Fomos buscar o
título deste apontamento de hoje à peça de teatro que escrevemos, e foi levada
à cena, em 2023, aquando da comemoração do 75º aniversário da Rádio Altitude.
Uma peça para
celebrar a rádio e, simultaneamente, proposta de reflexão sobre a função social
deste meio de comunicação; sobretudo em regiões do interior, como esta zona da
Beira Serra, onde nunca serão de mais os contributos que possam dar voz às
populações, aos valores culturais e históricos, ao presente, aos sonhos do
futuro.
A rádio continua
a ter um papel fundamental na informação local e regional, na defesa da
identidade destas terras e gentes. Nesta peça – cujo texto pode ser adaptado ou
interpretado em diferenciados contextos geográficos, onde a rádio esteja
presente – o espetador é levado para um estúdio, onde há vozes, músicas,
memórias, sentimentos, sonhos, paixão, afetos; é desafiado a assistir a um
programa de rádio, numa noite especial, onde se cruzam três gerações e que
proporciona a revisitação de múltiplas estórias; a evocação de distintas
vivências marcadas pela magia da rádio. No final há uma inesperada revelação e
um comovido apelo para que a rádio se continue a reinventar e afirmar no
futuro.
Há referências
especiais, nomes e vozes que serão percetíveis aos leitores/espetadores;
personagens que, como referido anteriormente, dão ao espetador a liberdade de
as associar a outras vivências; são os afetos e a paixão pela Rádio que
alimentam os diálogos, as memórias…
Na Guarda não
faltam memórias da Rádio, que importa reter e salvaguardar, em torno de uma
emissora que completa no próximo dia 29 de julho setenta e oito anos de
emissões, mantendo a designação que assumiu no passado século no contento da
vivência sanatorial da mais alta cidade portuguesa.
Embora já anos
antes tenha havido alguma atividade radiofónica, ainda marcadamente
experimental, a data oficial das emissões da Rádio Altitude é o dia 29 de julho
de 1948.
Esta emissora
“iniciou a sua sessão e, com ela, a sua vida oficial transmitindo depois do
disco indicativo da estação, a saudação Salvé Rádio Altitude! proferida
pela menina Aurora da Cruz, que foi escolhida para madrinha do Posto Emissor.
Falou, em primeiro lugar, o Sr. Carlos Alberto Pereira, Vice-Presidente da
Caixa Recreativa, que – anunciado pelo locutor de serviço com palavras de justa
homenagem e consagração – começou por dizer: Rádio Altitude, posto emissor
deste Sanatório, vai ser inaugurado oficialmente, depois de um período em
regime experimental”. Assim noticiou o Bola de Neve, um jornal editado
no Sanatório Sousa Martins
Como escrevemos em
“O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha” (publicado em 2003),
a Rádio Altitude é uma emissora com interessantes particularidades, originada
no seio das experiências radiofónicas que ocorreram no Sanatório Sousa Martins,
cerca de 1946. Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao
pavilhão do Sanatório onde estava concentrado o grupo de doentes (de
tuberculose) pioneiros deste projeto; apenas com a construção de novo emissor
foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.
No ano de 1947,
o médico Ladislau Patrício (diretor do Sanatório Sousa Martins) aprovou (a 21
de outubro) o primeiro regulamento da emissora, onde estavam definidas
orientações claras sobre o seu funcionamento; em finais desse ano as emissões
já eram escutadas na malha urbana da Guarda. O início oficial das emissões
regulares ocorreu, como atrás foi dito, em 29 de julho de 1948; um ano depois
(1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21, identidade difundida por várias
décadas.
A propriedade do
primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa dos Internados no
Sanatório Sousa Martins e mais tarde ao Centro Educacional e Recuperador dos
Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM); com a sua criação pretendeu-se
auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social
e ocupação dos tempos livres”.
Em 1961,
mediante autorização oficial, a Rádio Altitude passou a ter como suporte
económico-financeiro as receitas publicitárias, que em muito contribuiriam para
o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões da rádio guardense
evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades
técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no,
crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.
Até 1980 a Rádio
Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o
distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e
algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser
feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro
radioelétrico passou a emitir também em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz,
alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz, que mantém na atualidade.
No ano de 1998,
depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador
dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma
consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio
Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”. A
estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da
Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua
existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço do Sanatório Sousa
Martins, hoje designado Parque da Saúde.
Ao celebramos,
no próximo dia 29 de julho, o 78º aniversário das emissões regulares da RA
devemos lembrar-nos que estamos perante uma rádio muito especial para a Guarda
e região da beira serra. Uma rádio que tem o seu lugar na história da
radiodifusão sonora em Portugal e encerra décadas de afetos, memórias,
vivências, dedicação, serviço público, criatividade, formação, espírito
solidário.
Esta emissora,
confrontada com os desafios dos tempos hodiernos, permanece na memória coletiva
das gentes beirãs…
Hélder
Sequeira
in O Interior, 15 de julho 2026



