoal, político e cultural de Carlos Luiz aponta-nos uma desejada evolução desta mátria. Evolução que terá de contar com a predisposição e disponibilidade de todos, que sintam e vivam a região, independentemente de a sua residência física se aqui ou a centenas de quilómetros de distância.

É que não haverá novas realidades se continuarmos “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados”, na elucidativa expressão de Miguel Torga. Fica o testemunho de profundo apreço por um homem que, dentro ou fora das fronteiras nacionais, tem sido um exemplo de verticalidade, competência, dedicação e um migrante com uma sólida matriz beira. Injustamente esquecido por alguns…

 

Hélder Sequeira