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domingo, 20 de setembro de 2026

Martins de Queiroz: entre a Cirurgia e a Rádio


Revisitar a história de algumas das instituições que marcaram a Guarda é uma oportunidade de reencontro com personalidades cuja vida e trabalho se traduziu em prol das pessoas, da cidade, da comunidade e da região; personalidades tantas vezes injustamente esquecidas.

Neste dever da memória, trazemos hoje a estas anotações o nome do último diretor do Sanatório Sousa Martins, onde deixou a sua impressão digital e foi, igualmente, o dinamizador de uma marca radiofónica que ainda hoje perdura.


Manuel Martins Queiroz nasceu na freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos, a 13 de setembro de 1904. Na Faculdade de Medicina de Lisboa licenciou-se, em 1933, em medicina e cirurgia; exerceu a atividade médica nos Hospitais Civis de Lisboa e, a partir de 1945, passou a exercer as funções de Diretor do Departamento Cirúrgico do Sanatório do Caramulo. Este consagrado clínico trabalhou ainda no Hospital de Tondela (no serviço de cirurgia) e na Guarda, para onde veio em 1954, dirigiu o Sanatório Sousa Martins; teve também a seu cargo o Serviço de Cirurgia Mulheres do Hospital da Misericórdia.

Na unidade de saúde guardense desenvolveu uma relevante ação, quer em termos de atividade médica, quer ao nível da implementação e estruturação de novos serviços, bem como na área de terapia ocupacional, onde emergiu o contributo do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM), no âmbito do qual teve desenvolvimento o jornal Bola de Neve e a Rádio Altitude. A atividade daquele Centro serviu de base à comunicação “Recuperação do Tuberculoso a trabalhar durante o internamento” que apresentou no decorrer do Congresso Internacional Contra a Tuberculose realizado, na cidade de Roma, em setembro de 1963. O nome de Martins de Queiroz está ligado à criação de um aparelho para intervenção em situações de pneumotórax e a uma nova técnica osteoplástica utilizada à época. Este médico foi membro da Sociedade Internacional de Cirurgia do American College of The Chest Physicians e da American Trudeau Society.

Idealizou, para a Guarda, a Cidade Saúde; um plano com o objetivo de instalar na cerca do Sanatório todos os serviços de saúde disperso pela malha urbana citadina. Martins de Queirós por diversas vezes – nomeadamente na imprensa local – apresentou a sua ideia sobre o Parque da Saúde da Guarda; as conjunturas não foram, infelizmente, favoráveis à certificação da validade e oportunidade dos seus projetos. No jornal Notícias da Guarda, edição de 1 de janeiro de 1987, escrevia que “a tal Cidade Saúde, a tal Policlínica, o tal Centro de Saúde Modelo foi sonho mal sonhado” (…). Já em 72 esta clara solução é posta diante dos olhos das autoridades locais e governamentais (…)”.

A sua paixão pela Medicina e a sua dedicação ao doente não impediram que ele tivesse outra grande atração arrebatadora: a Rádio, certamente enraizada no contacto com a Rádio Pólo Norte, que já emitia no Caramulo desde 13 de maio de 1939. Na Guarda deu novas asas à Rádio nascida – nos finais da década de quarenta – no Sanatório desta cidade, materializando os seus conhecimentos na área da radiofusão sonora e batendo-se, sempre que necessário, pela prossecução e engrandecimento da emissora. Numa publicação intitulada “Rádio Altitude – ao serviço do regionalismo das Beiras”, e num contexto onde se desenhava o desaparecimento dessa estação emissora, Martins de Queirós sublinhava que a “a força da sua razão de ser assenta nestes dois pilares: regionalismo acérrimo, finalidade eminentemente social”; acrescentava que, “apesar desta razão de ser, R.A. está na contingência de desaparecer, não por debilidade própria, mas em obediência a conceitos que não consideram nem o regionalismo, nem o social e nem sequer assenta em realidades nacionais que nos parecem evidentes”.

Na defesa do regionalismo através das ondas hertzianas, insurgia-se contra o pensamento de que “as emissoras potentes, de larga cobertura, dispensarão estas de pequena potência”, argumentando que “umas e outras são precisas”.

Nessa linha de pensamento, após outros expressivos argumentos que pretendiam travar um desenlace fatal para a RA, sublinhava o papel da atividade radiofónica na representação da vida regional” através de um trabalho onde se “exprimam, resumem e exaltem o espírito, os valores e a têmpera das gentes e das coisas da região”. Após um período de afastamento, a partir de 1974, voltaria anos depois a dar alguma colaboração pontual; na década de 90 e perante uma falha na emissão de onda média não negou o seu saber e intervenção. Recordo as suas longas horas de trabalho pela noite dentro (juntamente com o Carlos Martins) na procura da identificação do problema (que se viria a descobrir ter sido um ato de vandalismo no cabo que ligava o emissor à antena). Conhecia, aliás, como ninguém esse emissor de onda média…

Martins de Queiroz faleceu no dia 23 de maio de 2009, data em que nos deixou também outra destacada personalidade guardense: João Gomes; ainda que diferenciados na sua postura, atividade profissional e ideologia, souberam servir e dignificar a Guarda, tendo deixado impressivos traços da sua intervenção social.

Do quarto e último diretor do Sanatório Sousa Martins, ficaram fortes marcas da sua ação naquela conhecida (nacional e internacionalmente) estância de saúde, cujo 120º aniversário da inauguração ocorrerá no próximo ano; materializou a solidariedade com os doentes de fracos recursos económicos, através da afirmação do CERISSM; associação que estabeleceu a ponte com a comunidade envolvente e outrossim com múltiplos percursos profissionais, dos quais, aliás, a própria cidade beneficiou.

A sua maior herança foi, talvez, a estação de radiodifusão sonora que, a partir de 1954, ajudou a robustecer e a projetar de forma inequívoca, na região e no país. Na Guarda da memória, há nomes que não devemos esquecer, contextualizando a sua ação na época e conhecendo melhor o seu percurso pessoal e profissional.

 

Hélder Sequeira


(publicado em O Interior, em 16|09|2026)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Para além do sonho interrompido...

 

“É como um Santuário, a Guarda. Vêm aí acolher-se milhares de crentes da Religião da Esperança, pedindo o restabelecimento da saúde e da vida; a volta do seu sonho interrompido”. Escrevia José Augusto de Castro, no início do século passado, a propósito desta cidade e do seu Sanatório, que foi uma referência nacional, insituição de que falaremos amanhã no Museu da Guarda (no âmbito do ciclo de palestras promovido pela Ordem dos Médicos).

A história, as sucessivas reivindicações de salvaguarda de um património ímpar têm merecido um impressionante alheamento ao longo de décadas;  há cerca de quatro anos atrás foi dado  a conhecer que os investimentos a realizar no Hospital Sousa Martins estavam centrados nas obras mais urgentes; na mesma altura a autarquia guardense mostrou a disponibilidade de colaboração com o objetivo de se conseguir-se a recuperação dos centenários pavilhões do Sanatório. Ao longo dos meses outras intenções, governamentais ou de responsáveis hospitalares, têm sido expressas, balizando promessas…

Os referidos pavilhões são símbolos de um período difícil em que se travou a luta contra a tuberculose. “Foram anos de luta pavorosa, /porém um dia o triunfo canta e reza”, anotou José Augusto de Castro num dos seus poemas.

Natural do concelho da Meda, concretamente da freguesia da Prova, José Augusto de Castro nasceu em1862; foi uma das principais figuras republicanas da Guarda

Durante a meninice aprendeu com o seu progenitor o ofício de alfaiate, profissão que lhe granjeou o sustento, a par do apoio à família, quando – com apenas 14 anos – foi para o Porto. Nessa cidade, fruto dos contactos que manteve, e do ambiente político que se vivia, foi crescendo a sua simpatia e interesse pela causa republicana.

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Em 1886 José Augusto de Castro voltou para junto da família, que residia, então, na aldeia do Vale (Meda), mas ali ficou por pouco tempo; decidiu partir para o Brasil, onde estava estabelecido o seu irmão mais velho. Os seus primeiros trabalhos jornalísticos são escritos na Baía, cidade onde singrou no ramo comercial.

Atingido pela tuberculose veio para a Guarda. “A crueldade do Destino não impediu que me envolvesse a bondade de amigos de nobilíssimo coração, a começar pelo Dr. Lopo de Carvalho, o ilustre médico, especialista da tuberculose, que tomou a peito arrancar-me da garra dilaceradora doença temerosa”. Grato ficou também ao Dr. Amândio Paul, segundo diretor do Sanatório Sousa Martins.

Este foi um período que o marcou profundamente, dele tendo ficado numerosas referências na sua produção literária. Na Guarda fundou, em 1904, “O Combate”; este jornal (que dirigiu até 1931) consubstancia a sua personalidade, o ideal republicano, o espírito combativo e a expressividade da sua escrita.

Tendo desempenhado as funções de Secretário da Câmara Municipal da Guarda (a par de outras atividades nesta cidade), José Augusto de Castro, após deixar de dirigir aquela publicação periódica, foi viver mais tarde para Coimbra, onde morreu a 13 de maio de 1942. Os seus restos mortais foram transladados, em setembro do ano seguinte, para a Guarda, a cidade que ele sempre distinguiu. “Outras terras mais lindas há, de certo…/Porém nenhuma fica assim tão perto/ do puro azul do céu de Portugal”.

Anotando, assim, uma efeméride, concluiremos dizendo que mesmo em tempo de céu cinzento e de enormes preocupações não devemos perder a serenidade, capacidade reivindicativa e o sentido das nossas responsabilidades, consentâneas com a gratidão para quantos pensaram, executaram e fizeram da Guarda a cidade da saúde.

É importante a salvaguarda da memória dos profissionais de saúde que ali trabalharam, mas também é justo honrar e valorizar ( pensando o futuro, melhores condições, a preservação e o aproveitamento adequado das estruturas físicas, a fixação de clínicos)  os atuais.

Hoje, mais do que nunca, é fundamental a cooperação de todos, para ultrapassarmos os problemas do presente, prepararmos (sem demagogia) o futuro da Guarda, recuperarmos o “sonho interrompido”.

 

Hélder Sequeira