A localidade de Pousade, no concelho
da Guarda, tem uma profunda tradição ao nível do teatro religioso.
Este género de teatro, com raízes
profundas naquela localidade, foi alimentado ao longo de décadas pela
imaginação e improvisação de algumas pessoas daquela localidade, que concebiam
peças para serem apresentadas em datas marcantes do calendário cristão, como
sejam o Natal e a Páscoa.
Muitas delas eram transmitidas
oralmente e corriam o risco de se perderem; daí que, há anos atrás, se tenha
pensado, e bem, em verter para o papel os conteúdos dessas produções,
facilitando-se igualmente o respetivo conhecimento e a possibilidade de as tornar
objeto de estudo e investigação.
“A Paixão”, “Acto de Adão e Eva”, “O
Nascimento de Jesus Cristo”, “A Morte de Antípatro”, “A Vingança de Enoe” e
“Mártires da Germânia” são elucidativos exemplos dessas representações
populares, onde “um enorme capital de esforço, de trabalho e dedicação”, como
nos foi afirmado.
Daí que tenha sido importante o
trabalho, mormente de João Marques e outros seus conterrâneos, de “sensibilizar
a população para que fosse retomada uma tradição que se perde no tempo” – há,
naquela aldeia, manuscritos de 1898 com peças de cariz religioso e popular –
objetivo conseguido, como a progressiva adesão do público a estas
representações.
O teatro popular foi uma das
temáticas que entusiasmou José Miguel Carreira Amarelo que, como não poderia
deixar de ser, olhou com particular atenção para as tradições de Pousade,
editando dois volumes sobre o Teatro Popular. “O teatro popular é um continuum
que nunca foi abolido pelo teatro erudito de qualquer movimento literário”.
José Carreira Amarelo procurou, como
escreveu na apresentação do primeiro dos livros, “salvar do naufrágio do
esquecimento e da perda uma pequena parcela da nossa cultura popular e
regional”, destacando, por outro lado, “a perenidade e prevalência do teatro de
cariz popular a par de um outro de carácter institucional”.
Nesse seu trabalho, Carreira Amarelo
anotou que “de norte a sul do país, em Trás-os-Montes como nas Beiras, no
continente e nas ilhas subsistem, ainda hoje, representações populares
dramáticas, de carácter didático e formativo, de índole religiosa e profana,
ora com objetivos apenas recreativos, ora com fins satíricos e moralizadores”.
Nesta quadra da Quaresma em que são
promovidas diversificadas encenações ou representações sobre a temática e
tradições religiosas associadas, é oportuno não olvidar as especificidades
locais e regionais, realçando-as as suas raízes ancestrais e a matriz cultural;
assim como é justo evocar a investigação e a recolha atrás mencionadas que
devem suscitar novos estudos e abordagens, conducentes a publicações que se
afirmem com uma mais-valia em prol da salvaguarda da nossa cultura regional.
Hélder Sequeira
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