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segunda-feira, 13 de abril de 2026

(Re)Visitar Riba Côa

 

Há dois anos, a décima segunda edição do evento “Muralhas com História”, promovido em Sortelha pela Câmara Municipal do Sabugal, foi dedicado ao reinado de D. Dinis. A autarquia sabugalense sublinhou, então, que o sexto rei de Portugal “é um dos responsáveis pela criação da nossa identidade nacional e pelo alvor da consciência de Portugal enquanto estado-nação. Durante o seu reinado, ele procurou reorganizar a administração interna, elaborando um conjunto de leis baseadas na realidade política, económica e social do país, marcando de forma inequívoca e permanente este território de fronteira.”

O rei D. Dinis (cujo reinado foi o mais longo de todos os monarcas da primeira dinastia, 46 anos) nasceu em Lisboa a 9 de outubro de 1261; era o filho mais velho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela (sua segunda esposa), tendo sido aclamado rei (em Lisboa) no ano de 1279. Em 24 de junho de 1282 casou com Isabel de Aragão (a Rainha Santa Isabel), sendo o casamento celebrado em Trancoso; na cerimónia estiveram presentes o Bispo da Guarda, D. Fr. João Martins, Mestres de Ordens de Cavalaria e destacados elementos da nobreza de Portugal e Aragão.

Castelo do Sabugal -HS_

O monarca, de que falamos, deu particular atenção às fortalezas destas terras raianas, valorizando-as e reforçando as suas funções defensivas. As terras de Riba Côa começaram por estar sob o domínio militar de D. Afonso Henriques e mais tarde foram ocupadas por Fernando II de Leão, constituindo um território onde as oscilações dos limites fronteiriços eram constantes. O Tratado de Alcanices, assinado a 12 de setembro de 1297 naquela localidade espanhola, é considerado “um dos suportes da identidade de Portugal”.

E outro si eu El Rey Dom Fernando, entendendo, e conocendo, que vós aviades direito en aluns lugares dos Castellos, e Villas de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Mayor, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor. e de Monforte, e dos outros Lugares de Riba Coa, que vós Rey Dom Diniz teendes agora en vossa mão, e por que me vós partades do direito, que aviedes en Vallença, e em Ferreira, e en no Sparagal, que agora tem a Ordem d’Alcantara asá maão, e que aviades en Ayamonte, e en outros Lugares dos Reinos de Leon e de Galiza”.

Assim era referido no texto daquele tratado, que estabeleceu a transferência para o domínio português dos castelos do Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e a localidade de San Felices de los Gallegos, além de Olivença, Ouguela e Campo Maior. O rei D. Dinis, de acordo com o estabelecido nesse tratado, desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena. A conjuntura interna espanhola (nomeadamente as divergências profundas dos tutores do rei castelhano) não deixou de se refletir neste tratado, bem como a visão estratégica do monarca português.

San Felices de los Gallegos  (Foo HS) 

San Felice de los Gallegos

Com o objetivo de serem acentuados os compromissos assumidos, firmou-se a promessa de casamento do rei espanhol, D. Fernando IV, com a filha de D. Dinis (a infanta D. Constança), enquanto D. Beatriz, infanta de Castela, foi prometida ao príncipe D. Afonso (filho de D. Dinis).

A importância do Tratado de Alcanices para a formação da nacionalidade portuguesa – voltamos a sublinhar – é inquestionável, evidenciando Portugal como o país europeu com fronteiras mais antigas; o Tratado fixou, de forma clara, a fronteiras portuguesas deste território de Riba Côa, limitado pelos rios Côa e Águeda e pela ribeira de Tourões. Era, como escreveu Pinharanda Gomes, uma “terra de ninguém”. O Rio Côa abandonou, na altura, o seu papel de fronteira física e sobre ele se lançaram novas pontes que favoreceram a circulação de pessoas e produtos; veja-se o caso do Porto de S. Miguel (assinalado no Foral de Castelo Mendo, de 1228, como Portum Mauriscum) ou de Rapoula do Côa.

Segundo Miguel Ladero Quesada, foi o espírito diplomático de D. Sancho IV “nos últimos anos do seu reinado, sobretudo, a sua morte prematura e a gravíssima crise política castelhana na menoridade de Fernando IV que permitiram a D. Dinis jogar, alternativamente, as cartadas da guerra e da aliança para conseguir mais territórios dos que havia esperado e fixar as fronteiras em limites muitos favoráveis aos seus interesses”.

Para aquele investigador, é de supor que “algumas cláusulas do tratado seriam inconcebíveis em circunstâncias normais para os reis castelhano-leoneses, como as que se verificaram até 1295”. Contundo, no quadro conjuntural da época D. Dinis terá tido a perceção de como era importante não deixar escapar a oportunidade de alargar o território português através de uma faixa em relação à qual Castela atribuía um interesse menor face às questões oriundas do reino de Aragão e da área peninsular sob domínio islâmico, a sul. Assim, Alcanices traduz, como muitos reconhecem, um protagonismo inteligente da diplomacia portuguesa, evidenciado mais tarde por vários historiógrafos, cuja interpretação relativamente à passagem de Riba Côa para a Coroa lusitana assentava não na conquista territorial mas na justa restituição de terras, onde se erguia – por exemplo – o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (junto à histórica localidade de Castelo Rodrigo). Por outro lado, e numa leitura dos discursos historiográficos e geográficos sobre Alcanices, Luís Carlos Amaral e João Carlos Garcia realçam que “a História precede a Geografia no debate do tema, mas é uma certa Geografia que fixa em imagem cartográfica Alcanices como marco final de um processo. Também nem todos os historiadores se preocuparam particularmente com este facto diplomático e político do reinado de D. Dinis”.

Este rei impulsionou a coesão nacional, reorganizou o exército e a marinha, incrementou a defesa da língua e da escrita, preocupou-se com o exercício e administração da justiça; manifestou uma grande preocupação pelo desenvolvimento da agricultura (o cognome de O Lavrador não surgiu por acaso), mas não esqueceu a importância das florestas e dos rios, bem como a necessidade de aumentar o povoamento das terras, de dinamizar as trocas comerciais (concedeu um elevado numero de cartas de feira e instituiu as primeiras feiras francas), desenvolvendo a economia.

A D. Dinis se deve a fundação do Estudo Geral, em Lisboa, instituição inicial da formação universitária em território português; é também com ele que os documentos régios passam a ser redigidos em português. Como escreveu Helena da Cruz Coelho, “no contexto dos reinos peninsulares, a monarquia portuguesa reconhecia-se, agora, também pela sua individualidade linguística, pelo português.” D. Dinis faleceu em Santarém, a 7 de janeiro de 1325. Como bem sintetizou a investigadora que acabámos de citar, “(…) delimitar, identificar, defender, povoar, valorizar, administrar parecem ter sido os princípios norteadores” da atividade deste rei.

Rei D.Dinis

No passado ano assinalou-se o sétimo centenário da morte de D. Dinis, de quem  muito se falou, a propósito da apresentação da reconstituição facial (em 3D), daquele monarca, fundamentada em dados arqueológicos, antropológicos e genéticos. Este estudo, inédito em Portugal, representou mais um eminente contributo para o conhecimento de um rei que deixou uma forte marca da sua atividade governativa e administrativa nesta região raiana.

Assim, revestem-se de grande importância todas as iniciativas que nos levem a (re)visitar os territórios de Riba Côa, as localidades referenciadas no Tratado a que temos estado a aludir; incrementando o conhecimento da História, do papel desempenhado pelos monumentos de arquitetura militar desta região, fomentando novos roteiros turísticos, abrindo novas investigações e estudos, viabilizando um maior conhecimento da personalidade e do papel do Rei D. Dinis. Iniciativas que valorizem, promovam a região e reforcem a nossa identidade regional.

 

Hélder Sequeira


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Distrito da Guarda tem património de valia inestimável

 

O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”. A afirmação é de Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, para quem “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Manuel Ferreira Caetano é Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Mestre em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2001), com a dissertação A Ribeira de Lisboa na Época da Expansão Portuguesa (Séculos XV a XVIII) Doutor em História da Arte, especialidade História da Arte Moderna – Arquitectura e Urbanismo, pela mesma Faculdade (2012), com a dissertação As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Membro de vários centros de investigação e de diversas instituições culturais.

Ao CORREIO da GUARDA, Carlos Caetano declarou que “o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”.

CARLOS CAETANO _fot HS_.JPG

Como surgiu o gosto pela História e pela História da Arte?

Fui criado numa aldeia, numa família muito alargada, num tempo sem televisão, onde as memórias do passado eram convocadas constantemente, nomeadamente nos serões. Na minha família essas memórias remontavam a 1810 e à III Invasão Francesa, mas em nossa casa tinham o ponto alto nas exéquias do Presidente Sidónio Pais na Sé de Viseu algures em Dezembro de 1918, cerimónia em que o meu pai participara, enquanto soldado raso do Regimento local, tal como participaria nas Campanhas da Monarquia do Norte (1919), pois o regimento do meu pai era afecto à causa de Paiva Couceiro. Claro que adorava ouvir contar estas histórias, que hão-de ter alimentado o meu gosto pela História, embora no Liceu fosse um aluno de História pouco mais que medíocre e o Curso de História (Fac. de Letras de Lisboa, 1976-1981) tivesse sido uma segunda opção.

O gosto pela História da Arte há-de ter tido a mesma origem, pois já de pequenino gostava de coisas e paisagens (naturais e urbanas) bonitas. Em todo o caso, sou dos que acham que História da Arte é, antes de mais e sobretudo, História, pura e dura.

 

O património, nomeadamente monumental, do seu concelho – e da região – contribuiu para se apaixonar pela História da Arte?

Claro que sim, a começar pelo mais próximo: a terra da minha mãe (Granja), que sendo lindíssima, detém uma das mais belas igrejas do Concelho de Trancoso, passando pelas aldeias das redondezas (que ainda hoje me encantam) e sobretudo pela extrema categoria urbanística e arquitetónica de Trancoso. A bravura arquitetónica do seu castelo e das suas muralhas, em particular, ainda hoje me comove. No topo, como sempre, as magnificências urbanas e arquitetónicas da Guarda, uma das cidades mais belas de Portugal onde vim a primeira vez em junho de 1964, para fazer o Exame de Admissão ao Liceu... Como vê, motivações para viver, admirar (e estudar) este património nunca me faltaram…

 

O que destaca, no nosso distrito, em termos patrimoniais e artísticos?

Seria muito difícil escolher, entre o extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou. Sé da Guarda, Convento de Santa Maria de Aguiar, igreja de Almendra; Castelo de Trancoso ou fortaleza de Almeida, solares como o dos Távoras em Souropires (Pinhel) ou como o dos Brasis de Torre do Terrenho (Trancoso) – ou magníficas casas medievais, quinhentistas e de épocas posteriores como as que ainda se encontram um pouco por todo o distrito.

Enfim, tantos e tantos monumentos da maior categoria arquitetónica espalhados por todo distrito! Mas tão ou mais importante que este património arquitetónico é o património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…

 

Acha que o turismo cultural e o turismo religioso estão a merecer a atenção devida?

Devo dizer que no turismo distingo e abomino o turismo de massas, que não só está a descaracterizar o miolo das nossas principais cidades (o centro de Lisboa é hoje uma sombra do que era ainda há vinte anos) como brevemente se arrisca a tornar a nossa vida num inferno a todos os níveis, nisso replicando algo do que foram os efeitos perniciosos das chamadas “drogas da Índia” no século XVI.

Para lá destes efeitos tão gravosos, cumpre lembrar sempre o aviso profético do grande historiador Vitorino Magalhães Godinho, nas palavras do qual “o turismo mata os lugares históricos”,(cito de cor).

Claro que o turismo cultural tem todo o sentido – e o religioso também. Este alimentou milenarmente, em contexto pagão e em contexto cristão, as peregrinações e as romagens cíclicas aos lugares santos. Se hoje as romarias regionais não têm a expressão que tinham, tem, porém, todo o sentido visitar e organizar visitas culturais a sítios e monumentos de inegável interesse patrimonial e religioso.


Tem dedicado particular atenção ao património religioso, nomeadamente na área da Diocese da Guarda. Este património está devidamente salvaguardado e divulgado? O que é urgente e necessário.

O património religioso partilha com o património laico os mesmos condicionalismos e os mesmos problemas em matéria de conservação, reconhecimento e divulgação. Uma abordagem e uma gestão sensata e realista do património deve ter, porém, em conta que o património se constrói e se destrói naturalmente; que vive e que morre; que se faz-se e se desfaz ao sabor dos tempos e das épocas e da vontade e dos desígnios dos homens, numa dinâmica histórica inelutável e fatal em que “ceci tuera cela” (“isto matará aquilo”), nas palavras tão penetrantes de Zola.

O património vive e renova-se, cumprindo-nos conservar o passado, mas também enriquecer esse património com obras e intervenções contemporâneas muito qualificadas – e na Guarda há felizmente exemplos excecionais de renovação, nomeadamente em matéria de arquitetura e de arte sacras. Isto dito, a nossa herança patrimonial está singularmente ameaçada, não só pela passagem do tempo, que tudo leva, mas também pela intervenção desajustada (às vezes com as melhores intenções) daqueles que têm a seu cargo o seu bom uso, a sua proteção e a sua conservação. Como a generalidade deste património não é reconhecido enquanto tal, não só não está protegido como não é dado a estudar nem a conhecer.

Urgente é intervir junto das entidades que o tutelam, no sentido da sua proteção e da sua boa conservação. A curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.

 

As intervenções – que conhece – feitas em edifícios, igrejas e monumentos têm sido as mais adequadas? Quais os principais erros que tem notado?

Também neste aspeto o património religioso partilha a mesma situação que o património laico: um e outro são vítimas de intervenções muito mal aconselhadas e de resultados catastróficos.

O erro mais gritante vivido atualmente em todo o Distrito (mas também em todo o país, Terreiro do Paço incluído, e já na própria Espanha) é o da remoção dos rebocos dos edifícios históricos, isto é, daqueles que comprovadamente eram rebocados e caiados, ao serviço da moda da “pedra à vista” (ou, na Baixa Pombalina e por todo o Sul do território, do “tijolo ou tijoleira à vista”), assim se descaracterizando tanto os edifícios históricos como os edifícios vernáculos.

Esta moda é particularmente gravosa no interior das igrejas de origem medieval, pois a remoção dos rebocos históricos implica a destruição das pinturas quinhentistas (ou anteriores), ocultas sob camadas e camadas de cal, mas que comprovadamente decoravam as velhas igrejas, pois outrora era mais barato ter um retábulo, uma cortina ou uma imagem pintadas que de madeira, de tecido caro ou de vulto, respetivamente. Prova disto é a constante descoberta de pintura mural nas nossas velhas igrejas, durante as obras de conservação presentemente levadas a cabo nas nossas igrejas um pouco por todo o lado.

 

Nas suas deslocações pela região tem encontrado surpresas ou achados que constituam uma inquestionável mais-valia para o património regional/nacional?

Sim, o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas. Outra surpresa ainda - para lá da pintura mural, cuja descoberta se processa dia a dia – é a da abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados: imagens de vulto e relevos do mestre flamengo Arnao de Carvalho, de 1524, reciclados e adaptados no retábulo-mor barroco da igreja de Escalhão, como exemplo maior.

Outra surpresa são os dois chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do séc. passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.

 

Acha que há abandono ou esquecimento do nosso património, nas suas várias vertentes? Os cidadãos do distrito estão indiferentes em relação ao património?

Há abandono e esquecimento, sim – e muito, e muito grave! O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas. Ora o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente. Deve dizer-se, porém que estão a surgir iniciativas muito válidas na Guarda – a cargo da Câmara Municipal e da Diocese – para combater e começar a romper esta situação tão gravosa para o nosso património cultural.

 

Falta investigação, no nosso distrito, sobre o património cultural? E os apoios à investigação existem ou são suficientes?

Falta: em matéria de património, o território do distrito continua a ser em muito grande parte uma “terra incógnita”. Aqui ou lá fora, os apoios à investigação são sempre precários, pois não há dinheiro para tudo. Porém, os investigadores integrados têm ao seu dispor apoios institucionais de âmbito nacional.

Claro que as autoridades civis e eclesiásticas da Guarda e da região devem apoiar projetos de investigação de âmbito regional e local, nomeadamente com apoio logístico aos investigadores e até mediante o apoio à edição das suas publicações relacionadas com o património do distrito e da diocese – mas deve dizer-se que entre nós também há já exemplos de boas práticas nesta matéria.

CARLOS CAETANO_foto Hélder Sequeira _.JPG

Considera que poderia haver uma ligação mais estreita entre as academias e o interior, ao nível da investigação sobre cultura, arte e património? O que sugere?

Considero, embora tenha que reconhecer que há já excelente trabalho feito nesta matéria, nomeadamente em disciplinas como a Arqueologia. Mas em matéria de património artístico está quase tudo por fazer.

Da minha parte, convidei já um pequeno grupo de professores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e outros amigos para visitarem parte do distrito (para começar, a parte que presentemente conheço melhor), dando a conhecer aspetos muito relevantes do nosso património cultural, mas visando também o desejável desenvolvimento de projetos de investigação sobre aspetos muito relevantes – e inéditos – deste mesmo património.

 

Tem guiado algumas visitas culturais ao património religioso do concelho da Guarda. Como surgiram estas visitas e que importância lhes atribui?

As duas visitas que guiei, a Videmonte e a Aldeia Viçosa, foram promovidas pelos serviços culturais da Câmara Municipal da Guarda (Museu da Guarda) e pelas respetivas Juntas de Freguesia. Estas visitas têm uma incidência no património global e não só no religioso, embora este tenha um destaque muito grande como é compreensível e natural num território cristianizado pelo menos há já 1500 anos.

As visitas surgiram na sequência do levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho que estou a fazer a convite da CMG. A importância das visitas é aquela que os participantes e a CMG lhe atribuírem. Por mim pretendo apenas mostrar e ajudar a ver uma aldeia como uma aldeia, uma casa como uma casa, uma igreja como uma igreja, isto é, cada uma destas realidades patrimoniais nas suas lógicas urbanísticas e construtivas, nas suas funcionalidades e na sua coerência essencial – e isto não é comum fazer-se e por vezes pode não ser nada fácil fazer-se.

Pretendo ver e ver em conjunto com os participantes cada realidade patrimonial enquanto tal, no que é e no que não é, sem quaisquer preocupações nem pretensões eruditas ou estilísticas, até porque nestas visitas não falo para estudantes de História da Arte. Neste sentido, nestas visitas guiadas a História da Arte fica no bolso e só salta cá para fora quando é preciso, para ajudar a perceber melhor o monumento que temos pela frente, pois sou dos que acham que uma aldeia, uma casa, um fontanário, um lavadouro são marcos e monumentos próprios de cada “eco-sistema” cultural, de cada complexo “histórico-geográfico” particular – para usarmos a categoria criada por Vitorino Magalhãs Godinho, que sem querer, acabo por citar pela segunda vez… Sinceramente penso que as visitas ganham por eu poder contextualizar as mais diversas componentes patrimoniais patentes em cada aldeia, o que me é muito fácil de fazer pois nasci e fui criado numa aldeia num tempo histórico (hoje desaparecido) em que a velha civilização rural ainda estava viva, no seu pleno vigor.

Por outro lado, como venho de fora do Concelho, penso que posso proporcionar um olhar “fresco” sobre o seu património, aldeia a aldeia, com o encantamento próprio de quem o descobre e o vê praticamente pela primeira vez. Penso que as visitas também ganham por eu procurar ver as aldeias, as paróquias e o seu património arquitetónico e artístico, em rede, isto é, sempre em articulação com o que se passa(va) a nível local, regional, nacional e até internacional. Com efeito, estas localidades, enquanto sede de paróquias multisseculares, integram uma rede gigantesca de paróquias que, ao contrário do que tantas vezes se pensa, não acaba em Vilar Formoso nem sequer nos Pirenéus… O “isolamento” destas aldeias ou desta região, de que tanto se fala, nunca verdadeiramente existiu no passado, pois até às primeiras décadas do século XIX esta região era muito mais aberta do que possamos pensar.

Com efeito estas aldeias desde a Idade Média que incorporavam uma rede de concelhos e de paróquias muito consolidada e muito eficaz, pois abarcava todo o território do Reino. Em contexto nacional – e internacional - as ideias e as formas circulavam; a espiritualidade e a liturgia partilhavam-se; as iconografias e as obras de arte também – e esta circulação contínua e milenar (tantas vezes ignorada ou desvalorizada por nós) contribuiu muito fortemente para modelar a nossa maneira nacional, local, regional e local de viver, de pensar, de rezar – e claro, de modelar e de defender militar e arquitetonicamente ou de sacralizar o espaço natural.

É sobre tudo isto que gosto de falar, e é isto que gosto de procurar, de descobrir e de ver (e de dar a ver) em verdadeira comunhão com os participantes nas visitas guiadas. Como se pode concluir, com objetivos destes, o Românico, o Barroco, ou categorias estilísticas afins, acabam muitas vezes por ser pouco relevantes durante as visitas, apesar de toda a importância que efetivamente tenham (e têm).

 

As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII)” é um dos seus trabalhos académicos que irá ser publicado… Fale-nos deste projeto…

Era a minha tese de doutoramento, defendida já em 2012 e que por motivos vários (sobretudo pelo seu tamanho descomunal) ainda não consegui publicar. Nesta tese procurei identificar, recensear, documentar e estudar as casas da câmara (nome outrora dado entre nós aos paços do concelho) de todos os velhos concelhos portugueses do chamado Antigo Regime, dois terços dos quais foram extintos depois da implantação do Liberalismo. Foi um projeto de investigação muito intensivo de quatro anos, dos quais dois foram na Torre do Tombo, onde encontrei documentação muito importante sobre as Beiras e a Guarda em particular.

Nos dois anos seguintes fiz uma “Volta a Portugal” intensiva que me levou a praticamente todos os concelhos extintos do Portugal das Épocas Medieval e Moderna. A estes seguiram-se quatro anos de redação, mas devo dizer e reconhecer que este projeto desmesurado, de 937+991 páginas (em qualquer país do mundo seria feito por três ou quatro equipas alargadas e bem equipadas, cada uma para sua região…), só foi possível porque teve um apoio substancial da antiga DGAE do Ministério da Educação (sou professor do 2.º Ciclo do E. Básico).

O objetivo foi conhecer as casas da câmara enquanto objeto arquitetónico, mas também enquanto cenário de um poder local multissecular, desde as origens destas casas ou paços, algures no século XIV, até ao fim do Antigo Regime (1834). No fundo foram 500 anos de arquitetura concelhia num universo de cerca de 850 antigos concelhos espalhados pelo país todo, Açores e Madeira incluídos, pois esta arquitetura concelhia constitui um corpus patrimonial gigantesco, qualificado, sumamente coerente e de uma valia arquitetónica e histórica extraordinária. Com efeito, as casas da câmara dos antigos concelhos portugueses têm tanta importância histórica e “documental” como os forais de todos os antigos concelhos, pelo que a futura historiografia dos concelhos portugueses (não gosto do termo “municipalismo”, em bom rigor inaplicável relativamente aos concelhos das épocas Medieval e Moderna), nunca mais passará ao lado do extraordinário testemunho histórico constituído por este monumental corpus arquitetónicos.

 

Quais os trabalhos que tem atualmente em curso e quais os próximos projetos, a curto e médio prazo?

Presentemente colaboro com a Câmara Municipal da Guarda, para quem estou a fazer o levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho, de que já falei acima. Decorrente deste levantamento, que me tem surpreendido pela sua quantidade e pela sua qualidade, como já disse, está prevista a realização de algumas visitas guiadas a outras aldeias do Concelho.

A curto e médio prazo tenho a publicação urgente da minha tese (o editor está sempre a apertar, mas é uma tarefa muito exigente pois, dadas as dimensões imensas do formato “tese”, houve que reduzir, adaptar e cortar, cortar, cortar, para a tornar publicável…) e a publicação de um livro para a Câmara Municipal de Pinhel, quase pronto, suscitado pelas comemorações dos 250 anos de elevação desta antiga vila a cidade e pela criação da respetiva Diocese, mas atrasado por conta da pandemia. Mais a Sul, tenho em projeto a monografia de uma belíssima casa da câmara de um concelho da região de Lisboa.

Depois destas publicações, e ressalvando os compromissos já assumidos e algumas colaborações pontuais, conto “encerrar a atividade” de investigador e dedicar-me à pintura, pois adoro pintar (afinal, eu fui direitinho do Liceu da Guarda para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa…), o que já não faço há 25 anos.

 

Como vê a Guarda e o distrito em termos culturais? O que falta e o que poderia ser feito?

Acompanho muito mal a vida cultural da Guarda e do distrito, pois vivo em Lisboa, mas sei que hoje existem equipamentos culturais excelentes, creio que em todos os concelhos do distrito. Sei também que existem algumas actividades culturais importantes. Tive oportunidade de assistir à estreia absoluta da ópera Felizmente há Luar, de Alexandre Delgado, no TMG, uma iniciativa que temos que aplaudir da forma mais efusiva (apesar das inconsistências músico-dramatúrgicas desta primeira versão da ópera).

Parece-me, porém, que a vida cultural na Guarda e no seu distrito sofre de três problemas principais:

1- Falta de estruturas de produção cultural local, sobretudo a nível das chamadas artes performativas, teatro e música em particular. É inconcebível que os espaços culturais modernos que se espalharam por todo o distrito não sediem ou acolham em permanência estruturas de produção cultural, sobretudo teatro e música, minimamente consolidadas, sejam elas amadoras ou profissionais.

2 - Falta de atividades culturais mais frequentes nomeadamente em matéria de teatro e de música erudita, com o consequente défice de formação e de renovação de públicos.

3 - Falta de colaboração dos concelhos do distrito, uns com os outros, (também) em matéria cultural, o que a meu ver é absolutamente incompreensível, nomeadamente por implicar um enorme desperdício e esbanjamento dos recursos e dos investimentos feitos localmente, concelho a concelho. Não há sentido que as exposições mais importantes não circulem pelo maior número possível de concelhos do distrito; não há sentido que os diversos concelhos não se unam para financiar a formação, organização, gestão e financiamento de uma companhia de teatro inter-concelhia, de padrões profissionais mínimos (sim, eu sei: a CM de Lisboa não tem nenhuma, mas em Lisboa há companhias de teatro para – quase – todos os gostos…), de modo a poder exibir-se por todos os concelhos do distrito. Acho que faz falta a criação de uma companhia “distrital” de teatro, profissional, despretensiosa e verdadeiramente popular, isto é, nos antípodas dos elitismos e dos vanguardismos e dos pseudo-vanguardismos correntes, de que sofrem tantos “programadores” e “directores artísticos” que hoje tutelam estruturas nacionais, regionais e até locais de produção artística, com nítido prejuízo dos públicos locais, que não têm que alimentar nem ficar reféns do snobismo provinciano, nem do ego, nem do umbiguismo inflamado de “agentes artísticos” sedentos de afirmação e sempre atrás da última moda, só porque sim.

Enfim, de que é que estamos à espera para criarmos planos inter-concelhios, que envolvam o maior número possível de concelhos, para a realização regular de concertos populares de música (clássica e outra) ou de sessões populares de cinema, a apresentar nas cidades e no maior número possível de vilas e aldeias do distrito, ampliando, consolidando e aperfeiçoando as experiências que já se têm feito, ou que estão presentemente em curso, nestas áreas?

 

HS/Correio da Guarda