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domingo, 20 de setembro de 2026

Martins de Queiroz: entre a Cirurgia e a Rádio


Revisitar a história de algumas das instituições que marcaram a Guarda é uma oportunidade de reencontro com personalidades cuja vida e trabalho se traduziu em prol das pessoas, da cidade, da comunidade e da região; personalidades tantas vezes injustamente esquecidas.

Neste dever da memória, trazemos hoje a estas anotações o nome do último diretor do Sanatório Sousa Martins, onde deixou a sua impressão digital e foi, igualmente, o dinamizador de uma marca radiofónica que ainda hoje perdura.


Manuel Martins Queiroz nasceu na freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos, a 13 de setembro de 1904. Na Faculdade de Medicina de Lisboa licenciou-se, em 1933, em medicina e cirurgia; exerceu a atividade médica nos Hospitais Civis de Lisboa e, a partir de 1945, passou a exercer as funções de Diretor do Departamento Cirúrgico do Sanatório do Caramulo. Este consagrado clínico trabalhou ainda no Hospital de Tondela (no serviço de cirurgia) e na Guarda, para onde veio em 1954, dirigiu o Sanatório Sousa Martins; teve também a seu cargo o Serviço de Cirurgia Mulheres do Hospital da Misericórdia.

Na unidade de saúde guardense desenvolveu uma relevante ação, quer em termos de atividade médica, quer ao nível da implementação e estruturação de novos serviços, bem como na área de terapia ocupacional, onde emergiu o contributo do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM), no âmbito do qual teve desenvolvimento o jornal Bola de Neve e a Rádio Altitude. A atividade daquele Centro serviu de base à comunicação “Recuperação do Tuberculoso a trabalhar durante o internamento” que apresentou no decorrer do Congresso Internacional Contra a Tuberculose realizado, na cidade de Roma, em setembro de 1963. O nome de Martins de Queiroz está ligado à criação de um aparelho para intervenção em situações de pneumotórax e a uma nova técnica osteoplástica utilizada à época. Este médico foi membro da Sociedade Internacional de Cirurgia do American College of The Chest Physicians e da American Trudeau Society.

Idealizou, para a Guarda, a Cidade Saúde; um plano com o objetivo de instalar na cerca do Sanatório todos os serviços de saúde disperso pela malha urbana citadina. Martins de Queirós por diversas vezes – nomeadamente na imprensa local – apresentou a sua ideia sobre o Parque da Saúde da Guarda; as conjunturas não foram, infelizmente, favoráveis à certificação da validade e oportunidade dos seus projetos. No jornal Notícias da Guarda, edição de 1 de janeiro de 1987, escrevia que “a tal Cidade Saúde, a tal Policlínica, o tal Centro de Saúde Modelo foi sonho mal sonhado” (…). Já em 72 esta clara solução é posta diante dos olhos das autoridades locais e governamentais (…)”.

A sua paixão pela Medicina e a sua dedicação ao doente não impediram que ele tivesse outra grande atração arrebatadora: a Rádio, certamente enraizada no contacto com a Rádio Pólo Norte, que já emitia no Caramulo desde 13 de maio de 1939. Na Guarda deu novas asas à Rádio nascida – nos finais da década de quarenta – no Sanatório desta cidade, materializando os seus conhecimentos na área da radiofusão sonora e batendo-se, sempre que necessário, pela prossecução e engrandecimento da emissora. Numa publicação intitulada “Rádio Altitude – ao serviço do regionalismo das Beiras”, e num contexto onde se desenhava o desaparecimento dessa estação emissora, Martins de Queirós sublinhava que a “a força da sua razão de ser assenta nestes dois pilares: regionalismo acérrimo, finalidade eminentemente social”; acrescentava que, “apesar desta razão de ser, R.A. está na contingência de desaparecer, não por debilidade própria, mas em obediência a conceitos que não consideram nem o regionalismo, nem o social e nem sequer assenta em realidades nacionais que nos parecem evidentes”.

Na defesa do regionalismo através das ondas hertzianas, insurgia-se contra o pensamento de que “as emissoras potentes, de larga cobertura, dispensarão estas de pequena potência”, argumentando que “umas e outras são precisas”.

Nessa linha de pensamento, após outros expressivos argumentos que pretendiam travar um desenlace fatal para a RA, sublinhava o papel da atividade radiofónica na representação da vida regional” através de um trabalho onde se “exprimam, resumem e exaltem o espírito, os valores e a têmpera das gentes e das coisas da região”. Após um período de afastamento, a partir de 1974, voltaria anos depois a dar alguma colaboração pontual; na década de 90 e perante uma falha na emissão de onda média não negou o seu saber e intervenção. Recordo as suas longas horas de trabalho pela noite dentro (juntamente com o Carlos Martins) na procura da identificação do problema (que se viria a descobrir ter sido um ato de vandalismo no cabo que ligava o emissor à antena). Conhecia, aliás, como ninguém esse emissor de onda média…

Martins de Queiroz faleceu no dia 23 de maio de 2009, data em que nos deixou também outra destacada personalidade guardense: João Gomes; ainda que diferenciados na sua postura, atividade profissional e ideologia, souberam servir e dignificar a Guarda, tendo deixado impressivos traços da sua intervenção social.

Do quarto e último diretor do Sanatório Sousa Martins, ficaram fortes marcas da sua ação naquela conhecida (nacional e internacionalmente) estância de saúde, cujo 120º aniversário da inauguração ocorrerá no próximo ano; materializou a solidariedade com os doentes de fracos recursos económicos, através da afirmação do CERISSM; associação que estabeleceu a ponte com a comunidade envolvente e outrossim com múltiplos percursos profissionais, dos quais, aliás, a própria cidade beneficiou.

A sua maior herança foi, talvez, a estação de radiodifusão sonora que, a partir de 1954, ajudou a robustecer e a projetar de forma inequívoca, na região e no país. Na Guarda da memória, há nomes que não devemos esquecer, contextualizando a sua ação na época e conhecendo melhor o seu percurso pessoal e profissional.

 

Hélder Sequeira


(publicado em O Interior, em 16|09|2026)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Faleceu Emílio Aragonez

 

Emílio Aragonez faleceu hoje, a poucos dias de completar os 92 anos.  Foi, durante décadas, uma das vozes mais populares das emissões radiofónicas feitas, em onda média, a partir da cidade mais alta de Portugal. 

O seu funeral será amanhã, pelas 10h30, após missa de corpo presente na Igreja da Misericórdia da Guarda. O velório decorre hoje, a partir das 16 horas na Casa Mortuária da Misericórdia.

Emílio Aragonez _foto HS (2).jpg

Personalidade com profundas ligações à Rádio Altitude, Emílio Aragonez nasceu em 21 de setembro de 1934, em Portalegre. Para a Guarda veio com cinco anos. Posteriormente, face às contingências resultantes da atividade profissional do pai, foi viver para Cascais, Pinhel, Peniche e Seia, após o que ocorreu o regresso definitivo à Guarda.

Com onze anos começou a trabalhar na Ourivesaria Correia, na Guarda. “Fui para lá ganhar 80 escudos por mês e passados dois meses fui aumentado para cem”. As aulas no Liceu ficaram para trás, pois os horários não eram compatíveis com o trabalho; o estudo circunscreveu-se ao período da noite. Emílio Aragonez frequentou o Colégio de S. José, a Escola Comercial e Industrial e a Escola dos Gaiatos, nesta cidade.

Aos dezoito anos abriu o seu primeiro estabelecimento comercial, na Rua 31 de Janeiro. Três anos depois mudou-se para a Rua do Campo, instalando-se no antigo espaço da Espingardaria Sport, que pertencera a um antigo chefe da Polícia; iniciava-se um ciclo de atividade na área da relojoaria e ótica; contudo, circunstâncias diversas contribuíram, muitos anos depois, para o abandono da vida comercial e empresarial. Ficou, deste modo, aberto o caminho para uma dedicação total ao jornalismo e à rádio.

Desde os dezanove anos que mantinha, aliás, uma permanente paixão pela Rádio Altitude, onde começou a colaborar no início da década de cinquenta. “Foi aberto concurso para pessoas externas ao Sanatório, concorri e fui admitido. Para mim era um desafio. Trabalhava durante o dia e à noite ia para a Rádio, a apresentar discos pedidos, que eram imensos. Contudo isto representava o início da concretização de um sonho, de estar ligado à rádio e à informação”.

Nos primórdios da sua atividade radiofónica teve por companheiros alguns dos internados no Sanatório Sousa Martins. “Havia, naturalmente, muito receio deste contacto com os doentes”, temor a que não escapava a própria cidade. Os tuberculosos eram cuidadosamente evitados pela generalidade da população da cidade, onde, então, se via muita pobreza.

 “Recordo-me de haver largas dezenas de pessoas que se dirigiam ao Lactário para obterem o leite destinado à alimentação dos filhos; iam buscar a sopa à Cozinha Económica, na altura a funcionar noutras instalações. Aos dias de mercado, sobretudo, apareciam muitos rapazes e raparigas descalços e isso já diz muito sobre a realidade social”.

Nessa época, as emissões da Rádio Altitude eram à noite, tendo depois passado a existir um espaço na hora do almoço. “Comecei também a fazer algumas das emissões desse horário, mas o trabalho mais alargado era aos fins-de-semana, dado que alguns doentes faltavam; havia um que tinha um programa desportivo, outro era responsável por um programa vocacionado para as questões culturais e um outro realizava o “Vento do Norte”, que foi um programa muito polémico”.

Predominavam os programas de discos pedidos, os quais registavam uma permanente avalanche de solicitações, cujo atendimento se ia prolongando por semanas sucessivas. “Eram tantos os pedidos e o espaço tão reduzido que era colocado um disco num dia e outros em programas posteriores. Por vez para se ouvirem quatro dedicatórias tinha de se esperar um mês”, lembrava (numa entrevista que registámos há alguns anos) Emílio Aragonez, mais tarde rendido ao fascínio das reportagens.

Nesse período, e anos subsequentes, havia regras rígidas relativamente às emissões radiofónicas e, como aconteceu até ao 25 de Abril de 1974, a polícia política estava sempre atenta, e atuante. Mesmo assim, Emílio Aragonez desvaloriza essa interferência. “As notícias que eram transmitidas, nos primeiros tempos, eram baseadas nos jornais e estes já tinham passado pela censura”. O que não impediu diversas chamadas de atenção por parte do Administrador ou Diretor da Rádio, e a deslocação, por duas vezes, às instalações de P.I.D.E., contudo sem quaisquer consequências.

Uma delas foi “por causa de um disco que tinha sido transmitido e depois desapareceu; o disco tinha sido gravado em França e era de uma voz portuguesa, já não sei se era do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira”.

A seguir ao 25 de Abril, a estação viveu momentos de grande agitação e geraram-se tentativas de “tomar o Altitude”. “Alguns dias após a data da revolução cheguei a estar 24 horas sem poder sair da Rádio, por imposição do MFA, onde esteve uma força militar comandada pelo alferes Pardalejo”.

Pessoa de improviso fácil, e anotações rápidas, Emílio Aragonez assegurava os diretos da rádio de uma forma atrativa, suscitando o interesse informativo, curiosidade e audição atenta. 

“Na década de setenta, quando Marcelo Caetano se deslocou a Manteigas, julgo que para inaugurar o edifício da Câmara, houve um atraso de mais de uma hora, em relação ao horário previsto. Como não havia possibilidades de desfazermos a ligação e voltar a retomá-la – os meios eram bem diferentes dos atuais – tive de aguentar a transmissão, recorrendo apenas a duas curtas entrevistas. O resto do tempo falei de Manteigas, da Serra, das potencialidades turísticas e de outras informações e descrições que fui considerando oportunas”.

A Rádio foi, sem reservas, uma grande afeição da sua vida, feita de trabalhos, desencontros, incompreensões silêncios, amarguras e felicidade; vida simultaneamente enraizada em convicções e em princípios, passando ao lado, de eventuais críticas ou atitudes injustificadas.

Ao longo de décadas, deu voz à notícia, trouxe à luz da ribalta questões tantas vezes ignoradas; desencadeou o confronto de opiniões, denunciou injustiças, foi porta-voz de múltiplas aspirações de terras e gentes. “Estive, sempre, na vanguarda da informação, sem nunca hipotecar a minha consciência profissional nem trair os meus princípios”.

Emílio Aragonez assumiu o jornalismo e a rádio sem nunca esquecer a função social subjacente; o que, aliás, foi sempre reconhecido pelos ouvintes, a quem nunca negou a sua presença, e voz, mesmo em situações nas quais motivos de ordem pessoal, o cansaço ou a doença aconselhavam repouso.

“Muitas vezes acabava por dormir na Rádio, nomeadamente quando vinha às tantas da noite de alguma reportagem e tinha de abrir a emissão no dia seguinte”. Quando a cidade acordava envolta em espesso manto de neve “a rádio chegava a abrir mais cedo e era a partir daí que praticamente se comandava a cidade. Era um trabalho de autêntico serviço público, com informações sobre os vários estabelecimentos de ensino, circulação nas estradas, funcionamento dos serviços públicos. Ouvir o Altitude era essencial”.

Sempre atento ao quotidiano, na sua memória circulam, volvidos estes anos, muitas imagens e sons que pertencem aos bastidores da rádio; fora do estúdio de emissão havia lugar a dramas individuais, sofrimentos, dificuldades a superar, batalhas contra o tempo, necessidade de discernir e graduar com rapidez aquilo que era matéria informativa e não mero adereço de projeções institucionais ou pessoais; ocorriam confrontos marcantes no percurso individual e profissional; impressões muitas vezes gravadas de maneira indelével, que não pactuam com o esquecimento.

Emílio ARAGONEZ _homenagem.JPG Emílio Aragonez no dia da homenagem que lhe foi prestada pelo Rotary Club da Guarda. Na foto (esquerda para a direita): António Martinho, Albino Bárbara, António José Teixeira, Emílio Aragonez, Helder Sequeira, Carlos Martins.

 

O nascimento de Emílio Aragonez para a rádio, e a projeção que alcançou através desta popular emissora, ocorreu na época das emissões em onda média, quando a frequência modulada estava longe de ser uma realidade na estação CSB-21, o indicativo atribuído à Rádio da mais alta cidade portuguesa.

A sua voz aquecia as noites guardenses, esbatia a solidão, aumentava progressivamente o auditório, despertando incontidas manifestações de simpatia. “Diziam-me que a minha voz era agradável e depois, também pelo que me é dito, tinha uma maneira muito peculiar de falar. Isto começou, realmente, nos programas da noite, quando a cidade precisava de companhia e a companhia era a rádio. Foram anos, anos e anos com a minha voz a entrar pela casa das pessoas”.

Por outro lado, Emílio Aragonez salientou-nos ter havido um largo período “em que os outros tinham um certo receio de levantar os problemas. Eu dei sempre a cara, mesmo sabendo que iria sofrer dissabores; não só eu como a minha família.” Mas não há lugar a arrependimentos, dizia-nos, há alguns anos, em tom inequívoco. Embora a faceta de jornalista seja a mais conhecida, era um intransigente defensor da música portuguesa, presença constante nos espaços radiofónicos por ele animados, sem cair no gosto medíocre.

A sua aparência descontraída, porventura mesmo descuidada, reflexo da sua peculiar forma de ser e do desprendimento pelos bens materiais, não raro originava humorísticos episódios, partilhados depois nos círculos de colegas e amigos, os quais facilmente lhe reconheciam mais virtudes do que defeitos.

A Rádio Altitude representou para Emílio Aragonez “praticamente uma vida toda. Uma pessoa que entra para ali aos 19 anos e fica lá até aos 68 obviamente que representa tudo”, como nos afirmava, sem hesitações. “Esqueci-me muitas vezes que tinha família, esqueci-me dos amigos e vivia para o Altitude. Era tudo para mim!...”.

Há dois anos foi o protagonista principal da curta metragem "Discos Pedidos", tendo regressado aos estúdios da sua Rádio.

Emílio Aragonez era uma memória viva da Guarda – das suas estórias e tradições – igual a si próprio, referência de um tempo cúmplice das ondas hertzianas, quais laços de solidariedade com a cidade e uma vasta região…

Até sempre, Amigo Aragonez!...


Hélder Sequeira 

 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2026

729º aniversário do Tratado de Alcanices


Hoje assinala-se o 724º aniversário da assinatura do Tratado de Alcanices, ocorrida 12 de Setembro de 1297 naquela localidade espanhola.  O Tratado de Alcanices é considerado “um dos suportes da identidade de Portugal”, assumindo um particular significado para a região raiana de Riba Côa.

Com a assinatura deste importante documento passaram para o domínio português os castelos do Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e a localidade de San Felice de los Galegos – na zona de Riba Côa – além de Olivença, Ouguela e Campo Maior.

O rei D. Dinis, de acordo com o estabelecido nesse tratado, desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena. A conjuntura interna espanhola (nomeadamente as divergências profundas dos tutores do rei castelhano) não deixou de se reflectir neste tratado, bem como a visão estratégica do monarca português.

De forma a acentuar os compromissos assumidos, firmou-se a promessa de casamento do rei espanhol, D. Fernando IV, com a filha de D. Dinis (a infanta D. Constança), enquanto D. Beatriz, infanta de Castela, foi prometida ao príncipe D. Afonso (filho de D. Dinis).

As terras de Riba Côa começaram por estar sob o domínio militar de D. Afonso Henriques e mais tarde foram ocupadas por Fernando II de Leão, constituindo um território onde as oscilações dos limites fronteiriços eram constantes.

Alcanices - foto Helder Sequeira.jpeg

      Alcanices

 

O Tratado fixou, de forma clara, a fronteiras portuguesas deste território limitado pelos rios Côa e Águeda e pela ribeira de Tourões. Era, como escreveu Pinharanda Gomes, uma “terra de ninguém” que se converteu no “último pedaço da Hispânia a perder a independência, por diplomacia do senhor rei D. Diniz; cantão no coração da Hispânia, com os municípios de Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo e Sabugal, além de vários outros, hoje extintos mas reais”.

O Côa abandonou o seu papel de fronteira física e sobre ele lançaram-se novas pontes que favoreceram a circulação de pessoas e produtos; veja-se o caso do Porto de S. Miguel (assinalado no Foral de Castelo Mendo, de 1228, como Portum Mauriscum) ou da Rapoula do Côa.

Se na perspectiva portuguesa este acordo veio definir, definitivamente o território português, do ponto de vista castelhano ele foi entendido como aliança com vista à salvaguarda da paz, fundamental para a resolução dos conflitos internos existentes.

Segundo Miguel Ladero Quesada, foi o espírito diplomático de D. Sancho IV “nos últimos anos do seu reinado, sobretudo, a sua morte prematura e a gravíssima crise política castelhana na menoridade de Fernando IV que permitiram a D. Dinis jogar, alternativamente, as cartadas da guerra e da aliança para conseguir mais territórios dos que havia esperado e fixar as fronteiras em limites muitos favoráveis aos seus interesses”.

Para aquele investigador  é de supor que “algumas cláusulas do tratado seriam inconcebíveis em circunstâncias normais para os reis castelhano-leoneses, como as que se verificaram até 1295”.

Contundo, no quadro conjuntural da época D. Dinis terá tido a percepção de como era importante não deixar escapar a oportunidade de alargar o território português através de uma faixa em relação à qual Castela atribuía um interesse menor face às questões oriundas do reino de Aragão e da área peninsular sob domínio islâmico, a sul.

Assim, Alcanices traduz, como muitos reconhecem, um protagonismo inteligente da diplomacia portuguesa, evidenciado mais tarde por vários historiógrafos, cuja interpretação relativamente à passagem de Riba Côa para a Coroa lusitana assentava não na conquista territorial mas na justa restituição de terras, onde se erguia – por exemplo – o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (junto à histórica localidade de Castelo Rodrigo).

Por outro lado, e numa leitura dos discursos historiográficos e geográficos sobre Alcanices, Luis Carlos Amaral e João Carlos Garcia realçam que “a História precede a Geografia no debate do tema, mas é uma certa Geografia que fixa em imagem cartográfica Alcanices como marco final de um processo. Também nem todos os historiadores se preocuparam particularmente com este facto diplomático e político do reinado de D. Dinis”.

Aquando da passagem dos 700 anos da assinatura do Tratado de Acanices realizou-se um Congresso Luso-Espanhol nas vilas de Riba Côa, cujo programa, para além dos diversos estudos apresentados, incluiu várias exposições que reuniram pela primeira vez um valioso acervo das peças mais representativas do património histórico e artístico desta região; uma iniciativa que veio lançar novos olhares e interesses sobre este destacado momento do processo histórico português.

Como salientou o historiador Veríssimo Serrão no decorrer desse congresso, “As grandes vantagens do Tratado de Alcanices resultavam da fixação da fronteira portuguesa que, com excepção de Olivença, ocupada pela Espanha em 1801, correspondia então ao seu traçado actual. A província da Beira constituía a zona nevrálgica do reino de Portugal, por ser esse o local corrente das invasões castelhanas. D. Dinis tratou de imediato da fortificação dos lugares de Riba-Côa, com os seus pontos mais salientes em Castelo Rodrigo e no Sabugal, tendo a defendê-las o castelo da Guarda. Tal foi a base do acordo luso-castelhano”.

A importância deste Tratado para a formação da nacionalidade portuguesa é inquestionável; ele evidencia Portugal, decorridos todos estes séculos, como o país europeu com fronteiras mais antigas.


Hélder Sequeira 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Invasão francesa recordada em Almeida

 


Em Almeida vai decorrer a partir de hoje e até domingo, 30 de agosto, mais uma edição da recriação histórica do cerco daquela vila, ocorrido durante a terceira invasão francesa em 1810. Esta iniciativa é já considerada uma referência nacional e internacional na recriação das invasões napoleónicas.

Recorde-se que no passado dia 24 de julho foi assinalado mais um aniversário da trágica batalha do Côa, ocorrida no decurso da progressão dos militares franceses. As tropas anglo-lusas lutaram contra as forças do exército francês do Marechal Ney, no local do Cabeço Negro, junto às margens do rio; esta batalha antecedeu a queda da fortaleza de Almeida e a sua ocupação pelas tropas que entraram em Portugal, sob o comando de Massena.


O Rio Côa foi, até 1297, foi o limite da fronteira entre os territórios dos reinos de Portugal e Castela; atravessa o concelho de Almeida e é um dos poucos a correr de sul para norte. Com a assinatura do Tratado de Alcanices, por D. Fernando de Castela e D. Dinis de Portugal, o castelo de Almeida – entre outras fortalezas – passou para o domínio da coroa portuguesa.

Esta zona teve um grande papel estratégico, do ponto de vista militar; aqui se travaram, ao longo dos séculos, várias batalhas. A importância da fortaleza de Almeida cedo foi acentuada; após o primeiro de dezembro de 1640, o rei D. João IV ordenou a sua reparação, face aos momentos e às difíceis contendas que se avizinhavam.

Desde logo ficou percetível o papel preponderante que Almeida ia ter no processo bélico de manutenção da independência. A vila foi transformada em sede do quartel-general do Governador de Armas da Beira, constituindo-se na mais importante praça do reino português.


Álvaro de Abranches, um dos conjurados da Revolução de 1640 e membro do Conselho de Guerra de D. João IV, foi o primeiro Governador de Armas de Almeida, empenhando-se, de imediato no seu eficaz guarnecimento, rentabilizado o sistema de fortificações de que estava dotada.

A história de Almeida cruza-se, mais tarde, com as célebres – quanto dramáticas – invasões francesas. Destas, a terceira incursão conduzida por André Massena foi a que deixou marcas mais profundas na denominada “Estrela de Pedra”.

Após a conquista de Ciudad Rodrigo (Espanha), em 10 de Junho de 1810, pelas tropas francesas o objetivo do exército invasor era dominar a praça portuguesa, que teria cerca de 2000 habitantes e estava guarnecida com 5 000 soldados e 115 peças de artilharia. Com a aproximação das forças francesas, o comando do exército anglo-luso apelou aos habitantes para abandonarem as suas casas e levarem os seus haveres.

Nos primeiros dias de agosto de 1810 o Marechal André Massena mandou avançar o Oitavo Corpo do exército francês, sob o comando de Junot, dando início ao cerco de Almeida, a 10 de agosto, cuja guarnição militar era chefiada pelo coronel inglês Guilherme Cox, sendo Tenente-Rei o almeidense Francisco Bernardo da Costa.

O cerco decorria há 17 dias quando, ao cair da noite, uma granada francesa provocou uma explosão em cadeia que destruiu o paiol principal, onde estavam armazenadas 75 toneladas de pólvora; centenas de mortos e enormes danos no interior da fortaleza foi o balanço imediato da tragédia.

Na manhã seguinte, 27 de agosto de 1810, Massena exigiu do comandante inglês a rendição imediata da praça, o que acabou por suceder nessa noite.

A fortaleza de Almeida, em estilo Vauban, tem uma planta em forma de estrela irregular, integrando seis baluartes: o de S. Francisco, São João de Deus, Santa Bárbara (designado também de Praça Alta), do Trem (ou de Nossa Senhora das Brotas), Santo António e São Pedro, articulados com idêntico número de revelins.

O conjunto monumental deste baluarte beirão encontra-se rodeada por largos e profundos fossos. Para além das majestosas Portas de Santo António e São Francisco destacam-se no complexo desta fortaleza abaluartada as casamatas, espaços subterrâneos cuja estrutura e solidez os tornava imunes às bombas da época.


No interior do perímetro amuralhado encontra-se o Quartel das Esquadras que ficou a dever-se ao Conde de Lippe (Frederico Guilherme de Schaumburg-Lippe), edifício onde estiveram instaladas forças de infantaria; a antiga Casa dos Governadores da Praça de Almeida; o edifício do Corpo da Guarda Principal (onde funciona a Câmara Municipal), a Igreja da Misericórdia, a Casa dos Vedores Gerais, a Casa da Câmara e o Antigo Convento de Nossa Senhora do Loreto (atual Igreja Matriz) são outros edifícios emblemáticos desta vila do distrito da Guarda.

A recriação histórica começa hoje, pelas 22h00 no Picadeiro D’el Rey acontece o Baile e Sarau Cultural Oitocentista “Do Salão até à Praça”.

O Município de Almeida promove, amanhã e domingo (29 a 30 de agosto), visitas técnicas subordinadas ao tema "Da efeméride do Imperador à tomada da Fortaleza: uma visita pela Praça-forte de Almeida". Esta atividade é um convite para o público geral, desafiando o visitante a explorar as marcas de guerra deixadas nas muralhas abaluartadas e no centro histórico de Almeida, descobrindo vários pontos de interesse, no contexto do cerco efetuado entre os dias 15 a 28 de agosto de 1810.


O percurso orientado, com uma extensão de 2,2 quilómetros e uma hora e trinta minutos de duração, ocorre no sábado das 10.30 às 12 horas e das 17h30 às 19 horas, enquanto que no domingo será das 15 às 16h30, com ponto de encontro no Centro Interpretativo da Fortalezas Abaluartadas da Raia, Portas Externas de São Francisco, em Almeida.

Com esta recriação histórica, que se inicia já hoje, Almeida “regressa ao passado, recriando episódios, ambientes, personagens e vivências de outras épocas, num evento que conjuga a valorização do património histórico e cultural com a animação e a participação do público”.

Durante estes três dias vão decorrer, paradas militares, acampamentos históricos, demonstrações de táticas de batalha, enquanto no Mercado Oitocentista, os visitantes podem observar a recriação do trabalho de artesãos, mercadores e ofícios do século XIX.


Hélder Sequeira 


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Rádio Altitude: 78 anos de emissões

 

Hoje celebramos a Rádio Altitude, evocamos nomes, gerações, serviço público, determinação, criatividade, solidariedade, memórias, uma história ímpar.

Setenta e oito anos conferem a esta emissora guardense um estatuto muito especial, uma marca que devemos honrar e salvaguardar adaptando-a ao atual contexto social, económico e cultural e também aos caminhos abertos pela tecnologia.


A Rádio Altitude é indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra. Revisitar o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio, por pessoas que a viveram apaixonada e responsavelmente; podemos lembrar – e numa rápida referência a alguns que já nos deixaram – Vaz Júnior, António Pinheiro, António Santos, Luís Coutinho, Antunes Ferreira, Luís Coito, Vítor Santos, Manuel Daniel, Bernardino Jorge, José Domingos ou Clavier Alves…que, à semelhança de tantos outros nomes que ao longo de décadas trabalharam, colaboraram e garantiram a evolução e consolidação de uma emissora que granjeou admiração e afetos dentro e fora do território nacional; nomes que devem merecer o nosso apreço por aquilo que deram à rádio e à região servida pelas suas emissões.

Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde o longínquo ano de 1948.

A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe uma posição especial na história da Rádio em Portugal, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias. Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continue a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos; não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

Ao comemorar-se o septuagésimo oitavo aniversário da Rádio Altitude, devemos felicitar os seus atuais elementos e homenagearmos os múltiplos contributos pessoais e coletivos que guindaram a RA a uma posição de destaque no panorama radiofónico português.

A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. Parabéns Rádio Altitude!


Hélder Sequeira




sábado, 18 de julho de 2026

Guarda a nossa Rádio...

 

Fomos buscar o título deste apontamento de hoje à peça de teatro que escrevemos, e foi levada à cena, em 2023, aquando da comemoração do 75º aniversário da Rádio Altitude.

Uma peça para celebrar a rádio e, simultaneamente, proposta de reflexão sobre a função social deste meio de comunicação; sobretudo em regiões do interior, como esta zona da Beira Serra, onde nunca serão de mais os contributos que possam dar voz às populações, aos valores culturais e históricos, ao presente, aos sonhos do futuro.

A rádio continua a ter um papel fundamental na informação local e regional, na defesa da identidade destas terras e gentes. Nesta peça – cujo texto pode ser adaptado ou interpretado em diferenciados contextos geográficos, onde a rádio esteja presente – o espetador é levado para um estúdio, onde há vozes, músicas, memórias, sentimentos, sonhos, paixão, afetos; é desafiado a assistir a um programa de rádio, numa noite especial, onde se cruzam três gerações e que proporciona a revisitação de múltiplas estórias; a evocação de distintas vivências marcadas pela magia da rádio. No final há uma inesperada revelação e um comovido apelo para que a rádio se continue a reinventar e afirmar no futuro.

Há referências especiais, nomes e vozes que serão percetíveis aos leitores/espetadores; personagens que, como referido anteriormente, dão ao espetador a liberdade de as associar a outras vivências; são os afetos e a paixão pela Rádio que alimentam os diálogos, as memórias…

Na Guarda não faltam memórias da Rádio, que importa reter e salvaguardar, em torno de uma emissora que completa no próximo dia 29 de julho setenta e oito anos de emissões, mantendo a designação que assumiu no passado século no contento da vivência sanatorial da mais alta cidade portuguesa.

Embora já anos antes tenha havido alguma atividade radiofónica, ainda marcadamente experimental, a data oficial das emissões da Rádio Altitude é o dia 29 de julho de 1948.

Esta emissora “iniciou a sua sessão e, com ela, a sua vida oficial transmitindo depois do disco indicativo da estação, a saudação Salvé Rádio Altitude! proferida pela menina Aurora da Cruz, que foi escolhida para madrinha do Posto Emissor. Falou, em primeiro lugar, o Sr. Carlos Alberto Pereira, Vice-Presidente da Caixa Recreativa, que – anunciado pelo locutor de serviço com palavras de justa homenagem e consagração – começou por dizer: Rádio Altitude, posto emissor deste Sanatório, vai ser inaugurado oficialmente, depois de um período em regime experimental”. Assim noticiou o Bola de Neve, um jornal editado no Sanatório Sousa Martins

Como escrevemos em “O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha” (publicado em 2003), a Rádio Altitude é uma emissora com interessantes particularidades, originada no seio das experiências radiofónicas que ocorreram no Sanatório Sousa Martins, cerca de 1946. Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão do Sanatório onde estava concentrado o grupo de doentes (de tuberculose) pioneiros deste projeto; apenas com a construção de novo emissor foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.

No ano de 1947, o médico Ladislau Patrício (diretor do Sanatório Sousa Martins) aprovou (a 21 de outubro) o primeiro regulamento da emissora, onde estavam definidas orientações claras sobre o seu funcionamento; em finais desse ano as emissões já eram escutadas na malha urbana da Guarda. O início oficial das emissões regulares ocorreu, como atrás foi dito, em 29 de julho de 1948; um ano depois (1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21, identidade difundida por várias décadas.

A propriedade do primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa dos Internados no Sanatório Sousa Martins e mais tarde ao Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM); com a sua criação pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

Em 1961, mediante autorização oficial, a Rádio Altitude passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias, que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões da rádio guardense evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.


Até 1980 a Rádio Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro radioelétrico passou a emitir também em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz, alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz, que mantém na atualidade.

No ano de 1998, depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”. A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço do Sanatório Sousa Martins, hoje designado Parque da Saúde.

Ao celebramos, no próximo dia 29 de julho, o 78º aniversário das emissões regulares da RA devemos lembrar-nos que estamos perante uma rádio muito especial para a Guarda e região da beira serra. Uma rádio que tem o seu lugar na história da radiodifusão sonora em Portugal e encerra décadas de afetos, memórias, vivências, dedicação, serviço público, criatividade, formação, espírito solidário.

Esta emissora, confrontada com os desafios dos tempos hodiernos, permanece na memória coletiva das gentes beirãs…

 

Hélder Sequeira


in O Interior, 15 de julho 2026

 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Lopo de Carvalho: o primeiro diretor do Sanatório Sousa Martins

 

Há 104 anos, a 6 de julho, falecia na Guarda o médico Lopo José de Figueiredo de Carvalho, um nome indissociavelmente a esta cidade sobretudo ao Sanatório Sousa Martins, de que foi o primeiro diretor.

Natural de localidade de Tojal (concelho do Sátão), onde nasceu a 3 de maio de 1857, Lopo de Carvalho frequentou a Universidade de Coimbra e licenciou-se em Medicina no ano de 1883. Aluno brilhante, no final do curso foi convidado, pela sua Faculdade, a iniciar o doutoramento, proposta que declinou.

Nesse mesmo ano foi trabalhar para a Meda, como médico municipal; aí exerceu a sua atividade profissional, durante dois anos, prosseguida mais tarde na Guarda, passando ainda o seu percurso como clínico pelos Açores (Graciosa) e por Lisboa.

Com a fixação na Guarda (onde residiu até à sua morte) passou também a exercer as funções de professor do Liceu, à semelhança do que aconteceu com outras conhecidas figuras guardenses da época; cedo se começou a dedicar à causa da luta contra a tuberculose e a empenhar-se, ativamente, na criação de estruturas vocacionadas para o tratamento daquela doença assim como no estabelecimento de normas e regulamentos sanitários.

“A defesa contra a tuberculose está regulamentada convenientemente, há muito tempo, na cidade da Guarda e em todo o distrito; o essencial é cumprir-se a lei e isso é da exclusiva competência das autoridades (…). É esta cidade a única no país que regulamentou a sua defesa contra a tuberculose. Os primeiros aparelhos de Trillat (pelo formol sobre pressão), para a desinfecção das casas e das roupas, que vieram para o nosso país foram adquiridos pela Câmara da Guarda por proposta minha”, escreveu aquele médico na resposta a acusações que lhe foram dirigidas por alguns articulistas da imprensa local, cujo entendimento sobre a importância do Sanatório divergia das ideias de Lopo de Carvalho e de quantos o acompanhavam na afirmação e desenvolvimento daquela unidade de saúde.

O primeiro diretor do Sanatório respondia aos seus críticos dizendo que “a higiene não se pode fazer somente em artigos de jornais e ofícios burocráticos. Para se fazer higiene é preciso gastar-se muita água e dinheiro”.

A “Curabilidade da Tuberculose Pulmonar”, trabalho apresentado no Congresso de Medicina de Lisboa, foi uma das suas mais aplaudidas intervenções em reuniões científicas, na maioria das quais levantou a bandeira das potencialidades da Guarda como cidade da saúde. Aquando do “Congresso de Tuberculose” realizado em Londres, em 1901, foi convidado por Sir William Broadbent para a vice-presidência honorária daquele evento científico.

Os seus esforços, conjugados com o apoio recebido da Assistência Nacional aos Tuberculosos, a que presidia a Rainha D. Amélia, conduziram à construção do Sanatório da Guarda, inaugurado em 18 de maio de 1907.

Lopo de Carvalho seria agraciado, pelo Rei D. Carlos, com a Comenda de S. Tiago. “É de todo o ponto merecida a distinção, que recai sobre um verdadeiro homem de ciência, tisiólogo eminente, que tem sido, no nosso país, um dos mais denodados combatentes contra a tuberculose”, noticiou o Diário Ilustrado.

Redator do jornal “Estudos Médicos”, assim como de “Coimbra Médica”, Lopo de Carvalho colaborou também com as publicações “Movimento Médico”, “Revista de Medicina e Cirurgia” e “Medicina Contemporânea”.

O seu consultório funcionou no edifício conhecido (na atual Rua Vasco da Gama) por Dispensário o qual doou, em 1932, ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos. Na rua que ostenta o seu nome existe uma casa que Leopoldina Lopo de Carvalho (a esposa deste médico) doou à cidade, com finalidades específicas; destinado, inicialmente a Arquivo Distrital nela funcionou um Jardim Infantil com o nome da benemérita senhora.

Lopo José de Carvalho (pai de outro conceituado clínico e professor universitário, Fausto Lopo de Carvalho) faleceu na Guarda a 6 de julho de 1922. “O seu enterro foi a expressão mais rigorosa e levantada da consideração em que o povo da nossa terra tinha o ilustre homem de ciência”, realçou a imprensa citadina. O jornal Distrito da Guarda, a propósito do seu falecimento, escreveu que “o nome do Dr. Lopo de Carvalho não se perde no passado; o que se perde é a sua inteligência e os seus vastos conhecimentos científicos”.

O mesmo periódico, passados alguns anos, destacava os serviços “prestados a esta terra” pelo referido clínico. “E no estrangeiro, onde foi por várias vezes, tomando parte de congressos, ou em viagens de estudo, conhecia-se o seu nome em todas as estâncias de cura de tuberculose. Conhecia-se e admirava-se porque, nesta especialidade, o médico distinto pairava muito acima do normal”.

De entre os trabalhos publicados mencionamos “Seroterapia na Tuberculose Pulmonar”, “Uma Epidemia da Febre Tifóide”, “As causa da Febre Tifóide em Portugal” e “Tuberculosos Curados”, este em coautoria com Amândio Paul, que lhe sucedeu na direção do Sanatório Sousa Martins.

Lopo de Carvalho tem o seu nome na toponímia guardense, numa artéria localizada entre o início da Avenida dos Bombeiros Voluntários (onde hoje está o Centro Comercial) e o cruzamento das Ruas Vasco Borges, Rua do Comércio e Largo General João de Almeida.

 

Hélder Sequeira


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Feira de São João na Guarda

 

Um dos cartazes da Guarda, durante largas décadas foi a feira São João, que desempenhava um importante papel de dinamização económica e social, integrando um conjunto de certames com forte projeção regional.

A feira anual de São João, que ocorre no dia 24 de junho na Guarda, foi criada em 1255 por carta régia de D. Afonso III; este documento estabelecia, como assinalou a historiadora Virgínia Rau, que “devia começar oito dias antes da festa de S. João Baptista e durar quinze dias. Todos os que viessem à feira com as suas mercadorias estariam seguros e isentos de penhora durante trinta dias”.

No decorrer da segunda dinastia a feira de São João continuava a registar grande importância e no século XV era costume os “criadores e lavradores de Castelo Branco e do seu termo levarem os gados da sua criação para venda na feira da Guarda”.

Nos finais do século dezanove a cidade enchia-se, muitos dias antes de “grande quantidade de forasteiros”, e não faltavam, pelas principais artérias as “costumadas fogueiras com danças e cantos”. O teatro, os concursos de gado e as touradas constituíam alguns dos pontos de atração do cartaz citadino, nesses dias de enorme agitação festiva e de muitas transações comerciais.

A viagem de comboio até à Guarda era incentivada com significativas reduções nos preços, oportunidade aproveitada por numerosas pessoas, que engrossavam a multidão de visitantes espalhados por todos os cantos da cidade.

Este quadro, festivo, comercial e religioso – componente que também não faltava – repetiu-se, com mais ou menos cambiantes, durante décadas, deixando um inquestionável impacto na vida da cidade.

Aliás, a própria Câmara Municipal da Guarda deliberou, em julho de 1954, solicitar ao Governo a “necessária autorização para considerar como feriado municipal no concelho da Guarda o dia 24 de junho de cada ano”.

O executivo municipal, de então, argumentava que os festejos de São João “desde tempos imemoriais atingem proporções de relevo”, sendo por isso considerado “dia festivo em toda a região”; por outro lado, a Câmara Municipal aduzia a realização da “importante feira anual de S. João, reputada a de maior expansão e amplitude da região por a ela acorrerem com os seus produtos e gados as populações de toda a região beirã e até transmontana”; as estas razões, acrescentava-se ainda a intenção de o dia passar a figurar no período das “futuras Festas da Cidade” da Guarda.

O médico e escritor Ladislau Patrício (o terceiro diretor do Sanatório Sousa Martins) anotava, numa das suas obras, que “nas vésperas do dia 24 de junho, noite e madrugada, é contínuo o formigueiro de feirantes, a pé, a cavalo, em carroças e em carros de bois, tropeçando nos calhaus soltos dos caminhos impérvios, ou batendo o macadame das estradas poeirentas e brancas”.

Hoje a realidade é distinta, por diversas razões (nomeadamente pela mudança radical nos hábitos de consumo e de comércio), mas a feira de São João, na Guarda, continua a ser uma referência no ciclo anual destes eventos, com possibilidade de se afirmar no calendário com a sua identidade e a renovação consentânea com os tempos de hoje.

 

Hélder Sequeira


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Redescobrir o passado na Póvoa do Mileu

No passado fim de semana teve lugar na Guarda o espetáculo “Funos – Rituais de despedida”, no cenário oferecido pelo conjunto arqueológico e histórico da Póvoa do Mileu. Tratou-se de uma criação do Teatro do Calafrio, numa organização do município guardense, através do Museu Municipal da Guarda, integrando-se no programa do Simpósio Internacional de Arte Contemporânea (SIAC) que decorre até esta sexta-feira, 19 de junho.

O espetáculo recriou o ambiente espiritual e social da época romana, dando voz às emoções universais do luto, da saudade e da esperança na eternidade. Na Roma Antiga os funos eram acontecimentos profundamente enraizados nas tradições e nos rituais que expressavam as crenças religiosas e a estrutura social dessa época; esses rituais funerários romanos traduziam a relação com a morte e a vida após a morte. Constituindo-se como uma matriz da vida e da cultura romana, os funos transmitiam as mudanças e a evolução das práticas funerárias ao longo dos séculos e outrossim o propósito de honrarem a memória dos mortos.

A intensidade cerimonial variava em função da categoria social e dos recursos económicos, sendo a cremação uma prática comum. A procissão funerária era, refira-se, um momento relevante dos funerais romanos; o corpo era transportado, pelas ruas, acompanhado pelos elementos da família e amigos, participando, em muitas ocasiões, pessoas com a missão de verbalizarem lamentações e também músicos. “A procissão passava por lugares significativos da vida do falecido, terminando no local de cremação ou sepultamento”. De anotar que após o cerimonial, era habitual existirem banquetes fúnebres que, para além de reunirem os mais próximos na evocação da memória do falecido, serviam igualmente para reforçar as relações sociais na comunidade.

O espetáculo realizado no espaço da estação arqueológica da Póvoa do Mileu, e na zona envolvente da capela românica aí existente (datado do século XIII, este templo românico está classificado imóvel de interesse público desde 1950), proporcionou um reencontro, pedagógico, com o passado, uma lição sobre alguns aspetos da cultura romana, uma demonstração de criatividade dos elementos envolvidos neste evento e uma leitura clarividente da forma de valorizar e rentabilizar o património arqueológico, histórico e artístico da cidade da Guarda.


Por outro lado, “Funos – Rituais de despedida” foi também repto para um melhor conhecimento, por parte da comunidade, da estação arqueológica do Mileu e de tudo quanto ela representa; um sítio onde, ao longo de décadas, foram detetadas importantes estruturas arqueológicas de distintas cronologias; entre o espólio que foi sendo identificado estão machados de pedra polida, tegulae, cerâmica de construção, "terra sigillata", fíbulas, ornamentos, torso, mós de moinho, pesos de tear, fragmentos de lucernas, moedas, vidros, escápulas, pregos, argola e fivela de cinturão em ferro, escórias de fundição, restos osteológicos humanos, inscrição, lápide funerária (depositada no Museu da Guarda).

O conjunto arqueológico da Póvoa do Mileu, na Guarda, é um dos mais interessantes da Beira Interior. Esta é a opinião do arqueológo Vítor Pereira que coordenado, há alguns anos atrás, os trabalhos de prospeção e estudo ali realizados. Depois de lembrar que a importância deste sítio foi, desde cedo, reconhecida por “vários observadores, historiadores, autarcas e políticos logo no momento da sua descoberta, o que levou à preservação das estruturas, bem como à sua posterior classificação como imóvel de interesse público, em 1957”, o arqueólogo da Câmara Municipal da Guarda não hesitou em denominar o Mileu como “uma estação arqueológica admirável e até pitoresca”.

Vítor Pereira fundamentava esta afirmação no facto de aquela estação arqueológica, hoje praticamente inserida na malha urbana guardense, conjugar “num mesmo local um importante sítio romano, ocupado durante os finais do século I d.C. e o século II, e uma famosa capela românica e o seu cemitério rústico adjacente.”

As investigações realizadas permitem confirmar a existência de “importantes estruturas residenciais, servidas por um peristilo, isto é um pequeno pátio interior, quase certamente alpendrado (um pouco à imagem do que seriam os futuros claustros dos mosteiros e conventos medievais) – e servidas também por um complexo termal, tão típico da civilização e dos hábitos dos romanos.” Aquele arqueólogo lembrou que as estruturas destas termas foram já identificadas na altura da descoberta do complexo arqueológico, em 1951. “No entanto, nas últimas campanhas de escavações confirmou-se a existência de novas e diversas estruturas arquitetónicas de período romano, na área a nascente do complexo termal”.

Os achados mais recentes reforçam o que há muito se presumia, ou seja, “o Mileu encontrava-se integrado numa muito vasta rede comercial que abrangia o Norte e o Nordeste da Península, o Vale do Rio Ebro e a Província romana da Bética (sudeste da Península), mas que alcançava mesmo, embora mais ou menos residualmente, o Sul da atual França (a Gália dos Romanos), a Itália e mesmo o Norte de África”.

As preocupações em salvaguardar o património arqueológico do Mileu remontam a 1951, quando estava a ser construída a atual ligação entre essa zona e o núcleo urbano da então denominada Guarda-Gare.

A Câmara Municipal da Guarda, então presidida por Alberto Dinis da Fonseca, foi sensível aos protestos que então se levantaram, no que foi secundada pela Junta Autónoma de Estradas, organismo que providenciou os projetos necessários à alteração da denominada Avenida da Estação. Os inúmeros achados arqueológicos foram o argumento utilizado, nomeadamente por parte do historiador Adriano Vasco Rodrigues, para que não se destruísse aquela estação arqueológica e fosse permitido um estudo aprofundado.

Aquele investigador classificou esse edifício como um “hipocaustum, ou mais corretamente de uma casa com instalação de aquecimento próprio de clima de Inverno frio.” Recorde-se que, em abril de 2009, o Museu da Guarda promoveu uma interessante ação subordinada ao tema “Dos banhos quentes dos Romanos às energias renováveis”; esta atividade teve por objetivo dar a conhecer o sistema de aquecimento central das casas abastadas da época dos Romanos (“piso radiante”) a partir da observação de peças de barro de condutas de ar quente expostas no Museu da Guarda.


Para além da importância e oportunidade da recriação histórica de “Funos – Rituais de despedida”, este espetáculo lançou o convite e o desafio ao conhecimento e salvaguarda da nossa história e dos nossos valores patrimoniais.

 

Hélder Sequeira