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segunda-feira, 2 de março de 2026

Toponímia guardense...


A Rua Francisco de Passos é uma das mais conhecidas artérias da zona histórica da cidade. 

O seu nome evoca o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de Junho de 1926 e 25 de Agosto do ano seguinte

Embora o nome do primeiro governador do período do Estado Novo lhe tenha sido atribuído, por decisão do executivo municipal da Guarda, é por Rua Direita que muitos a continuam a identificar, privilegiando assim a tradição.

Guarda - Rua Francisco de Passos - HS.jpg

Aqui está uma atitude que reforça, no quotidiano, a importância de uma informação, complementar nas placas toponímicas citadinas (em especial, como é óbvio, nas zonas mais antigas), referenciando a atual e as anteriores designações.

Pinharanda Gomes alertou, numa das suas obras (e igualmente em vários textos) para o facto de que “a conservação dos toponímicos incólumes constitui um ato de prudência e de sapiência porque, ao mudar-se o nome de um lugar, atribuindo-lhe outro nome, porventura aleatório, é como se o nome antigo fosse arquivado e lançado ao esquecimento, pelo que a mudança de nomes censura a memória e perturba os roteiros orientativos”, considerando assim a “restituição da toponímia” um ato “de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade”.

Se percorrermos o roteiro citadino, encontramos os mais variados exemplos de mudanças que romperam com a memória do passado.

A Rua Francisco de Passos – Rua Direita – constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

Atualmente, a sua extensão está substancialmente reduzida pois este arruamento compreende o troço entre o entroncamento da Rua do Comércio, Praça Luís de Camões, Rua Augusto Gil e o Torreão; estabelece ligação, nomeadamente, com as ruas de D. Dinis, São Vicente, Largo de São Vicente, Rui de Pina e D. Sancho I.

É, sem dúvida, uma rua com história onde encontramos habitações centenárias e o edifício que funcionou (séculos XV e XVI) como Paço Episcopal; ali pode ser apreciada uma janela renascentista, “obra executada pelos artistas que estiveram a decorar a estilização da Sé Catedral, nomeadamente a Capela dos Pinas, no interior deste templo”.

Uma rua que abre outras artérias aos transeuntes, remetendo-os para a (re)descoberta da zona histórica da mais alta cidade portuguesa, unindo passado e presente.

 

Helder Sequeira

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ruas das Guarda

 

A Rua Francisco de Passos é uma das mais movimentadas artérias da zona histórica da cidade.

O seu nome evoca o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de Junho de 1926 e 25 de Agosto do ano seguinte

Embora o nome do primeiro governador do período do Estado Novo lhe tenha sido atribuído, por decisão do executivo municipal da Guarda, é por Rua Direita que muitos a continuam a identificar, privilegiando assim a tradição.

Guarda - Rua Francisco de Passos - HS.jpg

Aqui está uma atitude que reforça, no quotidiano, a importância de uma informação, complementar nas placas toponímicas citadinas (em especial, como é óbvio, nas zonas mais antigas), referenciando a atual e as anteriores designações.

Pinharanda Gomes alertou, numa das suas obras (e igualmente em vários textos) para o facto de que “a conservação dos toponímicos incólumes constitui um ato de prudência e de sapiência porque, ao mudar-se o nome de um lugar, atribuindo-lhe outro nome, porventura aleatório, é como se o nome antigo fosse arquivado e lançado ao esquecimento, pelo que a mudança de nomes censura a memória e perturba os roteiros orientativos”, considerando assim a “restituição da toponímia” um ato “de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade”.

Se percorrermos o roteiro citadino, encontramos os mais variados exemplos de mudanças que romperam com a memória do passado.

A Rua Francisco de Passos – Rua Direita – constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

Atualmente, a sua extensão está substancialmente reduzida pois este arruamento compreende o troço entre o entroncamento da Rua do Comércio, Praça Luís de Camões, Rua Augusto Gil e o Torreão; estabelece ligação, nomeadamente, com as ruas de D. Dinis, São Vicente, Largo de São Vicente, Rui de Pina e D. Sancho I.

É, sem dúvida, uma rua com história onde encontramos habitações centenárias e o edifício que funcionou (séculos XV e XVI) como Paço Episcopal; ali pode ser apreciada uma janela renascentista, “obra executada pelos artistas que estiveram a decorar a estilização da Sé Catedral, nomeadamente a Capela dos Pinas, no interior deste templo”.

Uma rua que abre outras artérias aos transeuntes, remetendo-os para a (re)descoberta da zona histórica da mais alta cidade portuguesa, unindo passado e presente.

 

Helder Sequeira

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

(Re)Conhecer a Toponímia…

 

Guarda - Rua dos Clérigos - Foto Helder Sequeira.

Por várias vezes escrevemos sobre a importância da toponímia, em cujo âmbito cabem múltiplos contributos e ações que podem suscitar uma ampla diversidade de estudos.

Se a investigação que pode ser desencadeada permitirá, por um lado, um enriquecimento cultural e o reforço da identidade local, por outro, irá identificar situações que exigem uma adequada e correta intervenção.

Independentemente das conjunturas, deve mover-nos uma Guarda da memória, a preocupação por uma cidade que preserve a sua história, dignifique os seus valores, honre os seus pergaminhos, mas saiba construir pontes sólidas para o futuro, envolver colaborações qualificadas, motivar o empenho dos seus habitantes, conquistar quem nos visita. “As cidades são como os homens; têm ou não carácter – e a tê-lo importa preservá-lo”, como escreveu Eugénio de Andrade.

A Guarda é muito mais que o património edificado; é memória, é somatório de vidas, experiências, é (deve ser) um pulsar coletivo, permanente. É imperativo de consciência e cidadania assumir-se uma atitude crítica, uma intervenção constante em prol do nosso espaço coletivo, de referência e de vivências. “O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa” e, como acrescentava Marc Bloch, “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.

Através da toponímia – tema que dá o mote para estas anotações – podemos abrir portas para o conhecimento do passado. Assim, poderemos começar por nos interrogar acerca da atenção que damos à toponímia, aos suportes físicos dos topónimos que condensam em si informação preciosa. Para além da necessidade de substituição de muitas placas, de forma a ser viabilizada uma clara identificação, importa lembrar a importância em associar anteriores denominações toponímicas. Sabemos que foram muitas as alterações toponímicas introduzidas ao longo do tempo.

Como escreveu Pinharanda Gomes, “na Guarda, e no decurso do nosso século [vinte], tem-se cometido, repetidas vezes, aleatórias modificações de toponímicos, dificultando ainda mais as tarefas dos que, por exemplo, dedicados a pesquisas arqueológicas, poderiam atacar desde logo o sítio exato, caso a memória do nome se mantivesse”.

Em vários casos, a designação atual de artérias citadinas é preterida, mercê do enraizamento de hábitos, ao antigo topónimo. Como exemplo, na Guarda, poderemos evocar a Rua Francisco de Passos que continua a ser designada, pela generalidade dos guardenses, como Rua Direita. O seu nome lembra o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de junho de 1926 e 25 de agosto do ano seguinte. Esta rua, recorde-se, constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

As alterações de nomes podem ser minimizadas, nestes como noutros casos, com a referência à anterior designação; aliás as novas placas toponímicas da Guarda, que estão a ser progressivamente introduzidas, já contemplam essa informação, quando é caso disso; essas placas, equipadas com “QRCode”, permitem aos transeuntes obter indicações sobre o nome ou facto referenciados. “Restaurar é restituir. A restituição da toponímia é um ato de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade, de abandono de opções adventícias, por vezes decorrentes das situações políticas, e, por fim, de entrega aos arqueólogos e aos historiadores, de uma nova fonte documental para historiografia a fazer”, tal como anotou Pinharanda Gomes, num dos seus livros.

A toponímia da Guarda é um vasto campo para estudo e investigação e pode levar-nos à (re)descoberta de múltiplas facetas do seu passado, validado por mais de oito séculos de história, enquanto urbe. Neste contexto, justifica-se a edição de um trabalho atualizado, com informação documental pertinente para simples consultas ou para subsequentes investigações.

Recorde-se que a “Toponímia Histórica da Guarda”, da autoria de Vergílio Afonso, foi editada em 1984. Desde essa altura a cidade cresceu, foram criadas novas ruas e urbanizações, atribuídos muito novos topónimos. É certo que têm sido publicados alguns artigos e livros sobre toponímia, como é o caso de “A Toponímia da cidade da Guarda e a construção da memória pública no século XX”, da autoria de Maria José Neto, editado em 2013. Uma obra com o propósito de esclarecer como “as alterações de ordem política interferem na actualização e construção da memória pública”, através da qual foi feito “o levantamento dos topónimos existentes no início do século XX para (…) se identificarem, nas nomeações e renomeações das vias, os topónimos de continuidade e de ruptura com a conjuntura vigente. Caracterizado o espaço do centro histórico no início do século XX, acompanhou-se a expansão da urbe até ao ano de 1980, identificaram-se os protagonistas e os ritos usados na criação da memória pública.” Como escreveu, então, a autora.

Em 2015, o Politécnico da Guarda publicou o livro "Desafios e Constrangimentos do Estudo da Toponímia – intervenções e contributos”, na sequência de um fórum, com várias edições, sobre a mesma temática. Nos últimos anos, com maior ou menor regularidade, têm sido publicados alguns trabalhos incidindo sobre diferentes personalidades consagradas na toponímia guardense.

Ainda que as novas tecnologias e os equipamentos de comunicação hodiernos facilitem o acesso a muitos dados, isso não exclui a importância – para o presente e para o futuro – de uma publicação, abrangente e com múltiplos contributos interdisciplinares, sobre a Toponímia da Guarda; com rigor, ilustrada, de consulta fácil, acessível e útil à generalidade dos cidadãos, residentes ou visitantes.


Hélder Sequeira

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Uma rainha na Guarda...


Um pouco na linha daquilo que escrevemos em anteriores apontamentos, falamos hoje de uma personalidade com emblemática ligação à Guarda. Referimo-nos a D. Amélia de Orléans, última rainha de Portugal, falecida a 25 de outubro de 1951.

Esta cidade deve-lhe um dos seus principais ex-libris, de que hoje, infelizmente, restam simbólicas e degradadas estruturas arquitetónicas, denunciadoras do desleixo e indiferença das entidades competentes

O Sanatório Sousa Martins ficará perenemente ligado a D. Amélia pelo relevante papel que teve na sua criação; empenhada nas causas sociais, esta rainha dispensou particular atenção aos mais desfavorecidos, sendo, aliás, particularmente significativo o facto de o pavilhão destinado aos doentes mais pobres ostentar o seu nome.

Maria Amélia Bourbon e Orléans nasceu em Twickenham, arredores de Londres em 28 de setembro de 1865 (curiosamente o futuro marido, D. Carlos, nasceu também no mesmo dia, dois anos antes).

A filha mais velha de Filipe de Orleans (conde de Paris e chefe da Casa Real de França) e de Isabel de Montpensier, que se encontravam (à altura) exilados em Inglaterra, apenas foi viver para França no ano de 1871.

Nos anos seguintes, Amélia de Orléans viajou com frequência e frequentou os principais palácios das monarquias europeias; personagem culta, apreciava o teatro, a ópera, a pintura e a leitura, convivendo, em Paris, com os escritores mais eminentes da época. 

Em 1886 conheceu D. Carlos, herdeiro da coroa portuguesa, de quem veio a ficar noiva, nesse mesmo ano; o casamento ocorreu em 22 de maio, em Lisboa, onde cedo manifestou as suas preocupações face ao flagelo da denominada “peste branca”.

Rainha D. Amélia.jpg

Eça de Queirós definiu-a como “senhora de grande e dedicada esmola. E a sua esmola não baixa majestosamente do trono, numa salva, entre alabardeiros. Ela própria a leva, sob um véu espesso, a todos os recantos (...); ama a caridade racional, que se organiza, se arma em instituição, derrama o bem por estatuto”. A sua atenção às questões culturais manifestou-se por diversas formas sendo a criação do Museu dos Coches Reais, em 1905, uma das mais expressivas traduções dessa postura.

Amélia de Orléans viveu em Portugal entre 1886 e 1910, num período social e politicamente muito complexo, em que soube superar muitas contrariedades e definir uma estratégia de auxílio às camadas sociais com menores recursos. A Assistência Nacional aos Tuberculosos, de que o Sanatório da Guarda foi a primeira unidade hospitalar, constituiu, nesta matéria, uma das obras mais marcantes da intervenção social da Rainha D. Amélia.

Para a tuberculose como para outros tantos males, há meios na ciência para, se não os conjurar, ao menos diminuir os seus estragos e remediar os seus efeitos”, como afirmou, em 1900, numa das suas intervenções públicas. Na cruzada contra a tuberculose, a Rainha procurou, por vários meios, canalizar recursos financeiros para combater a doença; a receita da venda do livro “O Paço de Sintra”, escrito a seu pedido pelo Conde de Sabugosa, e que foi ilustrado com desenhos feitos por D. Amélia, foi um dos muitos contributos para essa causa, em relação à qual o Sanatório da Guarda se afirmou verdadeiro baluarte.

A Rainha D. Amélia, acompanhada pelo Rei D. Carlos, veio à Guarda em 18 de maio de 1907, aquando da inauguração do Sanatório a que atribuiu, como homenagem, o nome do médico Sousa Martins (que falecera em 1897, e de quem já falamos neste jornal em anteriores edições).

A vida da Rainha ficou tristemente marcada pelo regicídio ocorrido, em Lisboa, em 1 de fevereiro de 1908, de que resultou a morte do Rei D. Carlos e do herdeiro D. Luís Filipe, Príncipe da Beira; com a aclamação de D. Manuel II, como Rei de Portugal, a 6 de maio de 1908, D. Amélia passou a colaborar nos atos da governação.

Em julho de 1910, a Rainha, na qualidade de Presidente da ANT, veio de novo à Guarda, numa visita, muito discreta, ao Sanatório e à filha do Conde de Tarouca, que ali estava internada.

Implantada a República, em 5 de outubro de 1910, a Rainha D. Amélia foi forçada ao exílio; começa por se instalar em Woodnorton (Inglaterra), residência do irmão, e em janeiro de 1911 passou a viver em Richmond Hill. No verão de 1921 mudou-se para França; a nova residência situava-se em Chesnay (nas proximidades do Palácio de Versalhes), numa mansão designada por Château de Bellevue.

No ano de 1939 foi convidada por Salazar para vir para Portugal, mas a Rainha não aceitou e passou os anos da segunda guerra mundial em França, onde não esqueceria as suas ligações ao nosso país, tendo hasteado mesmo a bandeira portuguesa na sua residência. Seis anos depois, em maio de 1945, veio a Portugal e foi recebida de forma apoteótica; entrou na fronteira de Vilar Formoso a 17 de maio de 1945, na véspera de se comemorarem trinta e oito anos após a inauguração do Sanatório Sousa Martins.

A Rainha D. Amélia faleceu, em Chesnay (Versalhes) na manhã de 25 de outubro de 1951; o seu corpo seria transladado para Portugal, em março de 1952, tendo ficado no Panteão Nacional.

A Câmara Municipal da Guarda decidiu, a 5 de Dezembro de 1951, atribuir o nome da última rainha de Portugal ao troço da estrada nacional nº 18 que ladeava o Sanatório e o extremo da Rua Batalha Reis; dois anos depois, a autarquia guardense deliberou proceder à eletrificação da referida avenida, junto à qual, no interior de cerca daquele sanatório, foi inaugurado - a 31 de Maio de 1953 - o Pavilhão Novo (bloco da Unidade Local de Saúde que ladeia a Avenida Rainha D. Amélia).

Ao evocarmos esta rainha estamos também a relembrar um importante período da história da Guarda e a projeção alcançada por esta cidade no plano nacional e internacional. 


Hélder Sequeira 

                                                                                                           

 

 

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Rui de Pina na (re)descoberta da cidade…

 


Rui de Pina é uma das personalidades que estão ligadas à história da Guarda, estando o seu nome perpetuado numa das ruas do centro histórico da mais alta cidade de Portugal.

Cronista-Mor do Reino, funções que começou a exercer em 1497, por nomeação de D. Manuel I, Rui de Pina foi também guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Régia; sete anos antes já D. João II o tinha encarregue de “escrever e assentar os feitos famosos assim como de nossos reinos”.

Este cronista terá nascido cerca de 1440, na Guarda; contudo, e à semelhança do que acontece com outras figuras da nossa história e da nossa literatura, há quem questione a sua naturalidade; neste caso é assinalada uma possível ligação a Montemor-o-Velho, onde casou e viveu o seu pai, Lopo Fernandes de Pina.

Certezas, relativamente aos laços que prendem Rui de Pina (oriundo de família nobre) à Guarda, existem quanto ao seu casamento nesta cidade, à sua residência aqui e ao nascimento do seu filho, Fernão de Pina, nesta secular urbe, a quem destinou alguns dos seus bens; tendo sido um homem abastado, o nosso cronista protagonizou uma enorme influência social na sua época.

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Rui de Pina integrou o círculo mais restrito do rei D. João II que o encarregou de várias missões diplomáticas ao Vaticano e a Espanha, nomeadamente na defesa dos interesses de Portugal após a viagem e a descoberta de Cristóvão Colombo; um trabalho que deixa transparecer as preocupações com os limites territoriais que seriam definidos, mais tarde, pelo célebre Tratado de Tordesilhas.

Rui de Pina morreu na Guarda em 1522, provavelmente na sua Quinta de Santiago, localizada na zona onde está o Chafariz d’El Rei, nas proximidades do atual quartel dos Bombeiros Voluntários Egitanienses.

Virgílio Afonso, na “Toponímia Histórica da Guarda”, faz alusão aos vestígios da sepultura do cronista, encontrados na antiga Igreja de Nossa Senhora do Mercado, nesta cidade, que se localizou na extremidade (poente) da hoje denominada Rua Augusto Gil.

Após a sua morte, as funções de Rui Pina seriam prosseguidas pelo seu filho Fernão (natural da Guarda, como atrás se disse), o qual assumiu em 1523 os cargos de guarda-mor da Torre do Tombo e de cronista régio.

Como escreveu José Mota da Romana na sua “Antologia de Escritores da Guarda (século XII a XX)”, o valor “historiográfico deste nosso conterrâneo é polémico e até muito contestado, já desde o século XVI”, havendo ainda quem o acuse de ter utilizado textos de Fernão Lopes. Contudo, como bem sublinha, “o conceito de originalidade ou até de plágio era bem diferente do que temos nos nossos dias com a evolução das teorias literárias”.

Rui de Pina redigiu as Crónicas de D. Sancho ID. Sancho IID. Afonso IID. Afonso IIID. DinisD. Afonso V e D. João II.

Através destas duas últimas, sobretudo, o cronista régio que é recordado na toponímia guardense legou-nos um inquestionável contributo para a historiografia da expansão portuguesa e outrossim para o conhecimento do quotidiano do século XV, sustentado num estilo que enquadra a sobriedade e, não raro, uma expressiva dinâmica narrativa.

E as ruas da nossa cidade podem, também elas, conduzir-nos a múltiplas e interessantes narrativas, associadas e figuras e factos…

 

Hélder Sequeira