No passado fim de semana teve lugar
na Guarda o espetáculo “Funos – Rituais de despedida”, no cenário oferecido
pelo conjunto arqueológico e histórico da Póvoa do Mileu. Tratou-se de uma
criação do Teatro do Calafrio, numa organização do município guardense, através
do Museu Municipal da Guarda, integrando-se no programa do Simpósio
Internacional de Arte Contemporânea (SIAC) que decorre até esta sexta-feira, 19
de junho.
O espetáculo recriou o ambiente
espiritual e social da época romana, dando voz às emoções universais do luto,
da saudade e da esperança na eternidade. Na Roma Antiga os funos eram
acontecimentos profundamente enraizados nas tradições e nos rituais que
expressavam as crenças religiosas e a estrutura social dessa época; esses
rituais funerários romanos traduziam a relação com a morte e a vida após a
morte. Constituindo-se como uma matriz da vida e da cultura romana, os funos
transmitiam as mudanças e a evolução das práticas funerárias ao longo dos
séculos e outrossim o propósito de honrarem a memória dos mortos.
A intensidade cerimonial variava em
função da categoria social e dos recursos económicos, sendo a cremação uma
prática comum. A procissão funerária era, refira-se, um momento relevante dos
funerais romanos; o corpo era transportado, pelas ruas, acompanhado pelos
elementos da família e amigos, participando, em muitas ocasiões, pessoas com a
missão de verbalizarem lamentações e também músicos. “A procissão passava por
lugares significativos da vida do falecido, terminando no local de cremação ou
sepultamento”. De anotar que após o cerimonial, era habitual existirem
banquetes fúnebres que, para além de reunirem os mais próximos na evocação da
memória do falecido, serviam igualmente para reforçar as relações sociais na
comunidade.
O espetáculo realizado no espaço da
estação arqueológica da Póvoa do Mileu, e na zona envolvente da capela românica
aí existente (datado do século XIII, este templo românico está classificado
imóvel de interesse público desde 1950), proporcionou um reencontro,
pedagógico, com o passado, uma lição sobre alguns aspetos da cultura romana,
uma demonstração de criatividade dos elementos envolvidos neste evento e uma
leitura clarividente da forma de valorizar e rentabilizar o património arqueológico,
histórico e artístico da cidade da Guarda.
Por outro lado, “Funos – Rituais de
despedida” foi também repto para um melhor conhecimento, por parte da
comunidade, da estação arqueológica do Mileu e de tudo quanto ela representa;
um sítio onde, ao longo de décadas, foram detetadas importantes estruturas
arqueológicas de distintas cronologias; entre o espólio que foi sendo
identificado estão machados de pedra polida, tegulae, cerâmica de construção,
"terra sigillata", fíbulas, ornamentos, torso, mós de moinho, pesos
de tear, fragmentos de lucernas, moedas, vidros, escápulas, pregos, argola e
fivela de cinturão em ferro, escórias de fundição, restos osteológicos humanos,
inscrição, lápide funerária (depositada no Museu da Guarda).
O conjunto arqueológico da Póvoa do
Mileu, na Guarda, é um dos mais interessantes da Beira Interior. Esta é a
opinião do arqueológo Vítor Pereira que coordenado, há alguns anos atrás, os
trabalhos de prospeção e estudo ali realizados. Depois de lembrar que a
importância deste sítio foi, desde cedo, reconhecida por “vários observadores,
historiadores, autarcas e políticos logo no momento da sua descoberta, o que
levou à preservação das estruturas, bem como à sua posterior classificação como
imóvel de interesse público, em 1957”, o arqueólogo da Câmara Municipal da
Guarda não hesitou em denominar o Mileu como “uma estação arqueológica
admirável e até pitoresca”.
Vítor Pereira fundamentava esta
afirmação no facto de aquela estação arqueológica, hoje praticamente inserida
na malha urbana guardense, conjugar “num mesmo local um importante sítio
romano, ocupado durante os finais do século I d.C. e o século II, e uma famosa
capela românica e o seu cemitério rústico adjacente.”
As investigações realizadas permitem
confirmar a existência de “importantes estruturas residenciais, servidas por um
peristilo, isto é um pequeno pátio interior, quase certamente alpendrado (um
pouco à imagem do que seriam os futuros claustros dos mosteiros e conventos
medievais) – e servidas também por um complexo termal, tão típico da
civilização e dos hábitos dos romanos.” Aquele arqueólogo lembrou que as
estruturas destas termas foram já identificadas na altura da descoberta do
complexo arqueológico, em 1951. “No entanto, nas últimas campanhas de
escavações confirmou-se a existência de novas e diversas estruturas arquitetónicas
de período romano, na área a nascente do complexo termal”.
Os achados mais recentes reforçam o
que há muito se presumia, ou seja, “o Mileu encontrava-se integrado numa muito
vasta rede comercial que abrangia o Norte e o Nordeste da Península, o Vale do
Rio Ebro e a Província romana da Bética (sudeste da Península), mas que
alcançava mesmo, embora mais ou menos residualmente, o Sul da atual França (a
Gália dos Romanos), a Itália e mesmo o Norte de África”.
As preocupações em salvaguardar o
património arqueológico do Mileu remontam a 1951, quando estava a ser
construída a atual ligação entre essa zona e o núcleo urbano da então
denominada Guarda-Gare.
A Câmara Municipal da Guarda, então
presidida por Alberto Dinis da Fonseca, foi sensível aos protestos que então se
levantaram, no que foi secundada pela Junta Autónoma de Estradas, organismo que
providenciou os projetos necessários à alteração da denominada Avenida da
Estação. Os inúmeros achados arqueológicos foram o argumento utilizado,
nomeadamente por parte do historiador Adriano Vasco Rodrigues, para que não se
destruísse aquela estação arqueológica e fosse permitido um estudo aprofundado.
Aquele investigador classificou esse
edifício como um “hipocaustum, ou mais corretamente de uma casa com
instalação de aquecimento próprio de clima de Inverno frio.” Recorde-se que, em
abril de 2009, o Museu da Guarda promoveu uma interessante ação subordinada ao
tema “Dos banhos quentes dos Romanos às energias renováveis”; esta atividade teve
por objetivo dar a conhecer o sistema de aquecimento central das casas
abastadas da época dos Romanos (“piso radiante”) a partir da observação de
peças de barro de condutas de ar quente expostas no Museu da Guarda.
Para além da importância e
oportunidade da recriação histórica de “Funos – Rituais de despedida”, este
espetáculo lançou o convite e o desafio ao conhecimento e salvaguarda da nossa
história e dos nossos valores patrimoniais.
Hélder Sequeira