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quinta-feira, 26 de março de 2026

CEI promove Curso de Verão

 


O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) vai promover, de 30 de junho a 04 de julho, a XXVI edição do Curso de Verão subordinado ao tema “Diálogos Transterritoriais para uma Geografia da Esperança”.

Com esta iniciativa, o CEI reforça o diálogo entre instituições e investigadores de aquém e de além-fronteiras, cumprindo uma missão que aposta no Conhecimento, Cultura e Cooperação e no compromisso com os espaços mais débeis e fronteiriços.

O Curso de Verão decorre entre Coimbra, Guarda e Salamanca e conta com Conferências, apresentação de Comunicações em diversos Painéis de Debate e Trabalhos de Campo, estando estruturado em torno das temáticas Paisagens, patrimónios, gestão dos recursos naturais e desenvolvimento local; Agricultura e desenvolvimento rural; Cidade e dinâmicas do espaço urbano; Sociedade e território: dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais; Cooperação e desenvolvimento: políticas públicas e coesão territorial; Arte, cultura e leituras do território.

Os interessados podem obter mais informações aqui.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Nos caminhos das "Alminhas"...

 

A Associação de Jogos Tradicionais da Guarda (AJTG) vai promover, no próximo sábado, 21 de março, mais um percurso pedestre temático, cultural e turístico inserido no programa da Semana Santa “Guarda – Cultura e Fé”.


Sob a designação o “Culto Privado das Almas” o percurso vai iniciar-se (pelas 9 horas) em Valdeiras e incidirá sobre o território de São Miguel do Jarmelo, no concelho da Guarda; será um percurso com um grau de dificuldade fácil, ao longo de nove quilómetros, devidamente guiado, com acompanhamento e informação. Recordamos os nossos leitores que a AJTG já em 2024 tinha promovido idêntica iniciativa nas aldeias de Trinta, Corujeira, Fernão Joanes e Meios (concelho da Guarda).

Como foi referido a propósito desse percurso, pretendeu-se levar os participantes à descoberta do património cultural material e imaterial, mas também do património natural daquela área do concelho da Guarda.

A AJTG promoveu também no passado ano (a 23 de março de 2025) um “Percurso das Alminhas” que, com início na Menoita, passou por várias localidades da freguesia de Pera do Moço: Menoita, Rapoula, Pera do Moço e Verdugal; com incidência no património local e na identificação de alminhas.

Singelos monumentos expressivos da religiosidade popular, as “Alminhas” constituem um património ímpar que não tem merecido a devida atenção e a necessária salvaguarda; deste modo, iniciativas como esta promovida pela Associação de Jogos Tradicionais da Guarda são de aplaudir, incentivar e apoiar.

Nesta região do interior existem inúmeros testemunhos do culto das almas, sob diversificadas manifestações de arte e nos mais distintos lugares, embora os caminhos e as encruzilhadas tenham constituído locais privilegiados para a sua implantação.

A representação do Purgatório num oratório, retábulo ou painel, com chamas envolvendo as almas que suplicam aos santos e apelam ao auxílio das preces de quem passa, materializou-se, inicialmente em pinturas, a partir do século XVI; conheceu uma maior difusão no século seguinte, no território português, com maior incidência a norte do Mondego (a sul essa manifestação artística ficou, muitas vezes, no interior das igrejas e nas capelas das Irmandades).

Embora alguns investigadores desta temática argumentem que as “Alminhas” se tenham inspirado e sejam uma herança das “civilizações clássicas de Roma e Grécia que nas suas deambulações já haviam erguido monumentos junto às estradas para devoção aos seus deuses”, sabemos que a origem das alminhas surge na Idade Média.

A partir do Concílio de Trento,1563, a ideia do Purgatório (anteriormente, e em especial nos primeiros séculos do cristianismo existia apenas o Céu e o Inferno) é imposta como dogma, atitude que é interpretada como uma resposta da Igreja Católica à reforma implementada pelos protestantes. Assim, o Purgatório surgia como um local (entre o Céu, para os bons, e o Inferno, para os maus) onde as almas passavam por um estado, forçado, de purificação. Estas manifestações de religiosidade popular e de arte eram, simultaneamente, um alerta permanente para a fragilidade da vida, perante a certeza da morte.

As “Alminhas” eram erguidas, normalmente, por iniciativa individual como homenagem, em memória de familiares ou no cumprimento de promessas. Esta devoção popular atravessou os tempos e embora a meio do século passado tenha sido evidente um rejuvenescimento através da introdução da azulejaria (e alterado o culto inicial para manifestação de fé em santos da predileção pessoal), muitos destes pequenos monumentos, mercê do tempo e da desertificação das regiões, caíram no esquecimento e em progressiva degradação.

 

“Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”…

 

Este apelo, inscrito em inúmeras “Alminhas”, bem pode ser, na atualidade, dirigido a todos nós que temos olvidado um peculiar património (não são conhecidos muitos mais exemplos – com exceção para alguns casos, raros – na Europa), disperso por caminhos, muros, pontes, campos, estradas…

O projeto da AJTG, centrado no “Culto Privado das Almas, é – como já tínhamos salientado em anteriores Anotações – um eminente contributo para a salvaguarda, estudo e divulgação deste património, o qual pode ancorar uma diversidade de roteiros, mas também suscitar investigações contextualizadas em épocas ou tipologias dessas expressões de religiosidade, permitindo a sua descrição/história através de códigos disponibilizados pelas novas tecnologias; exigindo igualmente a adequada sinalética e iluminação (mesmo nos locais mais ermos isso já é viável, através de focos/luminárias com energia solar).

No distrito da Guarda (como noutras regiões, obviamente) é urgente, fundamental, a completa referenciação (ou continuidade desse trabalho, já feito pela AJTG), a defesa, o estudo (por equipas interdisciplinares) e a divulgação das Alminhas, sob o risco de perdermos mais um importante traço identitário do nosso património e cultura.

No próximo sábado poderá redescobrir “alminhas” no percurso que a AJTG lhe propõe nos caminhos de um território rico de história, religiosidade e tradição.

 

Hélder Sequeira


 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Incrementar a cooperação


Ao longo do ano são múltiplos, e diversificados no perfil, os eventos que ocorrem nesta região do interior; iniciativas que incrementam, sem dúvida, fluxos de visitantes e contribuem para animação e desenvolvimento da economia regional.

Contudo, e tendo em conta, os indicadores das últimas décadas, a marca deixada por estas realizações poderia ser mais ampla se tivessem referenciada uma estratégia global, pensada a partir de um entendimento sério das organizações com vista a um trabalho em rede, objetiva e empenhadamente delineado.

A conjugação de esforços e de sinergias, as cedências necessárias para um planeamento consensual, a rentabilização de recursos humanos e financeiros, a rotatividade de algumas iniciativas, a promoção conjunta do território, a afirmação da matriz regional, a predisposição em pensar a construção do futuro, entre outras atitudes, permitiria um cenário substancialmente diferente; ao nível da procura da região, cativando novos visitantes, incentivando a sua permanência nas nossas terras por um período mais longo; assegurando argumentos sólidos e persuasivos…

Por várias vezes sublinhámos, noutras publicações, que continua a subsistir a tendência para pensar no imediato, circunscrevendo-o a áreas limitadas e numa lógica centrípeta de interesses pessoais, locais ou concelhios, teimosamente enfeudada no desconhecimento do que se passa nos territórios circunvizinhos; é certo que há alguns exemplos de boas práticas de cooperação mas, infelizmente, são raros e por vezes a sua desejada continuidade é interrompida.


Sem colocar em causa a prevalência de eventos que constituem cartazes dos centros urbanos onde são realizados, os quais têm demonstrado um contínuo crescimento e inequívoca adesão dos públicos a quem se destinam, será de equacionar um entendimento ao nível da calendarização, de forma a permitir uma maior abrangência dos projetos e realizações.

Todos os anos, e nomeadamente em épocas perfeitamente identificadas (o ciclo das feiras do queijo da serra pode ser um exemplo), se verifica uma pulverização de iniciativas, coincidindo com frequência nas mesmas datas e muito próximas geograficamente.

A implementação de uma agenda regional bilingue – alcançado que fosse o entendimento imprescindível para um equilibrado e eficaz planeamento – reunindo o máximo de contributos institucionais, associativos, pessoais resultaria num eficaz contributo para uma publicação onde estivesse, em cada ano, uma informação o mais completa possível dos eventos culturais, desportivos, económicos, sociais, científicos; a par de uma indicação clara de roteiros turísticos, locais a visitar, sabores a apreciar, unidades hoteleiras ao dispor, livros sobre a região/escritores ligados a esta zona, órgãos de comunicação existentes, museus, artesanato local, praias fluviais, tradições, coletividades, etc…

Embora o suporte tradicional – agenda impressa – seja adequado à distribuição em pontos estratégicos, nos eixos de circulação de visitantes nacionais ou estrangeiros, postos de turismo, unidades hoteleiras, feiras de promoção turística, o atual contexto tecnológico permite outras formas de consulta e disponibilização, mormente através de uma aplicação pensada para o telemóvel. A reunião e simplificação da informação facilitará a procura por parte dos vários escalões etários.

Nos tempos de hoje, a velha máxima de que “a união faz a força” tem mais sentido e o interior deve, urgentemente, acentuar a coesão se quiser superar os desafios do presente, reivindicar medidas de apoio, combater a ausências e o abandono de terras e lugares, onde prevalecem memórias, uma vasta riqueza patrimonial, cultural e paisagística.

É preciso passar, sem delongas, dos discursos retóricos sobre a importância da cooperação para compromissos sólidos e medidas práticas; visíveis e consequentes.

Naturalmente que neste processo de valorização do nosso território deverá estar, sempre, presente, a participação do cidadão, numa demonstração clara do seu empenho em intervir na promoção e desenvolvimento; não adianta ter manifestações enérgicas e palavras críticas nas redes sociais (como se elas fossem a solução…) e quando desafiado a colaborar remete-se à indiferença, ao afastamento, ao derrotismo…

É fundamental criar novos e profícuos entendimentos, a abertura de novos caminhos para a cooperação, para o desenvolvimento global e sustentado de uma região com muitas potencialidades por explorar.


Hélder Sequeira