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domingo, 15 de março de 2026

Redescobrir Pinhel...

 

 


A Associação dos Moradores e Proprietários do Centro Histórico de Pinhel vai promover no próximo dia 28 de março o Peddy Paper “Entre Pedras”.

Trata-se de uma atividade que pretende assinalar o Dia Nacional dos Centros Históricos e ao mesmo tempo convidar a comunidade a redescobrir o património, as ruas e os pormenores do centro histórico daquela cidade.

A iniciativa terá início às 9h30, com ponto de encontro na Capela de Santa Rita, desafiando os participantes a percorrer o Centro Histórico através de um conjunto de provas de observação, enigmas e desafios, que permitirão conhecer melhor a história e as curiosidades de Pinhel.

A participação é feita em equipas de 3 a 5 elementos, sendo a atividade aberta a participantes de todas as idades, incentivando a participação de famílias, grupos de amigos e instituições. Segundo a Associação promotora, pretende-se “desafiar as pessoas a olhar para o Centro Histórico com outros olhos e a descobrir pormenores que muitas vezes passam despercebidos no dia-a-dia”, promovendo assim uma forma diferente e participativa de conhecer algum património da cidade.

A participação prevê um donativo simbólico de 3 euros por equipa, revertendo para apoio às atividades da associação, sendo gratuita para equipas constituídas por associados.

As inscrições são obrigatórias e limitadas, devendo ser efetuadas através do formulário disponibilizado pela organização que consta também no código QR apresentado no cartaz da iniciativa.

Com esta atividade, a Associação pretende valorizar o Centro Histórico e estimular a sua visita e fruição, promovendo simultaneamente um momento de convívio e descoberta para todos os participantes.


segunda-feira, 9 de março de 2026

Abel Virgílio: a Guarda é uma cidade inesquecível

 Hoje recuperamos uma entrevista publicada há dois anos, mas que não perdeu atualidade...


 

Natural de Pinhel, Abel Virgílio viveu vários anos na Guarda, cidade que considera “com forte apego, ao longo dos séculos, ao nobre sentimento da nossa portugalidade”. A vida militar, o jornalismo e a rádio são páginas de uma vida plenamente assumida, onde a sua atividade principal e vocacional – como disse ao CORREIO DA GUARDA – foi sempre o ensino. Lecionou alunos dos vários graus de ensino desde, 1963 até 1978, ano em que passou a exercer funções pedagógico-administrativas na coordenação do ensino da Embaixada de Portugal em França. Ingressou em 1989 na Inspeção-Geral da Educação, onde manteve, até à sua aposentação, “uma atividade inspetiva a escolas e instituições públicas e privadas de todos os graus do ensino.”


O que representa para si a Guarda?

A Guarda representa no meu espírito e na minha cultura uma cidade do interior do país com vasta história e imenso património artístico, no qual se salienta o seu ex-libris: a sé catedral, cabeça duma diocese multisecular.

Foi e é uma cidade altaneira, de montanha, granítica, com uma grande identidade das suas gentes e daqueles, como eu, que por lá viveram, na defesa dos seus valores e património ancestrais e na sua divulgação na diáspora, no estrangeiro.

Foi e é uma cidade, - honra lhe seja, - com forte apego, ao longo dos séculos, ao nobre sentimento da nossa portugalidade, mesmo se situada às portas de Castela-Leão.

Foi e é uma cidade da simbiose afetiva perfeita entre a sua academia, os militares do seu aquartelamento, os seus clérigos, as suas forças vivas, o seu bom povo.

Enfim, a Guarda deixou em nós todos uma forte ligação e empatia, porque nela vivemos respirando um espírito de tolerância, hospitalidade e compreensão.

Foi uma cidade inesquecível no meu itinerário de vida: lá namorei, lá casei, lá nasceram os meus dois filhos e lá estão sepultados os meus sogros.

 

Quando é que veio para a Guarda?

A primeira vez que subi à Guarda, ido da minha terra natal (Pinhel), foi no distante ano de 1954 para, no Liceu, prestar provas do exame de admissão. Recordo que fiquei alojado numa casa da rua dos Cavaleiros, ali bem perto da Sé e do Liceu, e pude deslumbrar-me com a imponência dos dois.

A partir dali passei a ir bastas vezes à Guarda, mas fixei-me em agosto de 1961, iniciando a preparação para o acesso à Escola do Magistério Primário, uma das mais conceituadas do país, que frequentei até finais de julho de 1963.

Mais tarde, em julho de 1967, regressei como oficial miliciano instalando-me no Regimento de Infantaria 12 onde permaneci até abril de 1970. Neste ano casei com uma guardense e por lá continuámos até ao início de novembro de 1975.

 

Como carateriza a cidade e a juventude dessa época?

Nesses tempos, a Guarda era o farol cultural das Beiras: tinha um ensino liceal público completo, uma escola do magistério muito prestigiada, uma escola comercial e industrial com cursos diversificados, um seminário maior com bastantes seminaristas e dois colégios católicos (um masculino e um feminino).

Neste âmbito rivalizava com as cidades vizinhas (a Covilhã, por exemplo, só possuía cinco anos do ensino público liceal).

Nesse tempo, a juventude da Guarda, saída de meios familiares relativamente pobres, era feliz e idealizava sonhos e realizava projetos para o futuro. Mas, a marca fundamental que ficou em nós todos foi a da amizade, da fraternidade e da solidariedade que nos continua a ligar ao longo da vida, decorridos já tantos anos.

 

O que tinha, então, a Guarda para oferecer aos jovens?

A Guarda oferecia aos jovens uma hospitalidade invulgar. As casas/pensões que nos acolhiam tratavam-nos como sendo da família. Num dos anos letivos eu estive alojado, no chamado largo João de Deus ou dos Correios, na casa da D. Cândida Mota (onde também esteve o antigo procurador-geral Pinto Monteiro e outros) e no seguinte, ao lado, na casa dos pais do saudoso companheiro Pedro Evangelista. Mas, fosse nos cafés, que nos tiravam do frio nas noites de inverno, fosse nas sessões do cine-teatro, fosse nas ruas geladas da cidade, tínhamos sempre o sorriso generoso e bom dos guardenses com uma saudação amiga para a “estudantada”.

Além disso, a academia da Guarda, com o uso coimbrão da capa e batina, tinha a particularidade de “oferecer” os seus caloiros uma praxe, ritual que os praxados não esqueceram nunca mais.

Ah! O que também a Guarda oferecia aos jovens eram a neve, o sincelo e o vento cieiro nos dias do inverno, imagens de marca de um tempo que nunca esqueci.

 

Quais as personalidades mais marcantes dessa época?

Nessa época a Guarda beneficiava do facto de ter em Lisboa, personalidades bairristas de relevo: o dr. João de Almeida, o dr. Soares da Fonseca, o professor dr. Veiga Simão (que viria a ser ministro da Educação no consulado de Marcelo Caetano), o dr. Augusto César de Carvalho, Prof. Dr. Fernando Carvalho Rodrigues e muitos mais.

Mas na Guarda, no meu tempo, as figuras mais marcantes eram os bispos da diocese, os governadores civis, os presidentes do Município, os professores dos estabelecimentos de ensino e os altos quadros do regimento, da medicina, da justiça, da indústria e dos serviços públicos.

Não poderei deixar de mencionar os bispos dos meus tempos da Guarda: D. Domingos Gonçalves, D. Policarpo da Costa Vaz, e mais recentemente essa eminente figura da igreja, o cardeal Saraiva Martins. E oradores sagrados de grande renome e prestígio, tais como o dr. Vitor Feytor Pinto e Afonso Sanches de Carvalho. Como governadores civis recordo os drs. Augusto César de Carvalho, Santos Júnior, Luis de Almeida, Mário Bento e Andrade Pereira. Como autarcas os drs. Lopes Quadrado e Aristides Prata. Como militares comandantes do R.I.12 os coronéis José Maria Vieira Abrunhosa, Jorge Inglês P. de Carvalho e Jorge Pereira de Carvalho. Como causídicos os drs. João Gomes, Francisco Bigote, Celínio Antunes, Andrade Pereira, Pires da Fonseca. Como médicos os drs. Martins Queirós, Silvano Marques, António Júlio, Alberto Garcia, Sardo, Martins das Neves, Pereira da Silva, Afonso Paiva, Orlindo Teles, Baeta de Campos, etc. Os professores que impulsionaram a nossa juventude para a vida ativa, e que se distinguiram até a nível nacional, tais como os drs. Abílio Bonito Perfeito, Costa Ramalho, Manuel Jorge Proença, Armando Saraiva de Melo, cónego Álvaro Quintalo, Beatriz Salvador, Maria Alice Quintela, Fernanda Cardinal, etc. etc. No tecido empresarial surgiam à cabeça Manuel Conde, a família Tavares, Lúcio Romão, e outros.

 

Como começou a sua ligação à imprensa regional e nacional? E que tipo de colaboração desenvolveu?

A minha ligação à imprensa regional iniciou-se em 1959, com apenas 15 anos.

Ao verificar que o campo de futebol municipal Astolfo da Costa, em Pinhel, servia simultaneamente para o desporto local e para a realização de feiras de gado, insurgi-me com tal atropelo sanitário e escrevi um artigo crítico que entreguei ao meu saudoso amigo Madeira Grilo, que então era, conjuntamente com Virgílio Afonso, um dos chefes da redação do semanário “Correio da Beira”.

O artigo foi publicado, e no seguimento dele tive o convite desses dois amigos para ser o correspondente do Jornal em Pinhel. Simultaneamente, também o abade de Pinhel, diretor do “Pinhel Falcão” me convidou para ser colunista neste mensário católico da cidade.

Mais tarde, em 1967, passei a ser correspondente em Pinhel do “Diário de Coimbra” e, depois, na Guarda do “Jornal de Notícias”. Pela mão do cónego Sanches de Carvalho passei a ser, além do correspondente do Jornal “A Guarda” em Pinhel, também seu editor da página desportiva e revisor de todo o Jornal antes de ser impresso. Logo que passei a colaborar no Jornal “A Guarda” abandonei a correspondência com o “Correio da Beira”.

Durante o serviço militar no R.I.12 recriei e editei o jornal regimental chamado “Fronteiros da Beira”. Mantive a colaboração com a imprensa escrita até à minha partida para França, em finais de 1975. Depois do meu regresso, em 1989, apenas continuei como colunista permanente no jornal “Pinhel Falcão”, publicando sob o pseudónimo de Eneida Beirão, até pouco depois do falecimento em 2015, do meu saudoso amigo e seu diretor Maia Caetano.

 

JORNAL DE NOTICIAS - CARTÃO ABEL VIRGILIO.jpg

E a ligação à Rádio e quais os companheiros que recorda?

Em 1967, quando cheguei ao quartel da Guarda, fui convidado pelo meu amigo Emílio Aragonez para com ele editar na Rádio Altitude um programa desportivo designado “Desporto Regional”, logo após a saída do programa dos saudosos amigos Madeira Grilo, Luís Coito e Luís Coutinho.

Acompanhávamos o desporto regional nos três distritos da Beira interior, mas com maior incidência no da Guarda. Dessa participação benévola mas dedicada recordo com imensa saudade o nosso diretor, dr. Martins Queirós, o nosso administrador A. Carvalhinho, e os companheiros inesquecíveis nessa genuína escola da rádio e alfobre de amizades: Antunes Ferreira, Vaz Júnior, Joaquim Pinheiro, Emílio Aragonez, António José Teixeira, Joaquim Fonseca, Luís Coutinho, Luís Coito, Alcina Coito, Madeira Grilo, Lopes Craveiro, Helder Sequeira, Virgílio Ardérius, Maria José Trabulo, Fernando Bento, Vítor Santos, Luís Celínio, Rebelo de Oliveira, Francisco Carvalho, e tantos mais que contribuíram como uma família radialista para a dignificação, expansão e prestígio da mais antiga radio portuguesa. Alguns, infelizmente, já nos deixaram.

Além de inúmeras reportagens de exteriores de índole regionalista, política, social, cultural e religiosa que assegurei para a Rádio Altitude, também criei e dirigi, com os meus camaradas João Trabulo e Joaquim Fonseca, um programa semanal do Regimento militar “A voz do Doze”.

 

Tem na memória algum episódio, na Rádio, que gostasse de recordar?

Poderia aqui evocar os mais diversos episódios ocorridos nas transmissões que assegurávamos de vários pontos da região e do país, nuns tempos em que o sinal era levado aos estúdios através dos imponderáveis das linhas telefónicas dos CTT. Mas os episódios que me marcaram foram os relatos de futebol transmitidos a partir dos estádios de cidades como Portalegre, Castelo Branco, Covilhã, Viseu, Coimbra, Figueira da Foz, Gouveia, Seia, Lamego, Pinhel, Aveiro, Espinho, etc., etc.

Recordo que, quando fazíamos os relatos de futebol junto aos relvados dos estádios de algumas destas localidades, os espetadores da bola, que não sabiam como se faziam os relatos desportivos, cercavam-nos estupefactos e surpreendidos durante toda a emissão.

Também guardo memória das gravações que se faziam nas sedes dos concelhos, na época que antecedia o Natal, para se registarem as mensagens dos familiares dos militares que nesse tempo combatiam nas antigas colónias. Guardo a imagem de tanta gente anónima sénior que, de lágrimas nos olhos e saudades no coração, deixava no final das mensagens sempre a esperança num sentido “até ao teu regresso!”

RADIO ALTITUDE - CARTÃO ABEL VIRGILIO.jpg

E as memórias sobre o R.I.12? A cidade perdeu muito com a extinção dessa unidade militar?

Tive o orgulho patriótico de durante cerca de três anos prestar serviço como oficial miliciano no velho R.I.12, aquartelado na Guarda. Apelido-o de “velho” porquanto foi descendente do terço de Chaves (1706) e herdeiro das tradições militares de unidades de grande prestígio no nosso país, por ações de resistência às invasões napoleónicas dos exércitos franceses no início do séc. XIX e por campanhas em África, na II guerra mundial e, depois, na guerra colonial.

O cumprimento do meu serviço militar obrigatório no R.I. 12 deixou-me algumas boas memórias, mormente na camaradagem e na amizade que construímos sob o lema do regimento “Firmes como rochas”.

A extinção da unidade militar deixou um vazio social e económico na cidade. Lembremos que o R.I. 12 proporcionava quatro turnos anuais de formação aos recrutas, e cada turno absorvia mais de 600 recrutas, provenientes na sua maioria da região norte do país.

Além desses, o pessoal do quadro permanente e milicianos somavam cerca de cem militares. Portanto, é fácil inferir o vultuoso investimento que a logística da unidade militar fazia no tecido empresarial da cidade e região, bem como os gastos que todos os militares, sem exceção, deixavam na habitação, no comércio e nos serviços locais.

Abel Virgílio - Correio da Guarda .jpg

Acha que falta fazer a história do R.I.12?

Seria importante escrever em pormenor a história do R.I. 12, e, sobretudo, a história dos regimentos aquartelados na Guarda ao longo dos tempos: R. I. 34 e 2º Grupo de Metralhadoras (1911-26), Batalhão de Caçadores 7 (1814-16, depois 1939-61), Batalhão de Caçadores 29 (1840-42), Batalhão de Caçadores 4 (1842-43), Batalhão de Caçadores 1 (1844), e, finalmente o R.I. 12 (1846-1939 e, depois, de 1966 até à sua extinção.

Durante parte do tempo em que servi no R.I. 12, por decisão do então comandante coronel Jorge Inglês, fui incumbido de escrever dois opúsculos intitulados “Pequena história dum velho Regimento – O R.I.12” e “Relação dos comandantes efetivos do R.I. 12 (1706-1967)”. A pequena história resume sucintamente as unidades que precederam o R.I. 12, as suas origens, divisas e condecorações.

 

Qual foi o percurso da sua atividade profissional e o que gostou mais de fazer?

A minha atividade principal e vocacional foi sempre o ensino. Lecionei alunos dos vários graus de ensino desde 1963 até 1978.

A partir desse ano letivo passei a exercer funções pedagógico-administrativas na coordenação do ensino da Embaixada de Portugal em França, sob a tutela do Ministério da Educação e da conselheira cultural da Embaixada, em Paris.

Entre 1978 e 1989, no exercício dessas funções, percorri todo o território francês para diligenciar junto das várias Academias a criação de cursos de língua e cultura portuguesa.

Em 1989, quando regressei a Portugal, ficaram em França cerca de 550 professores a lecionar Português para mais de 55 mil alunos em escolas de toda a França. 

No ano letivo de 1989/90 ingressei na Inspeção-Geral da Educação, onde mantive, até à minha aposentação, uma atividade inspetiva a escolas e instituições públicas e privadas de todos os graus do ensino. 

Senti-me realizado no desempenho de todas as tarefas que envolveram alunos e colegas professores e inspetores, mas um dos momentos altos da minha carreira profissional ocorreu no dia de Portugal de 1981 quando me foi atribuída pelo presidente Ramalho Eanes, sob proposta do ministro da Educação Vítor Crespo, a condecoração do grau de oficial da instrução pública.

 

Acompanha o que se passa atualmente na Guarda?

Sim. Pelas razões atrás aduzidas acompanho à distância as atividades e eventos da Guarda através da comunicação social e dos relatos e comentários de familiares e amigos residentes.

Guarda - Cápsula do tempo - HS.jpg

Como vê o estado atual da cidade?

Da Guarda da minha meninice e juventude até à atual cidade há um progresso enorme.

As auto estradas A 23, A 25 e IP2 desencravaram a região e ligaram-na mais facilmente ao litoral e aos grandes centros. A ferrovia, com as duas linhas (da Beira Alta e Baixa) em funcionamento pleno podem, no futuro, abrir mais perspetivas de desenvolvimento na Beira interior.

O Instituto Politécnico (que não existia no meu tempo) veio ser a locomotiva que fazia falta à juventude, tanto nacional como estrangeira, para sonhar e realizar projetos de vida e de futuro. O crescente número de alunos estrangeiros que procuram o I.P.G. para prosseguimento dos estudos revela bem o prestígio dos seus cursos superiores.

O turismo também é a mola impulsionadora da região serrana e mais será quando, além dos seus magníficos ares, dos seus monumentos e gastronomia, a Guarda lhes oferecer belas praias fluviais e passadiços na montanha. Na minha ótica, o porto seco na Guarda alavancará no futuro a indústria, o comércio e os transportes. Tudo isto é bom para melhorar o estado atual da Guarda.

 

Entrevista de Helder Sequeira /Correio da Guarda

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Daniela Capelo preside ao Conselho Regional da CCDR Centro

 

Daniela Capelo foi eleita hoje como presidente do Conselho Regional da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.


Foto: CMPinhel

A Presidente da Câmara Municipal de Pinhel vai dirigir o Conselho Regional da CCDR durante os próximos quatro anos.

O Conselho Regional elegeu também Jorge Conde, ex-presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, como vice-presidente do Conselho Diretivo da CCDR Centro.

A nova Comissão Permanente do Conselho Regional da CCDR Centro passa a ter como presidente Daniela Capelo (presidente da Câmara Municipal de Pinhel),

vice-presidente António Ribeiro (presidente da Câmara Municipal de Seia), vice-presidente António Franco (presidente da Câmara Municipal da Mealhada) e como vogais Joaquim do Amaral, (presidente da Câmara Municipal de Nelas), Ana Paula Duarte (reitora da Universidade da Beira Interior), Carlos Rabadão (presidente do Instituto Politécnico de Leiria) e José Couto (presidente da direção Câmara de Comércio e Indústria do Centro).


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A propósito de Ernesto Pereira

 

Jornalista, advogado e jurista, Ernesto Pereira nasceu na Guarda a 9 de fevereiro de 1903.

Para a posteridade deixou múltiplos, quanto dispersos, testemunhos das suas observações, análises; sustentadas numa inteligência lúcida e brilhante, num trabalho determinado em prol do desenvolvimento da sua cidade.

Embora o seu espólio não seja muito vasto, legou-nos textos de excelente recorte literário, a par de outros onde emergem as suas convicções, a postura moral, uma personalidade forte, uma cultura vasta.

Licenciado em Direito, a paixão pelo jornalismo cresceu progressivamente, e em paralelo, com a sua dedicação à causa da Guarda; no início de 1926, fundou o jornal a Actualidade, projeto que prosseguiu um ano depois em Pinhel, onde se radicou por motivos de ordem profissional.

Naquela cidade integrou a Comissão Orientadora da Frente Única Republicana, empenhando-se, por outro lado, na revitalização da corporação dos Bombeiros Voluntários. Fundou, na cidade falcão, o Colégio, do qual não pôde ser diretor porque o Ministério da tutela o considerava da oposição ao sistema político vigente.

Como por várias vezes deixou claro, o causídico guardense não era pessoa para desistir perante as contrariedades. “Por mil vezes que a pedra se despenhe, voltarei, com muitos esforços, canseiras e sacrifícios, a empurrá-la. E nunca desistirei – porque nunca desiste o homem verdadeiramente digno desse nome”; uma predisposição que demonstrava também na barra do Tribunal, independentemente da complexidade dos processos, servindo-se das suas qualidades oratórias, em tantas ocasiões postas ao serviço de casos que sabia, à partida, dificilmente seriam remunerados.

Num processo julgado no Tribunal da Guarda, em que eram acusados alguns estudantes por desrespeito a um agente da autoridade, Ernesto Pereira assumiu a defesa dos jovens, sem indagar ou avaliar as possibilidades económicas dos mesmos; dirigindo-se ao Juiz, sustentou que “tão digna é a toga que V. Exª usa como a capa negra de um estudante”.

Depois de uma passagem, profissional, pelo Porto voltou à Guarda onde, a partir de 1942, foi editor da Revista Altitude. Lutou pela criação do Museu da Guarda onde viria a assumir funções diretivas.

Ernesto Pereira -.jpg

Empossado no cargo de Presidente da Câmara Municipal da Guarda em 1946, empenhou-se, desde logo, na construção do Hotel de Turismo, na linha dos argumentos que há muito vinha divulgando acerca da urgência de a cidade se desenvolver do ponto de vista turístico.

Por certo seria a pensar nos potenciais visitantes que, junto da Direção Geral da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, defendeu a “justa regalia de que a Guarda sempre gozou por poder dispor de uma carruagem direta Guarda/Lisboa – regalia que certamente não lhe será negada”.

Os problemas urbanísticos estiveram, igualmente, no rol das preocupações do edil guardense. A localização do Colégio Feminino, o novo Cine Teatro, a regularização do Bairro do Bonfim (e da entrada da cidade por esse lado), a abertura dos arruamentos de acesso à Sé, bem como a urbanização da Guarda-Gare foram assuntos devidamente equacionados junto das entidades por quem passava a sua resolução.

No ano seguinte foi nomeado Governador Civil da Guarda, cargo no decorrer do qual procurou afirmar o distrito e incrementar o seu desenvolvimento através de eixos rodoviários e ferroviários; neste último plano, para além das atenções que dedicou às linhas da Beira Alta e Beira Baixa, defendeu a “necessidade urgente de prolongar até Barca de Alva a marcha do comboio diário que sai do Porto, cerca das 15.55 até ao Tua (...). Levar tal comboio até Barca de Alva representa um valioso benefício para as populações do Douro, tanto do lado da Beira e distrito da Guarda, como do lado de Trás-os-Montes e distrito de Bragança”.

Ao longo do período em que desempenhou as funções de Governador Civil, o relacionamento com as autoridades espanholas da província de Salamanca inscreveu-se nas suas prioridades de atuação, procurando incrementar contactos oficiais e pessoais, certo de que seria uma excelente fórmula para resolver muitas questões resultantes da convivência fronteiriça.

Na cidade, o seu círculo íntimo de amigos integrava o Dr. João de Almeida e o Dr. João Gomes (advogado, democrata convicto, opositor ao regime e que foi, como é do domínio público, uma das mais prestigiadas e consideradas personalidades políticas no pós-25 de Abril).

Em 1952, Ernesto Pereira deixou a Guarda para tomar posse como Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas, passando a residir em Lisboa, onde, com frequência, recebia os amigos mais chegados, como António Andrade, Ladislau Patrício, e José Domingues Paulo (uma das grandes amizades dos seus últimos anos).

O seu irmão Abel Pereira (conhecido jornalista do Diário Popular) era outra das presenças, frequentes, na sua casa, onde viria a falecer em Julho de 1966.

A figura deste guardense não se pode analisar fora do contexto da sua época, e desarticulada de um conjunto de determinantes pessoais e familiares. Ernesto Pereira é, sem dúvida, um nome grande da Guarda, cidade onde deixou obra feita ou definida; os regulares contactos ou o convívio com personalidades politicamente posicionadas, não significaram, necessariamente, o partilhar de ideias e objetivos, sobretudo quando se tinha um rigoroso conceito de amizade e um espírito de permanente defesa da liberdade de expressão e pensamento.

Era um homem que procurou sempre a verdade, “essa doce miragem que perpetuamente fascina”, como escreveu em 1926.

A cidade de Pinhel tem o seu nome consagrado na toponímia local, o mesmo acontecendo na Guarda; cidade que não deve esquecer esta carismática personalidade do passado século (como advogado, como jornalista, como autarca, como Governador, como Juiz) .

 

Hélder Sequeira 


domingo, 18 de janeiro de 2026

Safurdão retoma tradição da benção dos animais

 


No Safurdão (Pinhel) foi retomada ontem, 17 de janeiro, uma tradição associada à festividade em honra de Santo Antão, protetor dos animais domésticos, santo que a Igreja venera desde o século IX.

SANTO ANTÃO

A Comissão de Festas de 2026 empenhou-se em reavivar uma celebração “profundamente enraizada na identidade da aldeia”, como disse, ao CG, Diana Cruz e Sousa. “Esta celebração deixou de ser cumprida nesta data, há cerca de 45 anos, altura em que as festividades passaram a ser realizadas em agosto”.

O dia de ontem, sábado, foi marcado pela celebração eucarística em honra de Santo Antão, seguindo-se a tradicional bênção dos animais, “uma prática ancestral da comunidade”.

Diana Cruz e Sousa acrescentou ao CG que “no adro da Igreja, os habitantes de Safurdão voltaram a trazer os seus animais para serem benzidos, num gesto de agradecimento ao santo, recordando tempos em que a agricultura e a subsistência das famílias dependia diretamente do trabalho animal”.

Benção dos animais_SAFURDÃO_Correio da Guarda

Esta festividade prosseguiu depois com a arrematação de enchidos, “mantendo viva uma tradição comunitária que atravessa gerações”, culminando com um almoço convívio aberto a toda a população daquela freguesia.

Como nos foi referido, “o momento da partilha reforçou os laços entre os safurdenses e marcou o regresso a costumes que fazem parte da memória coletiva da aldeia”.

Com esta iniciativa, a Comissão de Festas de Santo Antão (ano de 2026, no Safurdão, “deu um passo significativo na preservação do património cultural e religioso local, resgatando práticas que definem a história e a identidade da comunidade”.

Benção dos animais_safurdão_2_CORREIO DA GUARDA

Das atividades tradicionais do Safurdão destaca-se a tecelagem artesanal, existindo ainda hoje, como salvaguarda da memória, alguns teares. Na primeira metade do século passado, existiam no concelho de Pinhel, várias tecedeiras que trabalhavam nos teares os fios de linho, tecendo também as conhecidas colchas de lã e as mantas de farrapos.

A cultura do linho teve uma expressão significativa no Safurdão, bem como noutras aldeias do concelho de Pinhel; o linho cultivava-se em terrenos que tinham bastante água e deitava uma flor azul, quando estava maduro.