A Associação de Jogos Tradicionais da
Guarda (AJTG) vai promover, no próximo sábado, 21 de março, mais um percurso
pedestre temático, cultural e turístico inserido no programa da Semana Santa
“Guarda – Cultura e Fé”.
Sob a designação o “Culto Privado das
Almas” o percurso vai iniciar-se (pelas 9 horas) em Valdeiras e incidirá sobre
o território de São Miguel do Jarmelo, no concelho da Guarda; será um percurso
com um grau de dificuldade fácil, ao longo de nove quilómetros, devidamente
guiado, com acompanhamento e informação. Recordamos os nossos leitores que a
AJTG já em 2024 tinha promovido idêntica iniciativa nas aldeias de Trinta,
Corujeira, Fernão Joanes e Meios (concelho da Guarda).
Como foi referido a propósito desse
percurso, pretendeu-se levar os participantes à descoberta do património
cultural material e imaterial, mas também do património natural daquela área do
concelho da Guarda.
A AJTG promoveu também no passado ano
(a 23 de março de 2025) um “Percurso das Alminhas” que, com início na Menoita,
passou por várias localidades da freguesia de Pera do Moço: Menoita, Rapoula,
Pera do Moço e Verdugal; com incidência no património local e na identificação
de alminhas.
Singelos monumentos expressivos da
religiosidade popular, as “Alminhas” constituem um património ímpar que não tem
merecido a devida atenção e a necessária salvaguarda; deste modo, iniciativas
como esta promovida pela Associação de Jogos Tradicionais da Guarda são de
aplaudir, incentivar e apoiar.
Nesta região do interior existem
inúmeros testemunhos do culto das almas, sob diversificadas manifestações de
arte e nos mais distintos lugares, embora os caminhos e as encruzilhadas tenham
constituído locais privilegiados para a sua implantação.
A representação do Purgatório num
oratório, retábulo ou painel, com chamas envolvendo as almas que suplicam aos
santos e apelam ao auxílio das preces de quem passa, materializou-se,
inicialmente em pinturas, a partir do século XVI; conheceu uma maior difusão no
século seguinte, no território português, com maior incidência a norte do
Mondego (a sul essa manifestação artística ficou, muitas vezes, no interior das
igrejas e nas capelas das Irmandades).
Embora alguns investigadores desta
temática argumentem que as “Alminhas” se tenham inspirado e sejam uma herança
das “civilizações clássicas de Roma e Grécia que nas suas deambulações já
haviam erguido monumentos junto às estradas para devoção aos seus deuses”,
sabemos que a origem das alminhas surge na Idade Média.
A partir do Concílio de Trento,1563,
a ideia do Purgatório (anteriormente, e em especial nos primeiros séculos do
cristianismo existia apenas o Céu e o Inferno) é imposta como dogma, atitude
que é interpretada como uma resposta da Igreja Católica à reforma implementada
pelos protestantes. Assim, o Purgatório surgia como um local (entre o Céu, para
os bons, e o Inferno, para os maus) onde as almas passavam por um estado,
forçado, de purificação. Estas manifestações de religiosidade popular e de arte
eram, simultaneamente, um alerta permanente para a fragilidade da vida, perante
a certeza da morte.
As “Alminhas” eram erguidas,
normalmente, por iniciativa individual como homenagem, em memória de familiares
ou no cumprimento de promessas. Esta devoção popular atravessou os tempos e
embora a meio do século passado tenha sido evidente um rejuvenescimento através
da introdução da azulejaria (e alterado o culto inicial para manifestação de fé
em santos da predileção pessoal), muitos destes pequenos monumentos, mercê do
tempo e da desertificação das regiões, caíram no esquecimento e em progressiva
degradação.
“Ó vós que ides
passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”…
Este apelo, inscrito em inúmeras
“Alminhas”, bem pode ser, na atualidade, dirigido a todos nós que temos olvidado
um peculiar património (não são conhecidos muitos mais exemplos – com exceção
para alguns casos, raros – na Europa), disperso por caminhos, muros, pontes,
campos, estradas…
O projeto da AJTG, centrado no “Culto
Privado das Almas, é – como já tínhamos salientado em anteriores Anotações – um
eminente contributo para a salvaguarda, estudo e divulgação deste património, o
qual pode ancorar uma diversidade de roteiros, mas também suscitar
investigações contextualizadas em épocas ou tipologias dessas expressões de
religiosidade, permitindo a sua descrição/história através de códigos
disponibilizados pelas novas tecnologias; exigindo igualmente a adequada
sinalética e iluminação (mesmo nos locais mais ermos isso já é viável, através
de focos/luminárias com energia solar).
No distrito da Guarda (como noutras
regiões, obviamente) é urgente, fundamental, a completa referenciação (ou
continuidade desse trabalho, já feito pela AJTG), a defesa, o estudo (por
equipas interdisciplinares) e a divulgação das Alminhas, sob o risco de
perdermos mais um importante traço identitário do nosso património e cultura.
No próximo sábado poderá redescobrir
“alminhas” no percurso que a AJTG lhe propõe nos caminhos de um território rico
de história, religiosidade e tradição.
Hélder Sequeira
