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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Rádio Altitude: 78 anos de emissões

 

Hoje celebramos a Rádio Altitude, evocamos nomes, gerações, serviço público, determinação, criatividade, solidariedade, memórias, uma história ímpar.

Setenta e oito anos conferem a esta emissora guardense um estatuto muito especial, uma marca que devemos honrar e salvaguardar adaptando-a ao atual contexto social, económico e cultural e também aos caminhos abertos pela tecnologia.


A Rádio Altitude é indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra. Revisitar o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio, por pessoas que a viveram apaixonada e responsavelmente; podemos lembrar – e numa rápida referência a alguns que já nos deixaram – Vaz Júnior, António Pinheiro, António Santos, Luís Coutinho, Antunes Ferreira, Luís Coito, Vítor Santos, Manuel Daniel, Bernardino Jorge, José Domingos ou Clavier Alves…que, à semelhança de tantos outros nomes que ao longo de décadas trabalharam, colaboraram e garantiram a evolução e consolidação de uma emissora que granjeou admiração e afetos dentro e fora do território nacional; nomes que devem merecer o nosso apreço por aquilo que deram à rádio e à região servida pelas suas emissões.

Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde o longínquo ano de 1948.

A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe uma posição especial na história da Rádio em Portugal, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias. Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continue a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos; não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

Ao comemorar-se o septuagésimo oitavo aniversário da Rádio Altitude, devemos felicitar os seus atuais elementos e homenagearmos os múltiplos contributos pessoais e coletivos que guindaram a RA a uma posição de destaque no panorama radiofónico português.

A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. Parabéns Rádio Altitude!


Hélder Sequeira




sábado, 18 de julho de 2026

Guarda a nossa Rádio...

 

Fomos buscar o título deste apontamento de hoje à peça de teatro que escrevemos, e foi levada à cena, em 2023, aquando da comemoração do 75º aniversário da Rádio Altitude.

Uma peça para celebrar a rádio e, simultaneamente, proposta de reflexão sobre a função social deste meio de comunicação; sobretudo em regiões do interior, como esta zona da Beira Serra, onde nunca serão de mais os contributos que possam dar voz às populações, aos valores culturais e históricos, ao presente, aos sonhos do futuro.

A rádio continua a ter um papel fundamental na informação local e regional, na defesa da identidade destas terras e gentes. Nesta peça – cujo texto pode ser adaptado ou interpretado em diferenciados contextos geográficos, onde a rádio esteja presente – o espetador é levado para um estúdio, onde há vozes, músicas, memórias, sentimentos, sonhos, paixão, afetos; é desafiado a assistir a um programa de rádio, numa noite especial, onde se cruzam três gerações e que proporciona a revisitação de múltiplas estórias; a evocação de distintas vivências marcadas pela magia da rádio. No final há uma inesperada revelação e um comovido apelo para que a rádio se continue a reinventar e afirmar no futuro.

Há referências especiais, nomes e vozes que serão percetíveis aos leitores/espetadores; personagens que, como referido anteriormente, dão ao espetador a liberdade de as associar a outras vivências; são os afetos e a paixão pela Rádio que alimentam os diálogos, as memórias…

Na Guarda não faltam memórias da Rádio, que importa reter e salvaguardar, em torno de uma emissora que completa no próximo dia 29 de julho setenta e oito anos de emissões, mantendo a designação que assumiu no passado século no contento da vivência sanatorial da mais alta cidade portuguesa.

Embora já anos antes tenha havido alguma atividade radiofónica, ainda marcadamente experimental, a data oficial das emissões da Rádio Altitude é o dia 29 de julho de 1948.

Esta emissora “iniciou a sua sessão e, com ela, a sua vida oficial transmitindo depois do disco indicativo da estação, a saudação Salvé Rádio Altitude! proferida pela menina Aurora da Cruz, que foi escolhida para madrinha do Posto Emissor. Falou, em primeiro lugar, o Sr. Carlos Alberto Pereira, Vice-Presidente da Caixa Recreativa, que – anunciado pelo locutor de serviço com palavras de justa homenagem e consagração – começou por dizer: Rádio Altitude, posto emissor deste Sanatório, vai ser inaugurado oficialmente, depois de um período em regime experimental”. Assim noticiou o Bola de Neve, um jornal editado no Sanatório Sousa Martins

Como escrevemos em “O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha” (publicado em 2003), a Rádio Altitude é uma emissora com interessantes particularidades, originada no seio das experiências radiofónicas que ocorreram no Sanatório Sousa Martins, cerca de 1946. Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão do Sanatório onde estava concentrado o grupo de doentes (de tuberculose) pioneiros deste projeto; apenas com a construção de novo emissor foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.

No ano de 1947, o médico Ladislau Patrício (diretor do Sanatório Sousa Martins) aprovou (a 21 de outubro) o primeiro regulamento da emissora, onde estavam definidas orientações claras sobre o seu funcionamento; em finais desse ano as emissões já eram escutadas na malha urbana da Guarda. O início oficial das emissões regulares ocorreu, como atrás foi dito, em 29 de julho de 1948; um ano depois (1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21, identidade difundida por várias décadas.

A propriedade do primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa dos Internados no Sanatório Sousa Martins e mais tarde ao Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM); com a sua criação pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

Em 1961, mediante autorização oficial, a Rádio Altitude passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias, que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões da rádio guardense evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.


Até 1980 a Rádio Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro radioelétrico passou a emitir também em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz, alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz, que mantém na atualidade.

No ano de 1998, depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”. A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço do Sanatório Sousa Martins, hoje designado Parque da Saúde.

Ao celebramos, no próximo dia 29 de julho, o 78º aniversário das emissões regulares da RA devemos lembrar-nos que estamos perante uma rádio muito especial para a Guarda e região da beira serra. Uma rádio que tem o seu lugar na história da radiodifusão sonora em Portugal e encerra décadas de afetos, memórias, vivências, dedicação, serviço público, criatividade, formação, espírito solidário.

Esta emissora, confrontada com os desafios dos tempos hodiernos, permanece na memória coletiva das gentes beirãs…

 

Hélder Sequeira


in O Interior, 15 de julho 2026

 

domingo, 10 de maio de 2026

João Ferreira: memórias da Rádio e da Guarda

 

João Ferreira saiu da Guarda com 18 anos, mas a cidade continua a ser uma referência para ele. Segue à distância a vida e os acontecimentos citadinos, nomeadamente através das redes sociais, dos jornais e dos contactos com os amigos, “que deixei há 35 anos”, dizia-nos em entrevista que hoje recuperamos para os nossos leitores.

Na sua memória continuam “os tempos da adolescência, com os cursos de fotografia, diaporama, teatro, xadrez, etc, elaborados no extinto FAOJ, nas instalações da Praça Velha; bem como a passagem para a Associação dos Jogos Tradicionais e do Lazer e os levantamentos fotográficos de fim de semana dos torneios de jogos tradicionais e as respetivas noites no laboratório para revelação e impressão dos filmes; das Festas da Cidade na cabine da Rádio Altitude e na noite da RA receber em casa a vedeta Marco Paulo para pagamento do cachet do espetáculo; as noites no Centro Cultural com alguns trabalhos de sonoplastia para o Grupo de Teatro Aquilo”.

joão Ferreira 3.jpg

Contudo é a Rádio Altitude que prevalece no topo das suas memórias, desde logo pela ligação familiar a um dos nomes incontornáveis daquela estação emissora: Antunes Ferreira, seu pai.

Há três grandes motivos me fazem seguir a Rádio Altitude, recorrentemente: o meu Pai, os amigos e conhecidos que ficaram ou seguiram, como eu, outros destinos e a própria Cidade da Guarda e as suas novas.”

Ao Correio da Guarda disse que “ainda garoto acompanhava o Antunes Ferreira para a Rádio; era uma aventura poder mexer nos discos, admirar as capas dos Singles e LP´s com imagens que, na altura, eram o equivalente a uma visita a um museu de arte moderna e, ainda que agora pareça estranho, conhecer cara a cara os autores/cantores dos registos fonográficos. Como compensação, podia ouvir qualquer música que me despertasse atenção, quer pela capa do disco, quer pelo título ou até porque podia ouvir tudo o que me despertasse a atenção”.

Do rés-do-chão da casa da Rádio evoca o tempo que passava “no meio do cheiro de uma cola de vidro, blocos de folhas de papel amarelas, excedentes de divisórias de radiografias do, na altura, Sanatório Sousa Martins e recortes de Jornais nacionais. À frente desse método quase artesanal de “fazer” notícias, o Sr. Manuel Vaz Júnior” pegava em mim, punha nas minhas mãos uma pesada tesoura, pincel de cola e ensinava-me os primeiros passos de “adjunto de redactor”...

Como nos referiu, a ele deve “o hábito de ler um jornal de ponta a ponta e encontrar uma notícia na necrologia ou nas farmácias de serviço. Quem passou por lá saberá do que escrevo”.

Do pai, Antunes Ferreira, ganhou o hábito de ler. “Desde muito novo que o via ler, de jornais a livros, e quando ganhei o conhecimento que por letras se podia viajar para qualquer lado fiquei viciado na capacidade de adquirir qualquer conhecimento com esse simples exercício que sempre me acompanhou.”

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Com o tempo foi-se envolvendo na atividade da Rádio. “As gravações de programas, a colocação de microfones, o arquivo de fichas de registo dos temas da discoteca, a arrumação dos discos, as transmissões exteriores como a exaustiva tarefa de busca para ponto de telefone e respetiva ligação do cabo de rede, as longas noites de eleições e as chamadas telefónicas para os pontos eleitorais com os resultados à boca das urnas, as tardes de domingo com as chamadas para os Campos de Futebol ou cafés próximos, a gravação dos primeiros programas noturnos, enfim... um pouco da história da Rádio Altitude dos anos 70 e 80 que passava por todos os colaboradores porque era um curso abrangente a quem, na maioria dos casos, estava ali por carolice e gosto”.

João Ferreira lembra ainda os tempos em que foi “arquivista, dos discos e respetivas fichas, cobrador de anunciantes, sonoplasta de inúmeros de programas, realizador e co-autor de programas, inauguração do novo Estúdio de Gravação, Hi-Tec para a época, onde aprendi a lidar com a tecnologia mais recente de sonoplastia de Rádio”.

Nas imagens sobre o tempo passado nesta emissora guardense tem ainda presente o trabalho que desenvolveu “com programas de autores e co-autoria, com Luís Celínio (Escape Livre), Hélder Sequeira (Passado e Presente), Albino Bárbara, Jorge Barreto Xavier, Martins das Neves, etc.”

Sobre o seu pai sublinha que foi sempre uma referência “quer como a pessoa que definiu o carácter e exemplo a seguir, quer como exemplo profissional. Sempre o vi primar pela justiça, equidade, humildade, profissionalismo e independência.

Recordo com orgulho as palavras escritas por um grande profissional que por lá passou e cedo a vida levou, numa dedicatória registada na primeira edição da Constituição da República de 1976: “Ao amigo Antunes Ferreira, fazendo votos que faça cumprir o Artº 37º ”... Sempre cumpriu e garantiu que fosse cumprido.”

Instado a comentar alguns episódios vividos na rádio, João Ferreira disse que tinha dezenas deles. “Mas recordo principalmente nos pós-25 de Abril de 1974, ir com o meu pai para a RA e deparar ao cimo das escadas do primeiro piso, com uma G3 encostada e o respetivo titular a descansar na sala que mais tarde seria a biblioteca. Perante a minha interrogação o meu pai terá dito algo como: “Aquele soldado está ali para nos defender”. Eu retorqui: “Mas a arma está ali, longe dele!”, ao que o meu respondeu: “ele sabe que eu já cheguei e nesta altura, como ninguém nos fará mal, foi descansar um pouco.” Dormi todo o PREC descansado!

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João Ferreira (sócio-gerente de empresa do ramo mobiliário e colchoaria, após ter passado à reserva no Exército, onde esteve cerca de 13 anos) vive, atualmente, entre Lisboa e Aroeira, “hábito que ganhei graças à pandemia e passei a repartir o meu tempo entre a habitação normal em dias de trabalho pleno e à casa de férias para os períodos de lazer e de confinamento.”

Partiu da Guarda para Lisboa em 1985 para cursar Direito; contudo, ao fim de quatro anos ingressou no Exército, “onde fiz o Curso de Sargentos e pausei, na altura sem prever, “ad eternum” a finalização do Curso de Direito, onde ainda fiz mais 2 anos já no novo milénio.”

Continua empenhado no estudo da História do Armamento do Exército Português e mantém a “paixão pela fotografia, apesar de muitas vezes, por inerência à atividade na área do turismo, deixe a mochila da máquina fotográfica em casa e use o telemóvel, com o défice óbvio.


Entrevista H.S. /Correio da Guarda

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Luísa Coimbra: a menina da Rádio


Luísa Coimbra tem na rádio uma das suas paixões. A rádio cruzou-se na sua vida quando tinha 16 anos. Natural de Almofala, (Figueira de Castelo Rodrigo) onde nasceu em 1959, reside na Guarda desde os dois meses de idade.

“Mar de música, mar de gente” e “Sintonia” são alguns dos programas radiofónicos que evoca com saudade, agora que está desligada da rádio, de cuja magia nunca se afastou. Talvez por isso mesmo tenha criado o podcast “Menina da Rádio”, “um projeto pessoal, intimista, para deixar correr os “sentidos” como disse ao CORREIO DA GUARDA, em entrevista que hoje recuperamos.

Nesta conversa fala-nos igualmente da cidade onde, referiu, faltam “novas oportunidades de trabalho”.

 

Luisa Coimbra.jpg

Como surgiu, e quando, a tua ligação com a Rádio?

Aos 16 anos, quando me inscrevi e participei num dos concursos da Rádio Altitude.

 

Foi fácil a adaptação ao ambiente da rádio?

Muito fácil. Jovem como era, tinha a certeza que aquele seria o meu caminho, contrariando embora todos os objetivos sonhados para mim, pelos meus pais.

 

Quais foram os teus primeiros trabalhos e em que programas?

Recordo-me muito bem eram fins-de-semana inteirinhos a passar “Discos Pedidos”, os programas da manhã “Mar de Música, Mar de Gente”, o programa “Sintonia” que me levou até às Produções Sintonia no Porto, na RDP - Rádio Guarda, a aposta na formação no âmbito do Jornalismo e, por último, a Rádio F e os programas da noite.

Luisa Gonçalves .jpg

Quais os/as colegas que recordas dessa época?

Todos sem exceção! Claro que uns marcaram mais do que outros.

Estive nas três estações de Rádio sempre por convite (o que muito me orgulha) sem querem magoar ninguém, lembro com muita saudade o João Lopes, e enfim o velho amigo Emílio Aragonez, a quem devo realmente esta grande paixão pela Rádio.

 

Como era a relação que se estabelecia com os ouvintes?

Íntima, verdadeiramente íntima!

Criei laços que guardo até hoje e que ficarão para sempre, na cumplicidade, no sorriso que transparecia e até nos muitos olhares de admiração/ interrogação, quando com surpresa me encontram ainda hoje na Junta de Freguesia … a pergunta que fica no ar… “Mas, não era a menina, a Luísa da Rádio? “

 

As pessoas identificavam-te no exterior?

Sim claro, vivíamos numa cidade pequena, a Rádio era companhia assídua de muita gente e todos nos conhecíamos.

 

Como era feita a seleção musical para os programas que apresentavas?

Todas as rádios por onde passei dispunham de uma discografia excecional, entre os velhinhos Singles, LPs, depois pelos CDs, procurava com alguma antecedência ir ao encontro dos gostos musicais dos ouvintes e fazer um programa onde acima de tudo estava o interesse por quem estava e ouvia no lado de lá.

 

Como vias a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? As pessoas apreciavam a rádio?

Como já disse, creio que a Rádio tinha um grande poder, que é o poder de cativar, de informar e isso creio ter-se conseguido.

Eu pelo menos tenho a sensação de dever cumprido.

 

Tens algum episódio que possa ilustrar essa relação?

Puxando pela memória, recordo-me de alguns diretos feitos para a “Informação”, onde as populações se manifestavam, pela ausência do que consideravam essencial, quer pelos tantos convites que nos faziam e onde pude testemunhar/ vivenciar situações que em pleno Sec. XX, era na Rádio que se faziam ouvir…

Lembro-me por exemplo, num dos últimos trabalhos que fiz na Rádio F, com o meu querido Tó Jó (António Jorge Sepúlveda) de existir uma escola, no nosso concelho, onde a grande luta da professora era manter os meninos na escola, porque os pais exigiam que eles fossem trabalhar, logo pela manhã. Meninos a quem a professora levava o pequeno-almoço, porque sabia que estariam sem comer…

E enfim, tantos outros episódios, relatos de vidas com história…

 

Qual foi a experiência mais positiva na rádio? E a mais negativa?

Positivas todas...não tenho experiências negativas!

 

Os condicionalismos técnicos impediam a criatividade? 

Não gosto de dizer no “meu tempo”, porque o meu tempo é hoje, mas tenho para mim, que naquele período, tive tudo, em todas as Rádios e a criatividade surgia de forma natural.

Sempre me adaptei de forma fácil, aliás o meu gosto pela Rádio era tanto, que não havia impedimento algum, aliás conto em jeito de brincadeira um episódio que me aconteceu no primeiro dia, na minha estreia radiofónica.

Estava no estúdio na Rádio Altitude, ocupadíssima entre discos e publicidade e esqueci-me de fechar o microfone, quando irrompe pelo estúdio o saudoso Antunes Ferreira, que me diz “menina, menina tem o microfone aberto e só se ouve “Ai minha nossa senhora!… “

Bom, se fosse hoje, o desabafo seria outro com certeza… (risos)


Quais as principais diferenças que notas entre a rádio de ontem e de hoje, nomeadamente ao nível dos estúdios e programação?

Estou longe da Rádio já algum tempo, por isso creio que apenas do que possa falar seja do que ouço e assim sendo, creio que se abusa demasiado das “play list”.

Julgo que a Rádio ainda hoje é, ou pelo menos para mim é, comunicação e não creio que hoje exista, pelo menos da forma como eu, e muitos outros como eu, a vivemos. 

 

Hoje é mais fácil fazer rádio?

Creio que hoje, é menos empolgante fazer Rádio.

São horas e horas de música...mas claro que existem exceções e os bons comunicadores continuam a existir!

 

Depois da rádio, como foi o teu percurso profissional?

Deixei a Rádio por opção, mudei de cidade, mudei de vida.

Hoje, e já há algum tempo, sou funcionária da Junta de freguesia da Guarda.

 

Após o teu regresso à Guarda houve novo contacto com a rádio?

Existiu sim, muito superficial.

 

Há algum tempo atrás iniciaste um podcast, sobre rádio. Como surgiu essa ideia e qual o principal objetivo?

Surgiu porque os meus filhos me conhecem como ninguém, sabem desta minha paixão e o Tiago, (filho do meio) que se move muito bem nesta área criou o “Menina da Rádio” que é tão só um passatempo que me transporta para “esses dias da Rádio” …

 

Como tem sido a reação das pessoas?

Creio que gostam, gostam de me ouvir.

E a mim a cima de tudo dá-me imenso prazer em fazer, em partilhar.

 

Gostavas de regressar ao trabalho numa rádio? E com que projeto?

A Rádio vai sempre fazer parte de mim… foram 20 anos, a fazer Rádio e claramente sim! Porque não, as noites da Rádio?

 

Achas que a história da Rádio, em Portugal, passa também pela Guarda?

Sem dúvida, ou não existisse a nossa velhinha Rádio Altitude com todo o seu saber, com toda a sua história da qual eu também faço parte.

 

Como vês hoje a Guarda?

Uma cidade “nova “, em expansão e quero acreditar com potencial para criar novos projetos e novos futuros.

 

Como gostas de ocupar os teus tempos livres?

Escrevendo, lendo e aprendendo e acima de tudo partilhando uma boa conversa, com bons amigos, como agora, o que naturalmente agradeço.


Entrevista: Hélder Sequeira / Correio da Guarda

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Rádio com marca...

 

A Rádio Altitude é uma marca indissociável da Guarda e desta vasta região da beira serra; uma marca que importa honrar, preservar e afirmar continuamente como meio de comunicação social.

Olhar para o seu passado não representa um mero exercício ritualista ou saudosismo lamechas; deve, sim, constituir um ato de reflexão sobre os contributos vertidos na história desta rádio. Como afirmámos noutra ocasião, estamos perante uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de  distintas colaborações; esta é uma emissora de afetos, de ideias, de originalidades; uma emissora com espírito solidário que lhe deu alma desde os longínquo ano de 1948.

Rádio Altitude - Microfone antigo - HS.jpg

A sua génese, a sua longevidade, o seu percurso ímpar e a sua matriz beirã conferem-lhe um estatuto especial, mas também uma maior responsabilidade. Atualmente as emissões radiofónicas passam em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias.

Por outro lado, hoje a Inteligência Artificial (IA) apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes. Para além da automação das emissões a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de conteúdos programáticos convidativos e heterógenos.

Embora se deva ter em conta que a Inteligência Artificial pode ser um precioso auxiliar dos profissionais não pode ser esquecida a essência da Rádio. A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do seu processo evolutivo.

É fundamental que a função social da rádio continuar a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. Assim, não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo.

Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos. Claro que não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

Estúdio Rádio Altitude_HS__hs (8).JPG

 A Rádio Altitude é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade; marca que não deve ser esquecida. A emissora será aquilo que quiserem os seus profissionais, se os sonhos e projetos forem consistentes, arrojados,  capazes de garantirem a apaixonante magia da rádio e de ganharem o futuro.

 

 Hélder Sequeira

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Uma marca incontornável


A história da radiodifusão sonora em Portugal tem a Guarda como capítulo destacado pois foi nesta cidade que nasceu e evoluiu a Rádio Altitude, uma inegável marca informativa. 

Rádio Altitude - Microfone antigo - HS.jpg

Desde 1976 que estou ligado à Rádio, muito particularmente a esta emissora. O Altitude foi uma verdadeira escola de rádio e jornalismo, um espaço de aprendizagem prática, de criatividade, de superação constante dos desafios diários. Tudo isto num contexto de excelente e salutar ambiente de trabalho, numa enriquecedora envolvência de diálogo entre as várias gerações presentes na rádio; uma emissora que fez nascer e consolidar amizades, laços afetivos e afirmou gratas memórias.

A polivalência de funções, por que todos passavam, traduziu-se numa maior capacidade de responder às solicitações do dia a dia da rádio, dos ouvintes, da região. De décadas de ligação à RA resultaram os mais diversificados momentos e episódios, reportagens ou entrevistas marcantes, o contacto com tanta gente que a rádio aproximou; ficaram muitas horas em antena ou nos bastidores da estação emissora, um trabalho nem sempre lembrado. Há vozes e rostos que estão indissociavelmente ligados a esta Rádio.

Antunes Ferreira é um desses rostos, hoje evocado nestas breves notas; esteve no Sanatório Sousa Martins, como internado, tendo (dentro do espírito da terapia ocupacional praticada naquela unidade) sido convidado para trabalhar na emissora guardense.

Em entrevista que nos concedeu em agosto de 2000, Antunes Ferreira recordava a abertura de um concurso, aquando da passagem do décimo aniversário da RA, para a escolha de alguns elementos destinados a trabalhos de apresentação de programas. "Fiquei classificado em quarto lugar", dizia-nos Antunes Ferreira que, juntamente com mais quatro companheiros, passou a desenvolver a sua atividade na, então, modesta estação de rádio.

Na altura, o suporte humano da Rádio Altitude "era o amadorismo puro. Éramos todos amadores e nas horas disponíveis é que íamos para lá. Nós, os doentes, íamos após a fase do período das curas, que eram de repouso total. Alguns iam trabalhar na locução, outros nos arquivos de discos, outros nos registos." A partir de então desenvolveu "uma colaboração assídua, durante vários anos. Juntamente com outras pessoas, de fora, assim se mantinha o Altitude". Cerca de 1960, o então Diretor do Sanatório Sousa Martins – Dr. Martins de Queirós - que para Antunes Ferreira "era a alma e o coração do Altitude", entendeu e perspetivou a importância daquela rádio como meio de comunicação social.

"Nessa altura começou a haver uma colaboração mais regular de outros elementos. Estava para sair do Sanatório, uma vez que estava curado, e o Dr. Martins de Queirós convidou-me para ficar, como profissional, isto à volta de 1965". Foi também a partir desse ano que começou a haver alguns profissionais. "A minha função não era propriamente de animador de emissão, até porque eu gostava mais da técnica. Dediquei-me mais à técnica". Um trabalho que Antunes Ferreira privilegiou ao longo dos 35 anos que trabalhou na Rádio Altitude.

"O ambiente era muito diferente do atual. Todos nós trabalhávamos mais sobre o joelho, mas poderei dizer que aquilo era uma escola de rádio. Houve muita gente que ali aprendeu e dali saíram para outros emissores; recordo que houve elementos que foram para os emissores associados de Lisboa, outros para o Porto. A Rádio Altitude nos seus primeiros vinte e cinco, trinta anos, funcionou como uma escola de Rádio". Lembrava, com alguma nostalgia, Antunes Ferreira. Havia "muito amadorismo e sobretudo muita vontade e amor àquela casa", uma fórmula que, na sua opinião, foi importante para se consolidar a projeção da Rádio Altitude. "Aqui na região o que mais se ouvia era a RA, não só pelo interesse das notícias, mas também pela música popular que passava, do gosto do nosso povo".

Como nos referiu nessa entrevista, que fomos resgatar ao arquivo, todos os programas deixaram boas recordações a Antunes Ferreira, mas "aqueles espaços que mais vivia, como técnico, eram as transmissões diretas. Eram feitas transmissões diretas desportivas, religiosas, quer de acontecimentos políticos".

A veracidade das notícias, para o povo, dizia-nos Antunes Ferreira, "era confirmada pela RA. Se o Altitude dava qualquer notícia era porque isso tinha mesmo acontecido". Daí que, fez questão em sublinhar, toda a população da Guarda sentia o Altitude como uma coisa deles. Toda a gente achava que tinha um bocadinho na própria Rádio Altitude. Aquela casa era de todos". As despesas eram suportadas pela publicidade, pelos discos pedidos, pelos anúncios de bailes e festas. “Vivia-se com o que se tinha e nada mais”.

Aquando dessa, entrevista, iniciado que fora um novo ciclo na vida da rádio, Antunes Ferreira, questionado sobre o que pensava do futuro da emissora disse: "Houve sempre uma coisa que sempre pedi: era que fosse o Altitude a ver-me desaparecer a mim [faleceu em novembro de 2008] e eu não ver desaparecer o Rádio Altitude. É isso que continuo a pedir."

E certamente que será essa continuidade da Rádio, assumida como voz da região, plural, interventiva, moderna, criativa, próxima das realidades que os guardenses desejam; sem esquecerem o seu historial de emissora solidária, associada a tantos nomes, um dos quais aqui evocado. Antunes Ferreira foi, durante largos anos um dos principais rostos da estação, trabalhador incansável, amigo, intransigente defensor dos verdadeiros interesses da sua estação emissora, cuja solidez económica soube sempre salvaguardar, mesmo nos períodos mais difíceis.

A Rádio continua a ter futuro; este passa pela perceção dos novos desafios, pela qualidade de conteúdos, pela presença em várias plataformas, pela reinvenção quotidiana, pela diferenciação programática com uma matriz da região que não anula, de forma alguma, uma presença global.

 

Hélder Sequeira

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Abel Virgílio: a Guarda é uma cidade inesquecível

 Hoje recuperamos uma entrevista publicada há dois anos, mas que não perdeu atualidade...


 

Natural de Pinhel, Abel Virgílio viveu vários anos na Guarda, cidade que considera “com forte apego, ao longo dos séculos, ao nobre sentimento da nossa portugalidade”. A vida militar, o jornalismo e a rádio são páginas de uma vida plenamente assumida, onde a sua atividade principal e vocacional – como disse ao CORREIO DA GUARDA – foi sempre o ensino. Lecionou alunos dos vários graus de ensino desde, 1963 até 1978, ano em que passou a exercer funções pedagógico-administrativas na coordenação do ensino da Embaixada de Portugal em França. Ingressou em 1989 na Inspeção-Geral da Educação, onde manteve, até à sua aposentação, “uma atividade inspetiva a escolas e instituições públicas e privadas de todos os graus do ensino.”


O que representa para si a Guarda?

A Guarda representa no meu espírito e na minha cultura uma cidade do interior do país com vasta história e imenso património artístico, no qual se salienta o seu ex-libris: a sé catedral, cabeça duma diocese multisecular.

Foi e é uma cidade altaneira, de montanha, granítica, com uma grande identidade das suas gentes e daqueles, como eu, que por lá viveram, na defesa dos seus valores e património ancestrais e na sua divulgação na diáspora, no estrangeiro.

Foi e é uma cidade, - honra lhe seja, - com forte apego, ao longo dos séculos, ao nobre sentimento da nossa portugalidade, mesmo se situada às portas de Castela-Leão.

Foi e é uma cidade da simbiose afetiva perfeita entre a sua academia, os militares do seu aquartelamento, os seus clérigos, as suas forças vivas, o seu bom povo.

Enfim, a Guarda deixou em nós todos uma forte ligação e empatia, porque nela vivemos respirando um espírito de tolerância, hospitalidade e compreensão.

Foi uma cidade inesquecível no meu itinerário de vida: lá namorei, lá casei, lá nasceram os meus dois filhos e lá estão sepultados os meus sogros.

 

Quando é que veio para a Guarda?

A primeira vez que subi à Guarda, ido da minha terra natal (Pinhel), foi no distante ano de 1954 para, no Liceu, prestar provas do exame de admissão. Recordo que fiquei alojado numa casa da rua dos Cavaleiros, ali bem perto da Sé e do Liceu, e pude deslumbrar-me com a imponência dos dois.

A partir dali passei a ir bastas vezes à Guarda, mas fixei-me em agosto de 1961, iniciando a preparação para o acesso à Escola do Magistério Primário, uma das mais conceituadas do país, que frequentei até finais de julho de 1963.

Mais tarde, em julho de 1967, regressei como oficial miliciano instalando-me no Regimento de Infantaria 12 onde permaneci até abril de 1970. Neste ano casei com uma guardense e por lá continuámos até ao início de novembro de 1975.

 

Como carateriza a cidade e a juventude dessa época?

Nesses tempos, a Guarda era o farol cultural das Beiras: tinha um ensino liceal público completo, uma escola do magistério muito prestigiada, uma escola comercial e industrial com cursos diversificados, um seminário maior com bastantes seminaristas e dois colégios católicos (um masculino e um feminino).

Neste âmbito rivalizava com as cidades vizinhas (a Covilhã, por exemplo, só possuía cinco anos do ensino público liceal).

Nesse tempo, a juventude da Guarda, saída de meios familiares relativamente pobres, era feliz e idealizava sonhos e realizava projetos para o futuro. Mas, a marca fundamental que ficou em nós todos foi a da amizade, da fraternidade e da solidariedade que nos continua a ligar ao longo da vida, decorridos já tantos anos.

 

O que tinha, então, a Guarda para oferecer aos jovens?

A Guarda oferecia aos jovens uma hospitalidade invulgar. As casas/pensões que nos acolhiam tratavam-nos como sendo da família. Num dos anos letivos eu estive alojado, no chamado largo João de Deus ou dos Correios, na casa da D. Cândida Mota (onde também esteve o antigo procurador-geral Pinto Monteiro e outros) e no seguinte, ao lado, na casa dos pais do saudoso companheiro Pedro Evangelista. Mas, fosse nos cafés, que nos tiravam do frio nas noites de inverno, fosse nas sessões do cine-teatro, fosse nas ruas geladas da cidade, tínhamos sempre o sorriso generoso e bom dos guardenses com uma saudação amiga para a “estudantada”.

Além disso, a academia da Guarda, com o uso coimbrão da capa e batina, tinha a particularidade de “oferecer” os seus caloiros uma praxe, ritual que os praxados não esqueceram nunca mais.

Ah! O que também a Guarda oferecia aos jovens eram a neve, o sincelo e o vento cieiro nos dias do inverno, imagens de marca de um tempo que nunca esqueci.

 

Quais as personalidades mais marcantes dessa época?

Nessa época a Guarda beneficiava do facto de ter em Lisboa, personalidades bairristas de relevo: o dr. João de Almeida, o dr. Soares da Fonseca, o professor dr. Veiga Simão (que viria a ser ministro da Educação no consulado de Marcelo Caetano), o dr. Augusto César de Carvalho, Prof. Dr. Fernando Carvalho Rodrigues e muitos mais.

Mas na Guarda, no meu tempo, as figuras mais marcantes eram os bispos da diocese, os governadores civis, os presidentes do Município, os professores dos estabelecimentos de ensino e os altos quadros do regimento, da medicina, da justiça, da indústria e dos serviços públicos.

Não poderei deixar de mencionar os bispos dos meus tempos da Guarda: D. Domingos Gonçalves, D. Policarpo da Costa Vaz, e mais recentemente essa eminente figura da igreja, o cardeal Saraiva Martins. E oradores sagrados de grande renome e prestígio, tais como o dr. Vitor Feytor Pinto e Afonso Sanches de Carvalho. Como governadores civis recordo os drs. Augusto César de Carvalho, Santos Júnior, Luis de Almeida, Mário Bento e Andrade Pereira. Como autarcas os drs. Lopes Quadrado e Aristides Prata. Como militares comandantes do R.I.12 os coronéis José Maria Vieira Abrunhosa, Jorge Inglês P. de Carvalho e Jorge Pereira de Carvalho. Como causídicos os drs. João Gomes, Francisco Bigote, Celínio Antunes, Andrade Pereira, Pires da Fonseca. Como médicos os drs. Martins Queirós, Silvano Marques, António Júlio, Alberto Garcia, Sardo, Martins das Neves, Pereira da Silva, Afonso Paiva, Orlindo Teles, Baeta de Campos, etc. Os professores que impulsionaram a nossa juventude para a vida ativa, e que se distinguiram até a nível nacional, tais como os drs. Abílio Bonito Perfeito, Costa Ramalho, Manuel Jorge Proença, Armando Saraiva de Melo, cónego Álvaro Quintalo, Beatriz Salvador, Maria Alice Quintela, Fernanda Cardinal, etc. etc. No tecido empresarial surgiam à cabeça Manuel Conde, a família Tavares, Lúcio Romão, e outros.

 

Como começou a sua ligação à imprensa regional e nacional? E que tipo de colaboração desenvolveu?

A minha ligação à imprensa regional iniciou-se em 1959, com apenas 15 anos.

Ao verificar que o campo de futebol municipal Astolfo da Costa, em Pinhel, servia simultaneamente para o desporto local e para a realização de feiras de gado, insurgi-me com tal atropelo sanitário e escrevi um artigo crítico que entreguei ao meu saudoso amigo Madeira Grilo, que então era, conjuntamente com Virgílio Afonso, um dos chefes da redação do semanário “Correio da Beira”.

O artigo foi publicado, e no seguimento dele tive o convite desses dois amigos para ser o correspondente do Jornal em Pinhel. Simultaneamente, também o abade de Pinhel, diretor do “Pinhel Falcão” me convidou para ser colunista neste mensário católico da cidade.

Mais tarde, em 1967, passei a ser correspondente em Pinhel do “Diário de Coimbra” e, depois, na Guarda do “Jornal de Notícias”. Pela mão do cónego Sanches de Carvalho passei a ser, além do correspondente do Jornal “A Guarda” em Pinhel, também seu editor da página desportiva e revisor de todo o Jornal antes de ser impresso. Logo que passei a colaborar no Jornal “A Guarda” abandonei a correspondência com o “Correio da Beira”.

Durante o serviço militar no R.I.12 recriei e editei o jornal regimental chamado “Fronteiros da Beira”. Mantive a colaboração com a imprensa escrita até à minha partida para França, em finais de 1975. Depois do meu regresso, em 1989, apenas continuei como colunista permanente no jornal “Pinhel Falcão”, publicando sob o pseudónimo de Eneida Beirão, até pouco depois do falecimento em 2015, do meu saudoso amigo e seu diretor Maia Caetano.

 

JORNAL DE NOTICIAS - CARTÃO ABEL VIRGILIO.jpg

E a ligação à Rádio e quais os companheiros que recorda?

Em 1967, quando cheguei ao quartel da Guarda, fui convidado pelo meu amigo Emílio Aragonez para com ele editar na Rádio Altitude um programa desportivo designado “Desporto Regional”, logo após a saída do programa dos saudosos amigos Madeira Grilo, Luís Coito e Luís Coutinho.

Acompanhávamos o desporto regional nos três distritos da Beira interior, mas com maior incidência no da Guarda. Dessa participação benévola mas dedicada recordo com imensa saudade o nosso diretor, dr. Martins Queirós, o nosso administrador A. Carvalhinho, e os companheiros inesquecíveis nessa genuína escola da rádio e alfobre de amizades: Antunes Ferreira, Vaz Júnior, Joaquim Pinheiro, Emílio Aragonez, António José Teixeira, Joaquim Fonseca, Luís Coutinho, Luís Coito, Alcina Coito, Madeira Grilo, Lopes Craveiro, Helder Sequeira, Virgílio Ardérius, Maria José Trabulo, Fernando Bento, Vítor Santos, Luís Celínio, Rebelo de Oliveira, Francisco Carvalho, e tantos mais que contribuíram como uma família radialista para a dignificação, expansão e prestígio da mais antiga radio portuguesa. Alguns, infelizmente, já nos deixaram.

Além de inúmeras reportagens de exteriores de índole regionalista, política, social, cultural e religiosa que assegurei para a Rádio Altitude, também criei e dirigi, com os meus camaradas João Trabulo e Joaquim Fonseca, um programa semanal do Regimento militar “A voz do Doze”.

 

Tem na memória algum episódio, na Rádio, que gostasse de recordar?

Poderia aqui evocar os mais diversos episódios ocorridos nas transmissões que assegurávamos de vários pontos da região e do país, nuns tempos em que o sinal era levado aos estúdios através dos imponderáveis das linhas telefónicas dos CTT. Mas os episódios que me marcaram foram os relatos de futebol transmitidos a partir dos estádios de cidades como Portalegre, Castelo Branco, Covilhã, Viseu, Coimbra, Figueira da Foz, Gouveia, Seia, Lamego, Pinhel, Aveiro, Espinho, etc., etc.

Recordo que, quando fazíamos os relatos de futebol junto aos relvados dos estádios de algumas destas localidades, os espetadores da bola, que não sabiam como se faziam os relatos desportivos, cercavam-nos estupefactos e surpreendidos durante toda a emissão.

Também guardo memória das gravações que se faziam nas sedes dos concelhos, na época que antecedia o Natal, para se registarem as mensagens dos familiares dos militares que nesse tempo combatiam nas antigas colónias. Guardo a imagem de tanta gente anónima sénior que, de lágrimas nos olhos e saudades no coração, deixava no final das mensagens sempre a esperança num sentido “até ao teu regresso!”

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E as memórias sobre o R.I.12? A cidade perdeu muito com a extinção dessa unidade militar?

Tive o orgulho patriótico de durante cerca de três anos prestar serviço como oficial miliciano no velho R.I.12, aquartelado na Guarda. Apelido-o de “velho” porquanto foi descendente do terço de Chaves (1706) e herdeiro das tradições militares de unidades de grande prestígio no nosso país, por ações de resistência às invasões napoleónicas dos exércitos franceses no início do séc. XIX e por campanhas em África, na II guerra mundial e, depois, na guerra colonial.

O cumprimento do meu serviço militar obrigatório no R.I. 12 deixou-me algumas boas memórias, mormente na camaradagem e na amizade que construímos sob o lema do regimento “Firmes como rochas”.

A extinção da unidade militar deixou um vazio social e económico na cidade. Lembremos que o R.I. 12 proporcionava quatro turnos anuais de formação aos recrutas, e cada turno absorvia mais de 600 recrutas, provenientes na sua maioria da região norte do país.

Além desses, o pessoal do quadro permanente e milicianos somavam cerca de cem militares. Portanto, é fácil inferir o vultuoso investimento que a logística da unidade militar fazia no tecido empresarial da cidade e região, bem como os gastos que todos os militares, sem exceção, deixavam na habitação, no comércio e nos serviços locais.

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Acha que falta fazer a história do R.I.12?

Seria importante escrever em pormenor a história do R.I. 12, e, sobretudo, a história dos regimentos aquartelados na Guarda ao longo dos tempos: R. I. 34 e 2º Grupo de Metralhadoras (1911-26), Batalhão de Caçadores 7 (1814-16, depois 1939-61), Batalhão de Caçadores 29 (1840-42), Batalhão de Caçadores 4 (1842-43), Batalhão de Caçadores 1 (1844), e, finalmente o R.I. 12 (1846-1939 e, depois, de 1966 até à sua extinção.

Durante parte do tempo em que servi no R.I. 12, por decisão do então comandante coronel Jorge Inglês, fui incumbido de escrever dois opúsculos intitulados “Pequena história dum velho Regimento – O R.I.12” e “Relação dos comandantes efetivos do R.I. 12 (1706-1967)”. A pequena história resume sucintamente as unidades que precederam o R.I. 12, as suas origens, divisas e condecorações.

 

Qual foi o percurso da sua atividade profissional e o que gostou mais de fazer?

A minha atividade principal e vocacional foi sempre o ensino. Lecionei alunos dos vários graus de ensino desde 1963 até 1978.

A partir desse ano letivo passei a exercer funções pedagógico-administrativas na coordenação do ensino da Embaixada de Portugal em França, sob a tutela do Ministério da Educação e da conselheira cultural da Embaixada, em Paris.

Entre 1978 e 1989, no exercício dessas funções, percorri todo o território francês para diligenciar junto das várias Academias a criação de cursos de língua e cultura portuguesa.

Em 1989, quando regressei a Portugal, ficaram em França cerca de 550 professores a lecionar Português para mais de 55 mil alunos em escolas de toda a França. 

No ano letivo de 1989/90 ingressei na Inspeção-Geral da Educação, onde mantive, até à minha aposentação, uma atividade inspetiva a escolas e instituições públicas e privadas de todos os graus do ensino. 

Senti-me realizado no desempenho de todas as tarefas que envolveram alunos e colegas professores e inspetores, mas um dos momentos altos da minha carreira profissional ocorreu no dia de Portugal de 1981 quando me foi atribuída pelo presidente Ramalho Eanes, sob proposta do ministro da Educação Vítor Crespo, a condecoração do grau de oficial da instrução pública.

 

Acompanha o que se passa atualmente na Guarda?

Sim. Pelas razões atrás aduzidas acompanho à distância as atividades e eventos da Guarda através da comunicação social e dos relatos e comentários de familiares e amigos residentes.

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Como vê o estado atual da cidade?

Da Guarda da minha meninice e juventude até à atual cidade há um progresso enorme.

As auto estradas A 23, A 25 e IP2 desencravaram a região e ligaram-na mais facilmente ao litoral e aos grandes centros. A ferrovia, com as duas linhas (da Beira Alta e Baixa) em funcionamento pleno podem, no futuro, abrir mais perspetivas de desenvolvimento na Beira interior.

O Instituto Politécnico (que não existia no meu tempo) veio ser a locomotiva que fazia falta à juventude, tanto nacional como estrangeira, para sonhar e realizar projetos de vida e de futuro. O crescente número de alunos estrangeiros que procuram o I.P.G. para prosseguimento dos estudos revela bem o prestígio dos seus cursos superiores.

O turismo também é a mola impulsionadora da região serrana e mais será quando, além dos seus magníficos ares, dos seus monumentos e gastronomia, a Guarda lhes oferecer belas praias fluviais e passadiços na montanha. Na minha ótica, o porto seco na Guarda alavancará no futuro a indústria, o comércio e os transportes. Tudo isto é bom para melhorar o estado atual da Guarda.

 

Entrevista de Helder Sequeira /Correio da Guarda