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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Redescobrir o passado na Póvoa do Mileu

No passado fim de semana teve lugar na Guarda o espetáculo “Funos – Rituais de despedida”, no cenário oferecido pelo conjunto arqueológico e histórico da Póvoa do Mileu. Tratou-se de uma criação do Teatro do Calafrio, numa organização do município guardense, através do Museu Municipal da Guarda, integrando-se no programa do Simpósio Internacional de Arte Contemporânea (SIAC) que decorre até esta sexta-feira, 19 de junho.

O espetáculo recriou o ambiente espiritual e social da época romana, dando voz às emoções universais do luto, da saudade e da esperança na eternidade. Na Roma Antiga os funos eram acontecimentos profundamente enraizados nas tradições e nos rituais que expressavam as crenças religiosas e a estrutura social dessa época; esses rituais funerários romanos traduziam a relação com a morte e a vida após a morte. Constituindo-se como uma matriz da vida e da cultura romana, os funos transmitiam as mudanças e a evolução das práticas funerárias ao longo dos séculos e outrossim o propósito de honrarem a memória dos mortos.

A intensidade cerimonial variava em função da categoria social e dos recursos económicos, sendo a cremação uma prática comum. A procissão funerária era, refira-se, um momento relevante dos funerais romanos; o corpo era transportado, pelas ruas, acompanhado pelos elementos da família e amigos, participando, em muitas ocasiões, pessoas com a missão de verbalizarem lamentações e também músicos. “A procissão passava por lugares significativos da vida do falecido, terminando no local de cremação ou sepultamento”. De anotar que após o cerimonial, era habitual existirem banquetes fúnebres que, para além de reunirem os mais próximos na evocação da memória do falecido, serviam igualmente para reforçar as relações sociais na comunidade.

O espetáculo realizado no espaço da estação arqueológica da Póvoa do Mileu, e na zona envolvente da capela românica aí existente (datado do século XIII, este templo românico está classificado imóvel de interesse público desde 1950), proporcionou um reencontro, pedagógico, com o passado, uma lição sobre alguns aspetos da cultura romana, uma demonstração de criatividade dos elementos envolvidos neste evento e uma leitura clarividente da forma de valorizar e rentabilizar o património arqueológico, histórico e artístico da cidade da Guarda.


Por outro lado, “Funos – Rituais de despedida” foi também repto para um melhor conhecimento, por parte da comunidade, da estação arqueológica do Mileu e de tudo quanto ela representa; um sítio onde, ao longo de décadas, foram detetadas importantes estruturas arqueológicas de distintas cronologias; entre o espólio que foi sendo identificado estão machados de pedra polida, tegulae, cerâmica de construção, "terra sigillata", fíbulas, ornamentos, torso, mós de moinho, pesos de tear, fragmentos de lucernas, moedas, vidros, escápulas, pregos, argola e fivela de cinturão em ferro, escórias de fundição, restos osteológicos humanos, inscrição, lápide funerária (depositada no Museu da Guarda).

O conjunto arqueológico da Póvoa do Mileu, na Guarda, é um dos mais interessantes da Beira Interior. Esta é a opinião do arqueológo Vítor Pereira que coordenado, há alguns anos atrás, os trabalhos de prospeção e estudo ali realizados. Depois de lembrar que a importância deste sítio foi, desde cedo, reconhecida por “vários observadores, historiadores, autarcas e políticos logo no momento da sua descoberta, o que levou à preservação das estruturas, bem como à sua posterior classificação como imóvel de interesse público, em 1957”, o arqueólogo da Câmara Municipal da Guarda não hesitou em denominar o Mileu como “uma estação arqueológica admirável e até pitoresca”.

Vítor Pereira fundamentava esta afirmação no facto de aquela estação arqueológica, hoje praticamente inserida na malha urbana guardense, conjugar “num mesmo local um importante sítio romano, ocupado durante os finais do século I d.C. e o século II, e uma famosa capela românica e o seu cemitério rústico adjacente.”

As investigações realizadas permitem confirmar a existência de “importantes estruturas residenciais, servidas por um peristilo, isto é um pequeno pátio interior, quase certamente alpendrado (um pouco à imagem do que seriam os futuros claustros dos mosteiros e conventos medievais) – e servidas também por um complexo termal, tão típico da civilização e dos hábitos dos romanos.” Aquele arqueólogo lembrou que as estruturas destas termas foram já identificadas na altura da descoberta do complexo arqueológico, em 1951. “No entanto, nas últimas campanhas de escavações confirmou-se a existência de novas e diversas estruturas arquitetónicas de período romano, na área a nascente do complexo termal”.

Os achados mais recentes reforçam o que há muito se presumia, ou seja, “o Mileu encontrava-se integrado numa muito vasta rede comercial que abrangia o Norte e o Nordeste da Península, o Vale do Rio Ebro e a Província romana da Bética (sudeste da Península), mas que alcançava mesmo, embora mais ou menos residualmente, o Sul da atual França (a Gália dos Romanos), a Itália e mesmo o Norte de África”.

As preocupações em salvaguardar o património arqueológico do Mileu remontam a 1951, quando estava a ser construída a atual ligação entre essa zona e o núcleo urbano da então denominada Guarda-Gare.

A Câmara Municipal da Guarda, então presidida por Alberto Dinis da Fonseca, foi sensível aos protestos que então se levantaram, no que foi secundada pela Junta Autónoma de Estradas, organismo que providenciou os projetos necessários à alteração da denominada Avenida da Estação. Os inúmeros achados arqueológicos foram o argumento utilizado, nomeadamente por parte do historiador Adriano Vasco Rodrigues, para que não se destruísse aquela estação arqueológica e fosse permitido um estudo aprofundado.

Aquele investigador classificou esse edifício como um “hipocaustum, ou mais corretamente de uma casa com instalação de aquecimento próprio de clima de Inverno frio.” Recorde-se que, em abril de 2009, o Museu da Guarda promoveu uma interessante ação subordinada ao tema “Dos banhos quentes dos Romanos às energias renováveis”; esta atividade teve por objetivo dar a conhecer o sistema de aquecimento central das casas abastadas da época dos Romanos (“piso radiante”) a partir da observação de peças de barro de condutas de ar quente expostas no Museu da Guarda.


Para além da importância e oportunidade da recriação histórica de “Funos – Rituais de despedida”, este espetáculo lançou o convite e o desafio ao conhecimento e salvaguarda da nossa história e dos nossos valores patrimoniais.

 

Hélder Sequeira

 


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