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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Jorge Esteves: um rosto da rádio e televisão


O jornalismo vive em Portugal uma “crise profunda”, considera Jorge Esteves correspondente da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, e com largos anos de experiência na atividade informativa. A sua ligação à comunicação social começou na rádio, meio que será sempre o único a permitir “estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a estação”.

Jorge Esteves nasceu (em 1965) no Ninho do Açôr, concelho de Castelo Branco, mas cresceu na Covilhã, onde acabou por ingressar na Universidade da Beira Interior. Em 2004, com a junção da RDP e da RTP numa única empresa, foi convidado a exercer as funções de jornalista e de coordenador da delegação comum da rádio e da televisão públicas que a Rádio e Televisão de Portugal decidiu criar na cidade da Guarda; frequentou a Licenciatura em Comunicação Social na UBI e completou vários cursos profissionais de Jornalismo em áreas como o Direito, Proteção Civil, Medicina Legal e Segurança Interna.

JORGE ESTEVES_rtp_ Correio Guarda

Como surgiu a tua entrada para a rádio e para o jornalismo?

Por uma situação fortuita, na altura em que frequentava o Curso de Matemática/Informática na UBI, e quando comecei a sentir que não tinha afinidades com a área onde ingressei “por engano”, comecei a colaborar diariamente nas emissões ainda “piratas” da Rádio Clube da Covilhã, como locutor e também como “uma espécie de jornalista”.

Passei a dedicar mais tempo à Rádio do que ao curso superior e acabei por ser convidado a integrar profissionalmente a equipa inicial da RDP/Centro-Rádio Covilhã, delegação que a empresa Radiodifusão Portuguesa, detentora do Serviço Público de Rádio decidiu abrir na cidade beirã.

Com o fim das Rádios Locais da RDP e a criação em 1993, de uma rede de correspondentes nacionais, com presença em vários distritos do país, acabei por ser convidado a assumir as funções na Guarda, a partir das instalações do antigo Emissor Regional e posteriormente da RDP/Centro-Rádio Guarda. Funções que em 1996 passei a acumular com as de Jornalista/Correspondente da SIC Televisão, a partir da Delegação criada na Universidade da Beira Interior.

Em 2004, com a fusão entre a RDP e a RTP acabei por ser convidado como quadro da nova empresa Rádio e Televisão de Portugal a exercer as funções de Jornalista Coordenador da Delegação Comum da Rádio e Televisão públicas, que o Grupo RTP decidiu criar no distrito da Guarda, cessando aí a colaboração com a SIC.

 

O que te fascinava mais na rádio, nessa altura?

A proximidade com o público e o território da Beira Interior, região onde por opção pessoal, profissional e familiar decidi manter-me.

Também me motivava muito a possibilidade de levar à dimensão nacional e internacional e também junto dos centros e instâncias do Poder, a voz e os anseios desta população, ainda muito amarrada e agarrada às teses da “Interioridade”…

Nas dificuldades técnicas e geográficas que enfrentava diariamente no terreno, encontrei sempre motivação extra para procurar ou inventar soluções.

 

Achas que a tua geração vivia a rádio de uma forma diferente do que acontece atualmente?

Substancialmente diferente, muito pela falta meios técnicos, de formas de fazer chegar os sons e a reportagem completa ao estúdio, de fazer pesquisa de informação ou conseguir contactar fontes. Era o tempo em que eu andava sempre com uma lista telefónica, do tipo “Páginas Amarelas” no carro, para conseguir até perceber em que zona era uma determinada aldeia ou freguesia, ou poder fazer um contacto para um Posto Público, para conseguir alguma informação útil.

Também o facto da maior parte das Rádios Nacionais não ter profissionais ou colaboradores espalhados pelo país, fazia com que fora da Grande Lisboa e do Grande Porto, em toda a parte restante do território nacional, as Rádios só falassem de alguma coisa da região, se fosse uma tragédia de grande impacto…E lembro que durante muitos anos, era só a região da Guarda que tinha a sua própria estação de rádio local, a Altitude.

 

E como conciliavas o trabalho entre a Rádio e a Televisão?

Em regra, as duas funções são exercidas em complementaridade, dando para fazer diretos seguidos ou edições diferenciadas para cada um dos meios. Sendo que em situações mais complexas, vai havendo a possibilidade de desdobrar equipas, recorrendo a colegas das delegações vizinhas, que ajudam a cumprir a missão.

JORGE ESTEVES_rtp_ (Correio Guarda)

Quando deixaste a SIC, e o teu trabalho passou a ser na rádio e na televisão públicas, houve mudanças significativas?

Posso dizer que acabou por acontecer numa altura crítica para a SIC, que até aí e logo desde a sua criação como Televisão Independente, era “A Televisão”…

A RTP estava nessa altura muito refém de algum conservadorismo e obsoletismo, e perturbada pelo fulgurante surgimento dos privados.

A TVI, antes do fenómeno Big Brother, ainda era conhecida como a Televisão da Igreja e a SIC, de Pinto Balsemão e Emídio Rangel, já tinha trilhado o caminho de conquistar públicos através de uma programação moderna e popular, produzindo ao mesmo tempo e de forma separada, uma informação irreverente e independente dos poderes, como Contra-Poder ao lado do cidadão.

Só que o facto da SIC ter abdicado do tal programa Big Brother para a TVI, veio a revolucionar as audiências, fazendo com que se entrasse num total desgoverno, com confusão de critérios entre programas e noticiários, com o sensacionalismo a tomar o lugar do rigor.

Foi a oportunidade para a RTP se reorientar, como Estação de Referência, deixando as duas Estações privadas nessa luta inglória pelas audiências e pela sua quota de mercado.

Foi esse o facto, que me permitiu ficar na condição de representante da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, com a mesma tranquilidade e autonomia profissional que tinha antes, como quadro da RDP e colaborador da SIC na região.

 

Como vês a evolução que se verificou, ao nível dos media, desde os teus primeiros anos de atividade nesta área?

A nível técnico, foi uma verdadeira revolução; com os telemóveis, os meios de direto através das redes de dados, as possibilidades de enviar ficheiros ou fazer pesquisas on-line, a quase fazerem esquecer o tempo em que se tinha de procurar um telefone fixo, para conseguir enviar um som através do encosto do gravador, ao bocal do aparelho.

Quanto à qualidade de Informação rigorosa disponível, já não vejo um cenário tão positivo…

A luta pelas audiências a todo o custo, e a confusão de públicos mal formados que não estão preparados para selecionar Órgãos de Comunicação Social credíveis; e pior ainda, para separarem o que leem, ouvem ou veem nas Redes Sociais, daquilo que é uma informação rigorosa, produzida e comunicada com critérios de ética e deontologia jornalística.

Facilita-se assim um terreno fértil, para as tão propaladas Fake-News

 

Como está hoje o jornalismo em Portugal? Achas que há uma crise no jornalismo e na comunicação social?

Uma crise muito profunda, pelas razões explanadas na resposta anterior.

As primeiras vítimas acabam por ser os profissionais mais íntegros, que deixam de ter condições para exercer a profissão com independência e condições básicas de estabilidade profissional; as seguintes são o público, que deixa de ser servido com a qualidade que só o rigor jornalístico garante.

 

Consideras que os meios nacionais, mormente aqueles com quem trabalhas, dão a devida e permanente atenção ao que se passa no interior? Há falta de recursos humanos e técnicos?

Os recursos técnicos e humanos nunca serão os desejáveis, mas a postura com que o profissional e o órgão de Comunicação Social se posicionam no território, pode fazer a diferença.

Pela nossa parte, o território poderá sempre contar com uma presença que não será nunca “só prá desgraça”!...

 

No contexto informativo, e face ao trabalho que tens desenvolvido, como vês a importância do programa “Portugal em Direto”?

É o noticiário do país, em toda a sua extensão, de Norte a Sul, do Litoral ao Interior, e nas suas duas modalidades, de Rádio e Televisão. Para informar os residentes em Portugal, mas também os emigrantes lá fora, sobre o que se passa neste cantinho.

Na Antena 1 e RDP Internacional das 13:15 às 14h, e na RTP 1 e Internacional das 17.30 às 19h. Hora de Portugal continental e ambos de segunda a sexta.

JORGE ESTEVES_RTP_1

Quais os trabalhos ou acontecimentos que te deixaram, até agora, melhores recordações? E as piores?

As piores, obviamente os incêndios e as suas consequências, e também os sustos e perigos a que nos obrigam no seu acompanhamento.

Além de todos os tipos de acidentes que provocam mortes ou ferimentos graves, ou ainda grandes prejuízos ambientais, e aos quais também não podemos deixar de garantir cobertura.

 

Consideras que na atualidade o jornalista, e sobretudo os que trabalham no interior do país, têm que “filtrar” com maior cuidado as fontes de informação?

A proximidade, por vezes traz problemas acrescidos na separação de funções entre a fonte e o jornalista.

A necessidade de triar a informação verificando a veracidade do que a fonte nos está a passar, considero que é tão evidente aqui, como em qualquer parte do mundo. O facto de numa qualquer matéria informativa, haver sempre partes interessadas, obriga o jornalista a atuar permanentemente com o devido profissionalismo, de forma a não deixar que o interesse público seja lesado, ou que uma parte mais indefesa se torne numa vítima.

 

Quais são os principais problemas com que debatem os jornalistas que trabalham no interior do país? As dificuldades são maiores?

Nos chamados territórios de Baixa Densidade, os problemas como a baixa expressão do público e de um meio empresarial que garanta um bom mercado publicitário, aumenta a dependência económica dos Órgãos de comunicação Social, de instituições como as autarquias ou os organismos desconcentrados da Administração Pública. E por arrastamento também as opções e a liberdade editorial.

 

O teu profundo conhecimento da região tem sido útil para as tuas reportagens ou diretos?

Claro que as mais de três décadas de serviço e os milhares de quilómetros percorridos, para os milhares de reportagens feitas neste território, fazem ter um conhecimento dos locais e pessoas que ajuda muito à agenda informativa e de contactos. E também facilita muito a comunicação em direto, sem recurso a cábulas ou notas escritas…

 

As agendas políticas condicionam a informação?

As agendas políticas fazem parte da informação. Deixarmo-nos condicionar por elas, ou servir-nos delas para alimentar os conteúdos, depende só da nossa postura perante elas.

 

Como vês o atual panorama da imprensa regional? A imprensa regional tem vindo a perder a influência? Corre riscos de desaparecer?

A forma de se adaptar e de se reinventar perante as novas realidades é que vai ditar o seu futuro. O setor do Multimédia e das Multiplataformas traz um novo potencial também para os órgãos regionais.

A proximidade será sempre uma vantagem a aproveitar, na relação com os públicos e os factos noticiosos.

 

E a Rádio? Como vês o presente e o futuro, no contexto regional e local?

A Rádio será sempre o único meio que nos permite estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a Estação, e podendo estar a desenvolver qualquer outra atividade, sem a perturbar. Em relação ao futuro, a resposta já a dei, anteriormente.

 

Há algum trabalho especial que gostasses de realizar, sobre a região onde tens desenvolvido a tua atividade jornalística?

Trabalhando com a independência, autonomia e liberdade com que me é permitido desempenhar as minhas funções, diria que só estou limitado pelas realidades que fazem com que alguns projetos continuem adiados e muitas potencialidades se mantenham por aproveitar.

Ou seja, é isso que faz com que haja reportagens que gostava de fazer e assim sendo, ainda não fiz…

 

E quanto a projetos pessoais, em contexto da comunicação social?

Muito sinceramente, na fase da vida profissional em que me encontro, não tenho outros projetos que não sejam, chegar à reforma com dignidade, ajudar quem me suceda a ficar com parte do meu conhecimento sobre este território, e eventualmente se houver algum interesse ou reconhecimento de utilidade na outra parte, retribuir à Rádio Clube da Covilhã, com a mesma colaboração abnegada com que iniciei todo este percurso, aquilo que foi uma carreira profissional com que nunca tinha sonhado antes.

 

Helder Sequeira /Correio da Guarda

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