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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Salvaguardar as tradições teatrais...


A localidade de Pousade, no concelho da Guarda, tem uma profunda tradição ao nível do teatro religioso.

Este género de teatro, com raízes profundas naquela localidade, foi alimentado ao longo de décadas pela imaginação e improvisação de algumas pessoas daquela localidade, que concebiam peças para serem apresentadas em datas marcantes do calendário cristão, como sejam o Natal e a Páscoa.

Muitas delas eram transmitidas oralmente e corriam o risco de se perderem; daí que, há anos atrás, se tenha pensado, e bem, em verter para o papel os conteúdos dessas produções, facilitando-se igualmente o respetivo conhecimento e a possibilidade de as tornar objeto de estudo e investigação.

“A Paixão”, “Acto de Adão e Eva”, “O Nascimento de Jesus Cristo”, “A Morte de Antípatro”, “A Vingança de Enoe” e “Mártires da Germânia” são elucidativos exemplos dessas representações populares, onde “um enorme capital de esforço, de trabalho e dedicação”, como nos foi afirmado.

Daí que tenha sido importante o trabalho, mormente de João Marques e outros seus conterrâneos, de “sensibilizar a população para que fosse retomada uma tradição que se perde no tempo” – há, naquela aldeia, manuscritos de 1898 com peças de cariz religioso e popular – objetivo conseguido, como a progressiva adesão do público a estas representações.

O teatro popular foi uma das temáticas que entusiasmou José Miguel Carreira Amarelo que, como não poderia deixar de ser, olhou com particular atenção para as tradições de Pousade, editando dois volumes sobre o Teatro Popular. “O teatro popular é um continuum que nunca foi abolido pelo teatro erudito de qualquer movimento literário”.

José Carreira Amarelo procurou, como escreveu na apresentação do primeiro dos livros, “salvar do naufrágio do esquecimento e da perda uma pequena parcela da nossa cultura popular e regional”, destacando, por outro lado, “a perenidade e prevalência do teatro de cariz popular a par de um outro de carácter institucional”.

Nesse seu trabalho, Carreira Amarelo anotou que “de norte a sul do país, em Trás-os-Montes como nas Beiras, no continente e nas ilhas subsistem, ainda hoje, representações populares dramáticas, de carácter didático e formativo, de índole religiosa e profana, ora com objetivos apenas recreativos, ora com fins satíricos e moralizadores”.

Nesta quadra da Quaresma em que são promovidas diversificadas encenações ou representações sobre a temática e tradições religiosas associadas, é oportuno não olvidar as especificidades locais e regionais, realçando-as as suas raízes ancestrais e a matriz cultural; assim como é justo evocar a investigação e a recolha atrás mencionadas que devem suscitar novos estudos e abordagens, conducentes a publicações que se afirmem com uma mais-valia em prol da salvaguarda da nossa cultura regional.

 

Hélder Sequeira


quarta-feira, 18 de março de 2026

Nos caminhos das "Alminhas"...

 

A Associação de Jogos Tradicionais da Guarda (AJTG) vai promover, no próximo sábado, 21 de março, mais um percurso pedestre temático, cultural e turístico inserido no programa da Semana Santa “Guarda – Cultura e Fé”.


Sob a designação o “Culto Privado das Almas” o percurso vai iniciar-se (pelas 9 horas) em Valdeiras e incidirá sobre o território de São Miguel do Jarmelo, no concelho da Guarda; será um percurso com um grau de dificuldade fácil, ao longo de nove quilómetros, devidamente guiado, com acompanhamento e informação. Recordamos os nossos leitores que a AJTG já em 2024 tinha promovido idêntica iniciativa nas aldeias de Trinta, Corujeira, Fernão Joanes e Meios (concelho da Guarda).

Como foi referido a propósito desse percurso, pretendeu-se levar os participantes à descoberta do património cultural material e imaterial, mas também do património natural daquela área do concelho da Guarda.

A AJTG promoveu também no passado ano (a 23 de março de 2025) um “Percurso das Alminhas” que, com início na Menoita, passou por várias localidades da freguesia de Pera do Moço: Menoita, Rapoula, Pera do Moço e Verdugal; com incidência no património local e na identificação de alminhas.

Singelos monumentos expressivos da religiosidade popular, as “Alminhas” constituem um património ímpar que não tem merecido a devida atenção e a necessária salvaguarda; deste modo, iniciativas como esta promovida pela Associação de Jogos Tradicionais da Guarda são de aplaudir, incentivar e apoiar.

Nesta região do interior existem inúmeros testemunhos do culto das almas, sob diversificadas manifestações de arte e nos mais distintos lugares, embora os caminhos e as encruzilhadas tenham constituído locais privilegiados para a sua implantação.

A representação do Purgatório num oratório, retábulo ou painel, com chamas envolvendo as almas que suplicam aos santos e apelam ao auxílio das preces de quem passa, materializou-se, inicialmente em pinturas, a partir do século XVI; conheceu uma maior difusão no século seguinte, no território português, com maior incidência a norte do Mondego (a sul essa manifestação artística ficou, muitas vezes, no interior das igrejas e nas capelas das Irmandades).

Embora alguns investigadores desta temática argumentem que as “Alminhas” se tenham inspirado e sejam uma herança das “civilizações clássicas de Roma e Grécia que nas suas deambulações já haviam erguido monumentos junto às estradas para devoção aos seus deuses”, sabemos que a origem das alminhas surge na Idade Média.

A partir do Concílio de Trento,1563, a ideia do Purgatório (anteriormente, e em especial nos primeiros séculos do cristianismo existia apenas o Céu e o Inferno) é imposta como dogma, atitude que é interpretada como uma resposta da Igreja Católica à reforma implementada pelos protestantes. Assim, o Purgatório surgia como um local (entre o Céu, para os bons, e o Inferno, para os maus) onde as almas passavam por um estado, forçado, de purificação. Estas manifestações de religiosidade popular e de arte eram, simultaneamente, um alerta permanente para a fragilidade da vida, perante a certeza da morte.

As “Alminhas” eram erguidas, normalmente, por iniciativa individual como homenagem, em memória de familiares ou no cumprimento de promessas. Esta devoção popular atravessou os tempos e embora a meio do século passado tenha sido evidente um rejuvenescimento através da introdução da azulejaria (e alterado o culto inicial para manifestação de fé em santos da predileção pessoal), muitos destes pequenos monumentos, mercê do tempo e da desertificação das regiões, caíram no esquecimento e em progressiva degradação.

 

“Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”…

 

Este apelo, inscrito em inúmeras “Alminhas”, bem pode ser, na atualidade, dirigido a todos nós que temos olvidado um peculiar património (não são conhecidos muitos mais exemplos – com exceção para alguns casos, raros – na Europa), disperso por caminhos, muros, pontes, campos, estradas…

O projeto da AJTG, centrado no “Culto Privado das Almas, é – como já tínhamos salientado em anteriores Anotações – um eminente contributo para a salvaguarda, estudo e divulgação deste património, o qual pode ancorar uma diversidade de roteiros, mas também suscitar investigações contextualizadas em épocas ou tipologias dessas expressões de religiosidade, permitindo a sua descrição/história através de códigos disponibilizados pelas novas tecnologias; exigindo igualmente a adequada sinalética e iluminação (mesmo nos locais mais ermos isso já é viável, através de focos/luminárias com energia solar).

No distrito da Guarda (como noutras regiões, obviamente) é urgente, fundamental, a completa referenciação (ou continuidade desse trabalho, já feito pela AJTG), a defesa, o estudo (por equipas interdisciplinares) e a divulgação das Alminhas, sob o risco de perdermos mais um importante traço identitário do nosso património e cultura.

No próximo sábado poderá redescobrir “alminhas” no percurso que a AJTG lhe propõe nos caminhos de um território rico de história, religiosidade e tradição.

 

Hélder Sequeira


 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Cobertor de papa: uma manta tradicional a salvaguardar

 

Alta, imensa, enigmática, a sua presença física é logo uma obsessão. Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza ainda mais viva: a de todas as verdades locais emanarem dela.” Escrevia Miguel Torga a propósito da nossa Serra da Estrela, onde não deixou de anotar a figura de “um homem de pau e manta, a guardar um rebanho”. Uma imagem ampliada em múltiplos e diferenciados registos fotográficos, onde é visível um dos traços identitários do pastor: a manta. Hoje um elemento que integra um ecossistema enraizado nestas terras beirãs, em risco de extinção.

O cobertor de papa é uma manta tradicional da zona da Serra da Estrela, produzida – há vários séculos – a partir da lã churra (mais macia) que é retirada de ovelhas autóctones (ovelha mondegueira). Esta manta abrigava (e isso ainda acontece) os pastores durante a sua deslocação para as serranias, protegendo-os do frio, da chuva (de notar que estes cobertores no sentido do pelo são impermeáveis) e dos lobos, confundidos com as suas cores e forma.

Após o necessário tratamento, a lã é tecida em teares artesanais e de acordo com métodos tradicionais, associando cores e desenhos com perfil diferenciador. O processo termina com o esticar dos cobertores nas “râmbolas” onde secam, ao ar livre, e adquirem o seu aspeto final.

Existem o cobertor branco com três listas castanhas, a manta barrenta ou manta do pastor, a manta lobeira ou manta espanhola, o cobertor branco, o cobertor bordado à mão e o cobertor de papa em várias cores (com o seu conhecido pelo comprido).

O seu uso não se fica apenas pela utilização como elemento de conforto térmico (na cama o seu pelo denso e pesado facilita a transpiração durante o sono e puxa a humidade para a superfície exterior do cobertor), mas passa também por distinto complemento de decoração de interiores.

A Associação Genuíno Cobertor da Papa (AGCP), criada em 15 de maio de 2018 e sediada em Maçainhas, tem nos seus objetivos a produção daquele produto e a garantia da sua autenticidade, estando empenhada em alcançar a certificação daquele cobertor. O declínio da indústria da lã e o surgimento de fibras sintéticas originaram um cenário onde quase se desenhou a sua extinção, que a referida Associação quer evitar; salvaguardando “os seus processos artesanais perante produtos industriais que se apropriaram do nome e, com isso, enganam os consumidores, desonram um património histórico e cultural e concorrem deslealmente com quem continua a usar os processos fieis à tradição secular e artesanal, e respeita a autenticidade do produto”. Como nos afirmou Maria do Céu Reis, da ACCP.

O tradicional cobertor de papa – como por várias vezes tem alertado aquela associação – apresenta um pelo comprido encaracolado ou ondulado (só possível por ser feito com lã churra) bem como ourelas únicas; nelas se podem distinguir uma espécie de "bicos" e pequenos orifícios que resultam do facto de o cobertor de papa, (artesanal e autêntico). necessitar de ser esticado e seco, ao sol, em râmbolas.

COBERTOR DE PAPA_ (26)

“Estes elementos são alguns dos sinais que garantem a autenticidade do cobertor de papa, quer em termos de processo artesanal, quer em termos de matéria-prima, podendo ajudar os consumidores, na hora de comprar, para não serem enganados comprando a imitação industrial que contém poliéster e polipropileno, pelo curto e irregular, e apresenta ourelas cortadas.” As ourelas do cobertor artesanal são inteiras, dado este produto regional ser tecido em tear manual, com lançadeira.

O processo de certificação tem exigido, muito trabalho e verbas, incompatíveis com os recursos financeiros daquela associação, como aliás foi sublinhado no decorrer do Festival do Cobertor de Papa, realizado há dois anos em Maçainhas, o único sítio do país onde hoje é feito.

Elisa Pinheiro, que desenvolveu trabalhos de pesquisa sobre o cobertor de papa, assinalou-o como “produto final de um longo processo que plasma uma densidade de memórias, sejam elas as dos homens que os produziram, sejam daqueles que, ao longo dos tempos, os consumiram, uns e outros unidos pelos fios de lã que os teceram, num tempo longo da nossa história dos lanifícios”, sublinhando o seu enquadramento “em práticas ancestrais que importa salvaguardar”.

Deste modo, é urgente preservá-lo, defender a sua autenticidade, a par de permanentes ações de valorização e promoção. Esta não é uma tarefa simples, pois há que equacionar múltiplas realidades e condicionantes, como sejam a necessidade da existência de mais rebanhos de ovelhas autóctones – o que implica olhar com objetividade para a realidade agrícola, para as dificuldades relacionadas com a criação e alimentação dos animais, para o número de pessoas que se dedicam ao pastoreio e ao ciclo da produção de queijo, para as consequências das alterações climáticas que têm condicionado as áreas de pastagens e aumentado as dificuldades ao nível económico/financeiro) – , mais gente a trabalhar no campo e a saber valorizar/rentabilizar as potencialidades endógenas, uma maior consciencialização de todos no que concerne à qualidade e valor dos nossos produtos regionais, optando pela sua compra e incrementando a economia local/regional.

O incentivo e apoio a projetos (como este da revitalização do genuíno cobertor de papa, cuja produção é feita, naturalmente, numa escala consentânea com a dimensão dos recursos atuais, e em função da evolução do número de encomendas) não devem ficar apenas pelas amáveis palavras de circunstância, pelas manifestações de simpatia nas redes sociais; muito menos deixar enredar a sua defesa em discussões marginais e inconsequentes. É, por outro lado, importante criar estratégias promocionais que alicercem vias de desenvolvimento e âncoras seguras.

Cobertor de Papa_HS_Fot

A utilização do cobertor de papa em calçado (é o caso dos pantufos e das sapatilhas feitas em cobertor de papa, por dentro e por fora) e vestuário tem sido uma excelente forma de chamar a atenção para potencialidades que se abrem com a salvaguarda da sua produção.

Recorde-se que no passado dia 12 de janeiro foi publicada em Diário da  a Resolução n.º 4/2026 da Assembleia da República que recomenda ao Governo o reconhecimento e a salvaguarda do Cobertor de Papa como património cultural imaterial Esta resolução recomenda ainda o apoio aos artesãos locais e o incentivo a “práticas de formação, inovação e transmissão intergeracional”.

No ponto seguinte a resolução da Assembleia da República recomenda ao Governo que “integre o Cobertor de Papa em estratégias de turismo cultural sustentável, valorizando-o como símbolo identitário e criativo da Guarda e da região das Beiras e da Serra da Estrela”, defendendo ainda a colaboração “com instituições, associações e agentes culturais na promoção contínua e divulgação desta expressão artística exclusiva, incluindo-a numa estratégia de marketing territorial com alcance nacional e internacional.”

O apoio das entidades em cuja área de competência ou influência se pode inscrever a ajuda necessária (e justa) é fundamental e outrossim a ação dos media na informação e divulgação dos produtos genuinamente regionais; é igualmente necessária a transmissão aos mais jovens do saber fazer, o envolvimento da investigação académica, uma atitude ativa dos consumidores na preferência daquilo que tem alta qualidade e matriz tradicional e portuguesa.

 

Hélder Sequeira


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Entrudo Lagarteiro é cartaz de Vilar Amargo

 

Em Vilar de Amargo, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, vai ocorrer no próximo dia 14 de fevereiro a Queima do Entrudo Lagarteiro, “um momento de encontro, identidade e memória coletiva, onde o ritual, a sátira e a celebração popular se unem.”

Entrudo Lagarteiro. Cortejo. Foto da Associação Lagarto

 

Esta celebração, promovida pela Associação Lagarto, envolve toda a comunidade. O Entrudo, figurado num boneco de palha, é contruído dias antes da queima, com roupas velhas cheias de palha.

O boneco é velado durante a tarde e sai à noite pelas ruas empedradas da aldeia, em procissão, numa marcha fúnebre que culmina com a leitura do sermão no largo da torre, a praça central da aldeia de Vilar de Amargo.

“A marcha fúnebre percorre as ruas da aldeia; a luz dos candeeiros, as sombras, as tochas de fogo, os passos, as casas e muros de pedra, bem conservados da aldeia, criam um ambiente único que envolve a marcha numa tónica fúnebre acentuada pela música e gritos de viúvas que choram o morto.” Refere uma nota informativa da Associação Lagarto.

Acrescenta que “a leitura do sermão e a queima tradicional do Entrudo são momentos altos desta celebração que vai também contar com muita animação, começando pela Caminhada Matinal no Trilho do Entrudo Lagarteiro, prosseguindo durante a tarde com vários espetáculos, Música Tradicional, Teatro de Rua e Gastronomia Local".

No Entrudo, como lembra a Associação Lagarto, “os excessos são permitidos: mulheres mascaradas de homens e homens de mulheres, com rendas e máscaras de cortiça a esconder a face, para que ninguém seja reconhecido nas pantominices que fazem uns os outros “…enfarinhar e tijenar com a fuligem das panelas de ferro era a tradição…”.

As viúvas, de negro, preparam o caldo apetitoso, nas tradicionais panelas de ferro, que será servido a todos.

A Associação Lagarto deixa o convite para uma visita à aldeia de Vilar de Amargo para participação no Entrudo Lagarteiro, lembrando que não deve ser esquecida a máscara de renda.