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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Rádio Altitude: 78 anos de emissões

 

Hoje celebramos a Rádio Altitude, evocamos nomes, gerações, serviço público, determinação, criatividade, solidariedade, memórias, uma história ímpar.

Setenta e oito anos conferem a esta emissora guardense um estatuto muito especial, uma marca que devemos honrar e salvaguardar adaptando-a ao atual contexto social, económico e cultural e também aos caminhos abertos pela tecnologia.


A Rádio Altitude é indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra. Revisitar o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio, por pessoas que a viveram apaixonada e responsavelmente; podemos lembrar – e numa rápida referência a alguns que já nos deixaram – Vaz Júnior, António Pinheiro, António Santos, Luís Coutinho, Antunes Ferreira, Luís Coito, Vítor Santos, Manuel Daniel, Bernardino Jorge, José Domingos ou Clavier Alves…que, à semelhança de tantos outros nomes que ao longo de décadas trabalharam, colaboraram e garantiram a evolução e consolidação de uma emissora que granjeou admiração e afetos dentro e fora do território nacional; nomes que devem merecer o nosso apreço por aquilo que deram à rádio e à região servida pelas suas emissões.

Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde o longínquo ano de 1948.

A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe uma posição especial na história da Rádio em Portugal, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias. Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continue a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos; não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

Ao comemorar-se o septuagésimo oitavo aniversário da Rádio Altitude, devemos felicitar os seus atuais elementos e homenagearmos os múltiplos contributos pessoais e coletivos que guindaram a RA a uma posição de destaque no panorama radiofónico português.

A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. Parabéns Rádio Altitude!


Hélder Sequeira




sábado, 18 de julho de 2026

Guarda a nossa Rádio...

 

Fomos buscar o título deste apontamento de hoje à peça de teatro que escrevemos, e foi levada à cena, em 2023, aquando da comemoração do 75º aniversário da Rádio Altitude.

Uma peça para celebrar a rádio e, simultaneamente, proposta de reflexão sobre a função social deste meio de comunicação; sobretudo em regiões do interior, como esta zona da Beira Serra, onde nunca serão de mais os contributos que possam dar voz às populações, aos valores culturais e históricos, ao presente, aos sonhos do futuro.

A rádio continua a ter um papel fundamental na informação local e regional, na defesa da identidade destas terras e gentes. Nesta peça – cujo texto pode ser adaptado ou interpretado em diferenciados contextos geográficos, onde a rádio esteja presente – o espetador é levado para um estúdio, onde há vozes, músicas, memórias, sentimentos, sonhos, paixão, afetos; é desafiado a assistir a um programa de rádio, numa noite especial, onde se cruzam três gerações e que proporciona a revisitação de múltiplas estórias; a evocação de distintas vivências marcadas pela magia da rádio. No final há uma inesperada revelação e um comovido apelo para que a rádio se continue a reinventar e afirmar no futuro.

Há referências especiais, nomes e vozes que serão percetíveis aos leitores/espetadores; personagens que, como referido anteriormente, dão ao espetador a liberdade de as associar a outras vivências; são os afetos e a paixão pela Rádio que alimentam os diálogos, as memórias…

Na Guarda não faltam memórias da Rádio, que importa reter e salvaguardar, em torno de uma emissora que completa no próximo dia 29 de julho setenta e oito anos de emissões, mantendo a designação que assumiu no passado século no contento da vivência sanatorial da mais alta cidade portuguesa.

Embora já anos antes tenha havido alguma atividade radiofónica, ainda marcadamente experimental, a data oficial das emissões da Rádio Altitude é o dia 29 de julho de 1948.

Esta emissora “iniciou a sua sessão e, com ela, a sua vida oficial transmitindo depois do disco indicativo da estação, a saudação Salvé Rádio Altitude! proferida pela menina Aurora da Cruz, que foi escolhida para madrinha do Posto Emissor. Falou, em primeiro lugar, o Sr. Carlos Alberto Pereira, Vice-Presidente da Caixa Recreativa, que – anunciado pelo locutor de serviço com palavras de justa homenagem e consagração – começou por dizer: Rádio Altitude, posto emissor deste Sanatório, vai ser inaugurado oficialmente, depois de um período em regime experimental”. Assim noticiou o Bola de Neve, um jornal editado no Sanatório Sousa Martins

Como escrevemos em “O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha” (publicado em 2003), a Rádio Altitude é uma emissora com interessantes particularidades, originada no seio das experiências radiofónicas que ocorreram no Sanatório Sousa Martins, cerca de 1946. Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão do Sanatório onde estava concentrado o grupo de doentes (de tuberculose) pioneiros deste projeto; apenas com a construção de novo emissor foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.

No ano de 1947, o médico Ladislau Patrício (diretor do Sanatório Sousa Martins) aprovou (a 21 de outubro) o primeiro regulamento da emissora, onde estavam definidas orientações claras sobre o seu funcionamento; em finais desse ano as emissões já eram escutadas na malha urbana da Guarda. O início oficial das emissões regulares ocorreu, como atrás foi dito, em 29 de julho de 1948; um ano depois (1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21, identidade difundida por várias décadas.

A propriedade do primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa dos Internados no Sanatório Sousa Martins e mais tarde ao Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM); com a sua criação pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

Em 1961, mediante autorização oficial, a Rádio Altitude passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias, que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões da rádio guardense evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.


Até 1980 a Rádio Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro radioelétrico passou a emitir também em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz, alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz, que mantém na atualidade.

No ano de 1998, depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”. A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço do Sanatório Sousa Martins, hoje designado Parque da Saúde.

Ao celebramos, no próximo dia 29 de julho, o 78º aniversário das emissões regulares da RA devemos lembrar-nos que estamos perante uma rádio muito especial para a Guarda e região da beira serra. Uma rádio que tem o seu lugar na história da radiodifusão sonora em Portugal e encerra décadas de afetos, memórias, vivências, dedicação, serviço público, criatividade, formação, espírito solidário.

Esta emissora, confrontada com os desafios dos tempos hodiernos, permanece na memória coletiva das gentes beirãs…

 

Hélder Sequeira


in O Interior, 15 de julho 2026