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domingo, 20 de setembro de 2026

Martins de Queiroz: entre a Cirurgia e a Rádio


Revisitar a história de algumas das instituições que marcaram a Guarda é uma oportunidade de reencontro com personalidades cuja vida e trabalho se traduziu em prol das pessoas, da cidade, da comunidade e da região; personalidades tantas vezes injustamente esquecidas.

Neste dever da memória, trazemos hoje a estas anotações o nome do último diretor do Sanatório Sousa Martins, onde deixou a sua impressão digital e foi, igualmente, o dinamizador de uma marca radiofónica que ainda hoje perdura.


Manuel Martins Queiroz nasceu na freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos, a 13 de setembro de 1904. Na Faculdade de Medicina de Lisboa licenciou-se, em 1933, em medicina e cirurgia; exerceu a atividade médica nos Hospitais Civis de Lisboa e, a partir de 1945, passou a exercer as funções de Diretor do Departamento Cirúrgico do Sanatório do Caramulo. Este consagrado clínico trabalhou ainda no Hospital de Tondela (no serviço de cirurgia) e na Guarda, para onde veio em 1954, dirigiu o Sanatório Sousa Martins; teve também a seu cargo o Serviço de Cirurgia Mulheres do Hospital da Misericórdia.

Na unidade de saúde guardense desenvolveu uma relevante ação, quer em termos de atividade médica, quer ao nível da implementação e estruturação de novos serviços, bem como na área de terapia ocupacional, onde emergiu o contributo do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM), no âmbito do qual teve desenvolvimento o jornal Bola de Neve e a Rádio Altitude. A atividade daquele Centro serviu de base à comunicação “Recuperação do Tuberculoso a trabalhar durante o internamento” que apresentou no decorrer do Congresso Internacional Contra a Tuberculose realizado, na cidade de Roma, em setembro de 1963. O nome de Martins de Queiroz está ligado à criação de um aparelho para intervenção em situações de pneumotórax e a uma nova técnica osteoplástica utilizada à época. Este médico foi membro da Sociedade Internacional de Cirurgia do American College of The Chest Physicians e da American Trudeau Society.

Idealizou, para a Guarda, a Cidade Saúde; um plano com o objetivo de instalar na cerca do Sanatório todos os serviços de saúde disperso pela malha urbana citadina. Martins de Queirós por diversas vezes – nomeadamente na imprensa local – apresentou a sua ideia sobre o Parque da Saúde da Guarda; as conjunturas não foram, infelizmente, favoráveis à certificação da validade e oportunidade dos seus projetos. No jornal Notícias da Guarda, edição de 1 de janeiro de 1987, escrevia que “a tal Cidade Saúde, a tal Policlínica, o tal Centro de Saúde Modelo foi sonho mal sonhado” (…). Já em 72 esta clara solução é posta diante dos olhos das autoridades locais e governamentais (…)”.

A sua paixão pela Medicina e a sua dedicação ao doente não impediram que ele tivesse outra grande atração arrebatadora: a Rádio, certamente enraizada no contacto com a Rádio Pólo Norte, que já emitia no Caramulo desde 13 de maio de 1939. Na Guarda deu novas asas à Rádio nascida – nos finais da década de quarenta – no Sanatório desta cidade, materializando os seus conhecimentos na área da radiofusão sonora e batendo-se, sempre que necessário, pela prossecução e engrandecimento da emissora. Numa publicação intitulada “Rádio Altitude – ao serviço do regionalismo das Beiras”, e num contexto onde se desenhava o desaparecimento dessa estação emissora, Martins de Queirós sublinhava que a “a força da sua razão de ser assenta nestes dois pilares: regionalismo acérrimo, finalidade eminentemente social”; acrescentava que, “apesar desta razão de ser, R.A. está na contingência de desaparecer, não por debilidade própria, mas em obediência a conceitos que não consideram nem o regionalismo, nem o social e nem sequer assenta em realidades nacionais que nos parecem evidentes”.

Na defesa do regionalismo através das ondas hertzianas, insurgia-se contra o pensamento de que “as emissoras potentes, de larga cobertura, dispensarão estas de pequena potência”, argumentando que “umas e outras são precisas”.

Nessa linha de pensamento, após outros expressivos argumentos que pretendiam travar um desenlace fatal para a RA, sublinhava o papel da atividade radiofónica na representação da vida regional” através de um trabalho onde se “exprimam, resumem e exaltem o espírito, os valores e a têmpera das gentes e das coisas da região”. Após um período de afastamento, a partir de 1974, voltaria anos depois a dar alguma colaboração pontual; na década de 90 e perante uma falha na emissão de onda média não negou o seu saber e intervenção. Recordo as suas longas horas de trabalho pela noite dentro (juntamente com o Carlos Martins) na procura da identificação do problema (que se viria a descobrir ter sido um ato de vandalismo no cabo que ligava o emissor à antena). Conhecia, aliás, como ninguém esse emissor de onda média…

Martins de Queiroz faleceu no dia 23 de maio de 2009, data em que nos deixou também outra destacada personalidade guardense: João Gomes; ainda que diferenciados na sua postura, atividade profissional e ideologia, souberam servir e dignificar a Guarda, tendo deixado impressivos traços da sua intervenção social.

Do quarto e último diretor do Sanatório Sousa Martins, ficaram fortes marcas da sua ação naquela conhecida (nacional e internacionalmente) estância de saúde, cujo 120º aniversário da inauguração ocorrerá no próximo ano; materializou a solidariedade com os doentes de fracos recursos económicos, através da afirmação do CERISSM; associação que estabeleceu a ponte com a comunidade envolvente e outrossim com múltiplos percursos profissionais, dos quais, aliás, a própria cidade beneficiou.

A sua maior herança foi, talvez, a estação de radiodifusão sonora que, a partir de 1954, ajudou a robustecer e a projetar de forma inequívoca, na região e no país. Na Guarda da memória, há nomes que não devemos esquecer, contextualizando a sua ação na época e conhecendo melhor o seu percurso pessoal e profissional.

 

Hélder Sequeira


(publicado em O Interior, em 16|09|2026)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Faleceu Emílio Aragonez

 

Emílio Aragonez faleceu hoje, a poucos dias de completar os 92 anos.  Foi, durante décadas, uma das vozes mais populares das emissões radiofónicas feitas, em onda média, a partir da cidade mais alta de Portugal. 

O seu funeral será amanhã, pelas 10h30, após missa de corpo presente na Igreja da Misericórdia da Guarda. O velório decorre hoje, a partir das 16 horas na Casa Mortuária da Misericórdia.

Emílio Aragonez _foto HS (2).jpg

Personalidade com profundas ligações à Rádio Altitude, Emílio Aragonez nasceu em 21 de setembro de 1934, em Portalegre. Para a Guarda veio com cinco anos. Posteriormente, face às contingências resultantes da atividade profissional do pai, foi viver para Cascais, Pinhel, Peniche e Seia, após o que ocorreu o regresso definitivo à Guarda.

Com onze anos começou a trabalhar na Ourivesaria Correia, na Guarda. “Fui para lá ganhar 80 escudos por mês e passados dois meses fui aumentado para cem”. As aulas no Liceu ficaram para trás, pois os horários não eram compatíveis com o trabalho; o estudo circunscreveu-se ao período da noite. Emílio Aragonez frequentou o Colégio de S. José, a Escola Comercial e Industrial e a Escola dos Gaiatos, nesta cidade.

Aos dezoito anos abriu o seu primeiro estabelecimento comercial, na Rua 31 de Janeiro. Três anos depois mudou-se para a Rua do Campo, instalando-se no antigo espaço da Espingardaria Sport, que pertencera a um antigo chefe da Polícia; iniciava-se um ciclo de atividade na área da relojoaria e ótica; contudo, circunstâncias diversas contribuíram, muitos anos depois, para o abandono da vida comercial e empresarial. Ficou, deste modo, aberto o caminho para uma dedicação total ao jornalismo e à rádio.

Desde os dezanove anos que mantinha, aliás, uma permanente paixão pela Rádio Altitude, onde começou a colaborar no início da década de cinquenta. “Foi aberto concurso para pessoas externas ao Sanatório, concorri e fui admitido. Para mim era um desafio. Trabalhava durante o dia e à noite ia para a Rádio, a apresentar discos pedidos, que eram imensos. Contudo isto representava o início da concretização de um sonho, de estar ligado à rádio e à informação”.

Nos primórdios da sua atividade radiofónica teve por companheiros alguns dos internados no Sanatório Sousa Martins. “Havia, naturalmente, muito receio deste contacto com os doentes”, temor a que não escapava a própria cidade. Os tuberculosos eram cuidadosamente evitados pela generalidade da população da cidade, onde, então, se via muita pobreza.

 “Recordo-me de haver largas dezenas de pessoas que se dirigiam ao Lactário para obterem o leite destinado à alimentação dos filhos; iam buscar a sopa à Cozinha Económica, na altura a funcionar noutras instalações. Aos dias de mercado, sobretudo, apareciam muitos rapazes e raparigas descalços e isso já diz muito sobre a realidade social”.

Nessa época, as emissões da Rádio Altitude eram à noite, tendo depois passado a existir um espaço na hora do almoço. “Comecei também a fazer algumas das emissões desse horário, mas o trabalho mais alargado era aos fins-de-semana, dado que alguns doentes faltavam; havia um que tinha um programa desportivo, outro era responsável por um programa vocacionado para as questões culturais e um outro realizava o “Vento do Norte”, que foi um programa muito polémico”.

Predominavam os programas de discos pedidos, os quais registavam uma permanente avalanche de solicitações, cujo atendimento se ia prolongando por semanas sucessivas. “Eram tantos os pedidos e o espaço tão reduzido que era colocado um disco num dia e outros em programas posteriores. Por vez para se ouvirem quatro dedicatórias tinha de se esperar um mês”, lembrava (numa entrevista que registámos há alguns anos) Emílio Aragonez, mais tarde rendido ao fascínio das reportagens.

Nesse período, e anos subsequentes, havia regras rígidas relativamente às emissões radiofónicas e, como aconteceu até ao 25 de Abril de 1974, a polícia política estava sempre atenta, e atuante. Mesmo assim, Emílio Aragonez desvaloriza essa interferência. “As notícias que eram transmitidas, nos primeiros tempos, eram baseadas nos jornais e estes já tinham passado pela censura”. O que não impediu diversas chamadas de atenção por parte do Administrador ou Diretor da Rádio, e a deslocação, por duas vezes, às instalações de P.I.D.E., contudo sem quaisquer consequências.

Uma delas foi “por causa de um disco que tinha sido transmitido e depois desapareceu; o disco tinha sido gravado em França e era de uma voz portuguesa, já não sei se era do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira”.

A seguir ao 25 de Abril, a estação viveu momentos de grande agitação e geraram-se tentativas de “tomar o Altitude”. “Alguns dias após a data da revolução cheguei a estar 24 horas sem poder sair da Rádio, por imposição do MFA, onde esteve uma força militar comandada pelo alferes Pardalejo”.

Pessoa de improviso fácil, e anotações rápidas, Emílio Aragonez assegurava os diretos da rádio de uma forma atrativa, suscitando o interesse informativo, curiosidade e audição atenta. 

“Na década de setenta, quando Marcelo Caetano se deslocou a Manteigas, julgo que para inaugurar o edifício da Câmara, houve um atraso de mais de uma hora, em relação ao horário previsto. Como não havia possibilidades de desfazermos a ligação e voltar a retomá-la – os meios eram bem diferentes dos atuais – tive de aguentar a transmissão, recorrendo apenas a duas curtas entrevistas. O resto do tempo falei de Manteigas, da Serra, das potencialidades turísticas e de outras informações e descrições que fui considerando oportunas”.

A Rádio foi, sem reservas, uma grande afeição da sua vida, feita de trabalhos, desencontros, incompreensões silêncios, amarguras e felicidade; vida simultaneamente enraizada em convicções e em princípios, passando ao lado, de eventuais críticas ou atitudes injustificadas.

Ao longo de décadas, deu voz à notícia, trouxe à luz da ribalta questões tantas vezes ignoradas; desencadeou o confronto de opiniões, denunciou injustiças, foi porta-voz de múltiplas aspirações de terras e gentes. “Estive, sempre, na vanguarda da informação, sem nunca hipotecar a minha consciência profissional nem trair os meus princípios”.

Emílio Aragonez assumiu o jornalismo e a rádio sem nunca esquecer a função social subjacente; o que, aliás, foi sempre reconhecido pelos ouvintes, a quem nunca negou a sua presença, e voz, mesmo em situações nas quais motivos de ordem pessoal, o cansaço ou a doença aconselhavam repouso.

“Muitas vezes acabava por dormir na Rádio, nomeadamente quando vinha às tantas da noite de alguma reportagem e tinha de abrir a emissão no dia seguinte”. Quando a cidade acordava envolta em espesso manto de neve “a rádio chegava a abrir mais cedo e era a partir daí que praticamente se comandava a cidade. Era um trabalho de autêntico serviço público, com informações sobre os vários estabelecimentos de ensino, circulação nas estradas, funcionamento dos serviços públicos. Ouvir o Altitude era essencial”.

Sempre atento ao quotidiano, na sua memória circulam, volvidos estes anos, muitas imagens e sons que pertencem aos bastidores da rádio; fora do estúdio de emissão havia lugar a dramas individuais, sofrimentos, dificuldades a superar, batalhas contra o tempo, necessidade de discernir e graduar com rapidez aquilo que era matéria informativa e não mero adereço de projeções institucionais ou pessoais; ocorriam confrontos marcantes no percurso individual e profissional; impressões muitas vezes gravadas de maneira indelével, que não pactuam com o esquecimento.

Emílio ARAGONEZ _homenagem.JPG Emílio Aragonez no dia da homenagem que lhe foi prestada pelo Rotary Club da Guarda. Na foto (esquerda para a direita): António Martinho, Albino Bárbara, António José Teixeira, Emílio Aragonez, Helder Sequeira, Carlos Martins.

 

O nascimento de Emílio Aragonez para a rádio, e a projeção que alcançou através desta popular emissora, ocorreu na época das emissões em onda média, quando a frequência modulada estava longe de ser uma realidade na estação CSB-21, o indicativo atribuído à Rádio da mais alta cidade portuguesa.

A sua voz aquecia as noites guardenses, esbatia a solidão, aumentava progressivamente o auditório, despertando incontidas manifestações de simpatia. “Diziam-me que a minha voz era agradável e depois, também pelo que me é dito, tinha uma maneira muito peculiar de falar. Isto começou, realmente, nos programas da noite, quando a cidade precisava de companhia e a companhia era a rádio. Foram anos, anos e anos com a minha voz a entrar pela casa das pessoas”.

Por outro lado, Emílio Aragonez salientou-nos ter havido um largo período “em que os outros tinham um certo receio de levantar os problemas. Eu dei sempre a cara, mesmo sabendo que iria sofrer dissabores; não só eu como a minha família.” Mas não há lugar a arrependimentos, dizia-nos, há alguns anos, em tom inequívoco. Embora a faceta de jornalista seja a mais conhecida, era um intransigente defensor da música portuguesa, presença constante nos espaços radiofónicos por ele animados, sem cair no gosto medíocre.

A sua aparência descontraída, porventura mesmo descuidada, reflexo da sua peculiar forma de ser e do desprendimento pelos bens materiais, não raro originava humorísticos episódios, partilhados depois nos círculos de colegas e amigos, os quais facilmente lhe reconheciam mais virtudes do que defeitos.

A Rádio Altitude representou para Emílio Aragonez “praticamente uma vida toda. Uma pessoa que entra para ali aos 19 anos e fica lá até aos 68 obviamente que representa tudo”, como nos afirmava, sem hesitações. “Esqueci-me muitas vezes que tinha família, esqueci-me dos amigos e vivia para o Altitude. Era tudo para mim!...”.

Há dois anos foi o protagonista principal da curta metragem "Discos Pedidos", tendo regressado aos estúdios da sua Rádio.

Emílio Aragonez era uma memória viva da Guarda – das suas estórias e tradições – igual a si próprio, referência de um tempo cúmplice das ondas hertzianas, quais laços de solidariedade com a cidade e uma vasta região…

Até sempre, Amigo Aragonez!...


Hélder Sequeira 

 

 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Rádio Altitude: 78 anos de emissões

 

Hoje celebramos a Rádio Altitude, evocamos nomes, gerações, serviço público, determinação, criatividade, solidariedade, memórias, uma história ímpar.

Setenta e oito anos conferem a esta emissora guardense um estatuto muito especial, uma marca que devemos honrar e salvaguardar adaptando-a ao atual contexto social, económico e cultural e também aos caminhos abertos pela tecnologia.


A Rádio Altitude é indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra. Revisitar o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio, por pessoas que a viveram apaixonada e responsavelmente; podemos lembrar – e numa rápida referência a alguns que já nos deixaram – Vaz Júnior, António Pinheiro, António Santos, Luís Coutinho, Antunes Ferreira, Luís Coito, Vítor Santos, Manuel Daniel, Bernardino Jorge, José Domingos ou Clavier Alves…que, à semelhança de tantos outros nomes que ao longo de décadas trabalharam, colaboraram e garantiram a evolução e consolidação de uma emissora que granjeou admiração e afetos dentro e fora do território nacional; nomes que devem merecer o nosso apreço por aquilo que deram à rádio e à região servida pelas suas emissões.

Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde o longínquo ano de 1948.

A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe uma posição especial na história da Rádio em Portugal, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias. Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continue a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos; não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

Ao comemorar-se o septuagésimo oitavo aniversário da Rádio Altitude, devemos felicitar os seus atuais elementos e homenagearmos os múltiplos contributos pessoais e coletivos que guindaram a RA a uma posição de destaque no panorama radiofónico português.

A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. Parabéns Rádio Altitude!


Hélder Sequeira




sábado, 18 de julho de 2026

Guarda a nossa Rádio...

 

Fomos buscar o título deste apontamento de hoje à peça de teatro que escrevemos, e foi levada à cena, em 2023, aquando da comemoração do 75º aniversário da Rádio Altitude.

Uma peça para celebrar a rádio e, simultaneamente, proposta de reflexão sobre a função social deste meio de comunicação; sobretudo em regiões do interior, como esta zona da Beira Serra, onde nunca serão de mais os contributos que possam dar voz às populações, aos valores culturais e históricos, ao presente, aos sonhos do futuro.

A rádio continua a ter um papel fundamental na informação local e regional, na defesa da identidade destas terras e gentes. Nesta peça – cujo texto pode ser adaptado ou interpretado em diferenciados contextos geográficos, onde a rádio esteja presente – o espetador é levado para um estúdio, onde há vozes, músicas, memórias, sentimentos, sonhos, paixão, afetos; é desafiado a assistir a um programa de rádio, numa noite especial, onde se cruzam três gerações e que proporciona a revisitação de múltiplas estórias; a evocação de distintas vivências marcadas pela magia da rádio. No final há uma inesperada revelação e um comovido apelo para que a rádio se continue a reinventar e afirmar no futuro.

Há referências especiais, nomes e vozes que serão percetíveis aos leitores/espetadores; personagens que, como referido anteriormente, dão ao espetador a liberdade de as associar a outras vivências; são os afetos e a paixão pela Rádio que alimentam os diálogos, as memórias…

Na Guarda não faltam memórias da Rádio, que importa reter e salvaguardar, em torno de uma emissora que completa no próximo dia 29 de julho setenta e oito anos de emissões, mantendo a designação que assumiu no passado século no contento da vivência sanatorial da mais alta cidade portuguesa.

Embora já anos antes tenha havido alguma atividade radiofónica, ainda marcadamente experimental, a data oficial das emissões da Rádio Altitude é o dia 29 de julho de 1948.

Esta emissora “iniciou a sua sessão e, com ela, a sua vida oficial transmitindo depois do disco indicativo da estação, a saudação Salvé Rádio Altitude! proferida pela menina Aurora da Cruz, que foi escolhida para madrinha do Posto Emissor. Falou, em primeiro lugar, o Sr. Carlos Alberto Pereira, Vice-Presidente da Caixa Recreativa, que – anunciado pelo locutor de serviço com palavras de justa homenagem e consagração – começou por dizer: Rádio Altitude, posto emissor deste Sanatório, vai ser inaugurado oficialmente, depois de um período em regime experimental”. Assim noticiou o Bola de Neve, um jornal editado no Sanatório Sousa Martins

Como escrevemos em “O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha” (publicado em 2003), a Rádio Altitude é uma emissora com interessantes particularidades, originada no seio das experiências radiofónicas que ocorreram no Sanatório Sousa Martins, cerca de 1946. Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão do Sanatório onde estava concentrado o grupo de doentes (de tuberculose) pioneiros deste projeto; apenas com a construção de novo emissor foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.

No ano de 1947, o médico Ladislau Patrício (diretor do Sanatório Sousa Martins) aprovou (a 21 de outubro) o primeiro regulamento da emissora, onde estavam definidas orientações claras sobre o seu funcionamento; em finais desse ano as emissões já eram escutadas na malha urbana da Guarda. O início oficial das emissões regulares ocorreu, como atrás foi dito, em 29 de julho de 1948; um ano depois (1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21, identidade difundida por várias décadas.

A propriedade do primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa dos Internados no Sanatório Sousa Martins e mais tarde ao Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM); com a sua criação pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

Em 1961, mediante autorização oficial, a Rádio Altitude passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias, que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões da rádio guardense evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.


Até 1980 a Rádio Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro radioelétrico passou a emitir também em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz, alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz, que mantém na atualidade.

No ano de 1998, depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”. A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço do Sanatório Sousa Martins, hoje designado Parque da Saúde.

Ao celebramos, no próximo dia 29 de julho, o 78º aniversário das emissões regulares da RA devemos lembrar-nos que estamos perante uma rádio muito especial para a Guarda e região da beira serra. Uma rádio que tem o seu lugar na história da radiodifusão sonora em Portugal e encerra décadas de afetos, memórias, vivências, dedicação, serviço público, criatividade, formação, espírito solidário.

Esta emissora, confrontada com os desafios dos tempos hodiernos, permanece na memória coletiva das gentes beirãs…

 

Hélder Sequeira


in O Interior, 15 de julho 2026

 

domingo, 10 de maio de 2026

João Ferreira: memórias da Rádio e da Guarda

 

João Ferreira saiu da Guarda com 18 anos, mas a cidade continua a ser uma referência para ele. Segue à distância a vida e os acontecimentos citadinos, nomeadamente através das redes sociais, dos jornais e dos contactos com os amigos, “que deixei há 35 anos”, dizia-nos em entrevista que hoje recuperamos para os nossos leitores.

Na sua memória continuam “os tempos da adolescência, com os cursos de fotografia, diaporama, teatro, xadrez, etc, elaborados no extinto FAOJ, nas instalações da Praça Velha; bem como a passagem para a Associação dos Jogos Tradicionais e do Lazer e os levantamentos fotográficos de fim de semana dos torneios de jogos tradicionais e as respetivas noites no laboratório para revelação e impressão dos filmes; das Festas da Cidade na cabine da Rádio Altitude e na noite da RA receber em casa a vedeta Marco Paulo para pagamento do cachet do espetáculo; as noites no Centro Cultural com alguns trabalhos de sonoplastia para o Grupo de Teatro Aquilo”.

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Contudo é a Rádio Altitude que prevalece no topo das suas memórias, desde logo pela ligação familiar a um dos nomes incontornáveis daquela estação emissora: Antunes Ferreira, seu pai.

“Há três grandes motivos me fazem seguir a Rádio Altitude, recorrentemente: o meu Pai, os amigos e conhecidos que ficaram ou seguiram, como eu, outros destinos e a própria Cidade da Guarda e as suas novas.”

Ao Correio da Guarda disse que “ainda garoto acompanhava o Antunes Ferreira para a Rádio; era uma aventura poder mexer nos discos, admirar as capas dos Singles e LP´s com imagens que, na altura, eram o equivalente a uma visita a um museu de arte moderna e, ainda que agora pareça estranho, conhecer cara a cara os autores/cantores dos registos fonográficos. Como compensação, podia ouvir qualquer música que me despertasse atenção, quer pela capa do disco, quer pelo título ou até porque podia ouvir tudo o que me despertasse a atenção”.

Do rés-do-chão da casa da Rádio evoca o tempo que passava “no meio do cheiro de uma cola de vidro, blocos de folhas de papel amarelas, excedentes de divisórias de radiografias do, na altura, Sanatório Sousa Martins e recortes de Jornais nacionais. À frente desse método quase artesanal de “fazer” notícias, o Sr. Manuel Vaz Júnior” pegava em mim, punha nas minhas mãos uma pesada tesoura, pincel de cola e ensinava-me os primeiros passos de “adjunto de redactor”...

Como nos referiu, a ele deve “o hábito de ler um jornal de ponta a ponta e encontrar uma notícia na necrologia ou nas farmácias de serviço. Quem passou por lá saberá do que escrevo”.

Do pai, Antunes Ferreira, ganhou o hábito de ler. “Desde muito novo que o via ler, de jornais a livros, e quando ganhei o conhecimento que por letras se podia viajar para qualquer lado fiquei viciado na capacidade de adquirir qualquer conhecimento com esse simples exercício que sempre me acompanhou.”

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Com o tempo foi-se envolvendo na atividade da Rádio. “As gravações de programas, a colocação de microfones, o arquivo de fichas de registo dos temas da discoteca, a arrumação dos discos, as transmissões exteriores como a exaustiva tarefa de busca para ponto de telefone e respetiva ligação do cabo de rede, as longas noites de eleições e as chamadas telefónicas para os pontos eleitorais com os resultados à boca das urnas, as tardes de domingo com as chamadas para os Campos de Futebol ou cafés próximos, a gravação dos primeiros programas noturnos, enfim... um pouco da história da Rádio Altitude dos anos 70 e 80 que passava por todos os colaboradores porque era um curso abrangente a quem, na maioria dos casos, estava ali por carolice e gosto”.

João Ferreira lembra ainda os tempos em que foi “arquivista, dos discos e respetivas fichas, cobrador de anunciantes, sonoplasta de inúmeros de programas, realizador e co-autor de programas, inauguração do novo Estúdio de Gravação, Hi-Tec para a época, onde aprendi a lidar com a tecnologia mais recente de sonoplastia de Rádio”.

Nas imagens sobre o tempo passado nesta emissora guardense tem ainda presente o trabalho que desenvolveu “com programas de autores e co-autoria, com Luís Celínio (Escape Livre), Hélder Sequeira (Passado e Presente), Albino Bárbara, Jorge Barreto Xavier, Martins das Neves, etc.”

Sobre o seu pai sublinha que foi sempre uma referência “quer como a pessoa que definiu o carácter e exemplo a seguir, quer como exemplo profissional. Sempre o vi primar pela justiça, equidade, humildade, profissionalismo e independência.

Recordo com orgulho as palavras escritas por um grande profissional que por lá passou e cedo a vida levou, numa dedicatória registada na primeira edição da Constituição da República de 1976: “Ao amigo Antunes Ferreira, fazendo votos que faça cumprir o Artº 37º ”... Sempre cumpriu e garantiu que fosse cumprido.”

Instado a comentar alguns episódios vividos na rádio, João Ferreira disse que tinha dezenas deles. “Mas recordo principalmente nos pós-25 de Abril de 1974, ir com o meu pai para a RA e deparar ao cimo das escadas do primeiro piso, com uma G3 encostada e o respetivo titular a descansar na sala que mais tarde seria a biblioteca. Perante a minha interrogação o meu pai terá dito algo como: “Aquele soldado está ali para nos defender”. Eu retorqui: “Mas a arma está ali, longe dele!”, ao que o meu respondeu: “ele sabe que eu já cheguei e nesta altura, como ninguém nos fará mal, foi descansar um pouco.” Dormi todo o PREC descansado!”

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João Ferreira (sócio-gerente de empresa do ramo mobiliário e colchoaria, após ter passado à reserva no Exército, onde esteve cerca de 13 anos) vive, atualmente, entre Lisboa e Aroeira, “hábito que ganhei graças à pandemia e passei a repartir o meu tempo entre a habitação normal em dias de trabalho pleno e à casa de férias para os períodos de lazer e de confinamento.”

Partiu da Guarda para Lisboa em 1985 para cursar Direito; contudo, ao fim de quatro anos ingressou no Exército, “onde fiz o Curso de Sargentos e pausei, na altura sem prever, “ad eternum” a finalização do Curso de Direito, onde ainda fiz mais 2 anos já no novo milénio.”

Continua empenhado no estudo da História do Armamento do Exército Português e mantém a “paixão pela fotografia, apesar de muitas vezes, por inerência à atividade na área do turismo, deixe a mochila da máquina fotográfica em casa e use o telemóvel, com o défice óbvio.”


Entrevista H.S. /Correio da Guarda

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Luísa Coimbra: a menina da Rádio


Luísa Coimbra tem na rádio uma das suas paixões. A rádio cruzou-se na sua vida quando tinha 16 anos. Natural de Almofala, (Figueira de Castelo Rodrigo) onde nasceu em 1959, reside na Guarda desde os dois meses de idade.

“Mar de música, mar de gente” e “Sintonia” são alguns dos programas radiofónicos que evoca com saudade, agora que está desligada da rádio, de cuja magia nunca se afastou. Talvez por isso mesmo tenha criado o podcast “Menina da Rádio”, “um projeto pessoal, intimista, para deixar correr os “sentidos” como disse ao CORREIO DA GUARDA, em entrevista que hoje recuperamos.

Nesta conversa fala-nos igualmente da cidade onde, referiu, faltam “novas oportunidades de trabalho”.

 

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Como surgiu, e quando, a tua ligação com a Rádio?

Aos 16 anos, quando me inscrevi e participei num dos concursos da Rádio Altitude.

 

Foi fácil a adaptação ao ambiente da rádio?

Muito fácil. Jovem como era, tinha a certeza que aquele seria o meu caminho, contrariando embora todos os objetivos sonhados para mim, pelos meus pais.

 

Quais foram os teus primeiros trabalhos e em que programas?

Recordo-me muito bem eram fins-de-semana inteirinhos a passar “Discos Pedidos”, os programas da manhã “Mar de Música, Mar de Gente”, o programa “Sintonia” que me levou até às Produções Sintonia no Porto, na RDP - Rádio Guarda, a aposta na formação no âmbito do Jornalismo e, por último, a Rádio F e os programas da noite.

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Quais os/as colegas que recordas dessa época?

Todos sem exceção! Claro que uns marcaram mais do que outros.

Estive nas três estações de Rádio sempre por convite (o que muito me orgulha) sem querem magoar ninguém, lembro com muita saudade o João Lopes, e enfim o velho amigo Emílio Aragonez, a quem devo realmente esta grande paixão pela Rádio.

 

Como era a relação que se estabelecia com os ouvintes?

Íntima, verdadeiramente íntima!

Criei laços que guardo até hoje e que ficarão para sempre, na cumplicidade, no sorriso que transparecia e até nos muitos olhares de admiração/ interrogação, quando com surpresa me encontram ainda hoje na Junta de Freguesia … a pergunta que fica no ar… “Mas, não era a menina, a Luísa da Rádio? “

 

As pessoas identificavam-te no exterior?

Sim claro, vivíamos numa cidade pequena, a Rádio era companhia assídua de muita gente e todos nos conhecíamos.

 

Como era feita a seleção musical para os programas que apresentavas?

Todas as rádios por onde passei dispunham de uma discografia excecional, entre os velhinhos Singles, LPs, depois pelos CDs, procurava com alguma antecedência ir ao encontro dos gostos musicais dos ouvintes e fazer um programa onde acima de tudo estava o interesse por quem estava e ouvia no lado de lá.

 

Como vias a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? As pessoas apreciavam a rádio?

Como já disse, creio que a Rádio tinha um grande poder, que é o poder de cativar, de informar e isso creio ter-se conseguido.

Eu pelo menos tenho a sensação de dever cumprido.

 

Tens algum episódio que possa ilustrar essa relação?

Puxando pela memória, recordo-me de alguns diretos feitos para a “Informação”, onde as populações se manifestavam, pela ausência do que consideravam essencial, quer pelos tantos convites que nos faziam e onde pude testemunhar/ vivenciar situações que em pleno Sec. XX, era na Rádio que se faziam ouvir…

Lembro-me por exemplo, num dos últimos trabalhos que fiz na Rádio F, com o meu querido Tó Jó (António Jorge Sepúlveda) de existir uma escola, no nosso concelho, onde a grande luta da professora era manter os meninos na escola, porque os pais exigiam que eles fossem trabalhar, logo pela manhã. Meninos a quem a professora levava o pequeno-almoço, porque sabia que estariam sem comer…

E enfim, tantos outros episódios, relatos de vidas com história…

 

Qual foi a experiência mais positiva na rádio? E a mais negativa?

Positivas todas...não tenho experiências negativas!

 

Os condicionalismos técnicos impediam a criatividade? 

Não gosto de dizer no “meu tempo”, porque o meu tempo é hoje, mas tenho para mim, que naquele período, tive tudo, em todas as Rádios e a criatividade surgia de forma natural.

Sempre me adaptei de forma fácil, aliás o meu gosto pela Rádio era tanto, que não havia impedimento algum, aliás conto em jeito de brincadeira um episódio que me aconteceu no primeiro dia, na minha estreia radiofónica.

Estava no estúdio na Rádio Altitude, ocupadíssima entre discos e publicidade e esqueci-me de fechar o microfone, quando irrompe pelo estúdio o saudoso Antunes Ferreira, que me diz “menina, menina tem o microfone aberto e só se ouve “Ai minha nossa senhora!… “

Bom, se fosse hoje, o desabafo seria outro com certeza… (risos)


Quais as principais diferenças que notas entre a rádio de ontem e de hoje, nomeadamente ao nível dos estúdios e programação?

Estou longe da Rádio já algum tempo, por isso creio que apenas do que possa falar seja do que ouço e assim sendo, creio que se abusa demasiado das “play list”.

Julgo que a Rádio ainda hoje é, ou pelo menos para mim é, comunicação e não creio que hoje exista, pelo menos da forma como eu, e muitos outros como eu, a vivemos. 

 

Hoje é mais fácil fazer rádio?

Creio que hoje, é menos empolgante fazer Rádio.

São horas e horas de música...mas claro que existem exceções e os bons comunicadores continuam a existir!

 

Depois da rádio, como foi o teu percurso profissional?

Deixei a Rádio por opção, mudei de cidade, mudei de vida.

Hoje, e já há algum tempo, sou funcionária da Junta de freguesia da Guarda.

 

Após o teu regresso à Guarda houve novo contacto com a rádio?

Existiu sim, muito superficial.

 

Há algum tempo atrás iniciaste um podcast, sobre rádio. Como surgiu essa ideia e qual o principal objetivo?

Surgiu porque os meus filhos me conhecem como ninguém, sabem desta minha paixão e o Tiago, (filho do meio) que se move muito bem nesta área criou o “Menina da Rádio” que é tão só um passatempo que me transporta para “esses dias da Rádio” …

 

Como tem sido a reação das pessoas?

Creio que gostam, gostam de me ouvir.

E a mim a cima de tudo dá-me imenso prazer em fazer, em partilhar.

 

Gostavas de regressar ao trabalho numa rádio? E com que projeto?

A Rádio vai sempre fazer parte de mim… foram 20 anos, a fazer Rádio e claramente sim! Porque não, as noites da Rádio?

 

Achas que a história da Rádio, em Portugal, passa também pela Guarda?

Sem dúvida, ou não existisse a nossa velhinha Rádio Altitude com todo o seu saber, com toda a sua história da qual eu também faço parte.

 

Como vês hoje a Guarda?

Uma cidade “nova “, em expansão e quero acreditar com potencial para criar novos projetos e novos futuros.

 

Como gostas de ocupar os teus tempos livres?

Escrevendo, lendo e aprendendo e acima de tudo partilhando uma boa conversa, com bons amigos, como agora, o que naturalmente agradeço.


Entrevista: Hélder Sequeira / Correio da Guarda

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Rádio com marca...

 

A Rádio Altitude é uma marca indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra; uma marca que importa honrar, preservar e afirmar continuamente como meio de comunicação social.

Olhar para o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio. Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de  distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde os longínquo ano de 1948.

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A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe um estatuto especial, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias.

Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continuar a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos. Claro que não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

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 A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. A emissora será aquilo que quiserem os seus profissionais, se os sonhos e projetos forem consistentes, arrojados,  capazes de garantirem a apaixonante magia da rádio e de ganharem o futuro.

 

 Hélder Sequeira

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Uma marca incontornável


A história da radiodifusão sonora em Portugal tem a Guarda como capítulo destacado pois foi nesta cidade que nasceu e evoluiu a Rádio Altitude, uma inegável marca informativa. 

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Desde 1976 que estou ligado à Rádio, muito particularmente a esta emissora. O Altitude foi uma verdadeira escola de rádio e jornalismo, um espaço de aprendizagem prática, de criatividade, de superação constante dos desafios diários. Tudo isto num contexto de excelente e salutar ambiente de trabalho, numa enriquecedora envolvência de diálogo entre as várias gerações presentes na rádio; uma emissora que fez nascer e consolidar amizades, laços afetivos e afirmou gratas memórias.

A polivalência de funções, por que todos passavam, traduziu-se numa maior capacidade de responder às solicitações do dia a dia da rádio, dos ouvintes, da região. De décadas de ligação à RA resultaram os mais diversificados momentos e episódios, reportagens ou entrevistas marcantes, o contacto com tanta gente que a rádio aproximou; ficaram muitas horas em antena ou nos bastidores da estação emissora, um trabalho nem sempre lembrado. Há vozes e rostos que estão indissociavelmente ligados a esta Rádio.

Antunes Ferreira é um desses rostos, hoje evocado nestas breves notas; esteve no Sanatório Sousa Martins, como internado, tendo (dentro do espírito da terapia ocupacional praticada naquela unidade) sido convidado para trabalhar na emissora guardense.

Em entrevista que nos concedeu em agosto de 2000, Antunes Ferreira recordava a abertura de um concurso, aquando da passagem do décimo aniversário da RA, para a escolha de alguns elementos destinados a trabalhos de apresentação de programas. "Fiquei classificado em quarto lugar", dizia-nos Antunes Ferreira que, juntamente com mais quatro companheiros, passou a desenvolver a sua atividade na, então, modesta estação de rádio.

Na altura, o suporte humano da Rádio Altitude "era o amadorismo puro. Éramos todos amadores e nas horas disponíveis é que íamos para lá. Nós, os doentes, íamos após a fase do período das curas, que eram de repouso total. Alguns iam trabalhar na locução, outros nos arquivos de discos, outros nos registos." A partir de então desenvolveu "uma colaboração assídua, durante vários anos. Juntamente com outras pessoas, de fora, assim se mantinha o Altitude". Cerca de 1960, o então Diretor do Sanatório Sousa Martins – Dr. Martins de Queirós - que para Antunes Ferreira "era a alma e o coração do Altitude", entendeu e perspetivou a importância daquela rádio como meio de comunicação social.

"Nessa altura começou a haver uma colaboração mais regular de outros elementos. Estava para sair do Sanatório, uma vez que estava curado, e o Dr. Martins de Queirós convidou-me para ficar, como profissional, isto à volta de 1965". Foi também a partir desse ano que começou a haver alguns profissionais. "A minha função não era propriamente de animador de emissão, até porque eu gostava mais da técnica. Dediquei-me mais à técnica". Um trabalho que Antunes Ferreira privilegiou ao longo dos 35 anos que trabalhou na Rádio Altitude.

"O ambiente era muito diferente do atual. Todos nós trabalhávamos mais sobre o joelho, mas poderei dizer que aquilo era uma escola de rádio. Houve muita gente que ali aprendeu e dali saíram para outros emissores; recordo que houve elementos que foram para os emissores associados de Lisboa, outros para o Porto. A Rádio Altitude nos seus primeiros vinte e cinco, trinta anos, funcionou como uma escola de Rádio". Lembrava, com alguma nostalgia, Antunes Ferreira. Havia "muito amadorismo e sobretudo muita vontade e amor àquela casa", uma fórmula que, na sua opinião, foi importante para se consolidar a projeção da Rádio Altitude. "Aqui na região o que mais se ouvia era a RA, não só pelo interesse das notícias, mas também pela música popular que passava, do gosto do nosso povo".

Como nos referiu nessa entrevista, que fomos resgatar ao arquivo, todos os programas deixaram boas recordações a Antunes Ferreira, mas "aqueles espaços que mais vivia, como técnico, eram as transmissões diretas. Eram feitas transmissões diretas desportivas, religiosas, quer de acontecimentos políticos".

A veracidade das notícias, para o povo, dizia-nos Antunes Ferreira, "era confirmada pela RA. Se o Altitude dava qualquer notícia era porque isso tinha mesmo acontecido". Daí que, fez questão em sublinhar, toda a população da Guarda sentia o Altitude como uma coisa deles. Toda a gente achava que tinha um bocadinho na própria Rádio Altitude. Aquela casa era de todos". As despesas eram suportadas pela publicidade, pelos discos pedidos, pelos anúncios de bailes e festas. “Vivia-se com o que se tinha e nada mais”.

Aquando dessa, entrevista, iniciado que fora um novo ciclo na vida da rádio, Antunes Ferreira, questionado sobre o que pensava do futuro da emissora disse: "Houve sempre uma coisa que sempre pedi: era que fosse o Altitude a ver-me desaparecer a mim [faleceu em novembro de 2008] e eu não ver desaparecer o Rádio Altitude. É isso que continuo a pedir."

E certamente que será essa continuidade da Rádio, assumida como voz da região, plural, interventiva, moderna, criativa, próxima das realidades que os guardenses desejam; sem esquecerem o seu historial de emissora solidária, associada a tantos nomes, um dos quais aqui evocado. Antunes Ferreira foi, durante largos anos um dos principais rostos da estação, trabalhador incansável, amigo, intransigente defensor dos verdadeiros interesses da sua estação emissora, cuja solidez económica soube sempre salvaguardar, mesmo nos períodos mais difíceis.

A Rádio continua a ter futuro; este passa pela perceção dos novos desafios, pela qualidade de conteúdos, pela presença em várias plataformas, pela reinvenção quotidiana, pela diferenciação programática com uma matriz da região que não anula, de forma alguma, uma presença global.

 

Hélder Sequeira