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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Distrito da Guarda tem património de valia inestimável

 

O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”. A afirmação é de Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, para quem “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Manuel Ferreira Caetano é Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Mestre em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2001), com a dissertação A Ribeira de Lisboa na Época da Expansão Portuguesa (Séculos XV a XVIII) Doutor em História da Arte, especialidade História da Arte Moderna – Arquitectura e Urbanismo, pela mesma Faculdade (2012), com a dissertação As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Membro de vários centros de investigação e de diversas instituições culturais.

Ao CORREIO da GUARDA, Carlos Caetano declarou que “o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”.

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Como surgiu o gosto pela História e pela História da Arte?

Fui criado numa aldeia, numa família muito alargada, num tempo sem televisão, onde as memórias do passado eram convocadas constantemente, nomeadamente nos serões. Na minha família essas memórias remontavam a 1810 e à III Invasão Francesa, mas em nossa casa tinham o ponto alto nas exéquias do Presidente Sidónio Pais na Sé de Viseu algures em Dezembro de 1918, cerimónia em que o meu pai participara, enquanto soldado raso do Regimento local, tal como participaria nas Campanhas da Monarquia do Norte (1919), pois o regimento do meu pai era afecto à causa de Paiva Couceiro. Claro que adorava ouvir contar estas histórias, que hão-de ter alimentado o meu gosto pela História, embora no Liceu fosse um aluno de História pouco mais que medíocre e o Curso de História (Fac. de Letras de Lisboa, 1976-1981) tivesse sido uma segunda opção.

O gosto pela História da Arte há-de ter tido a mesma origem, pois já de pequenino gostava de coisas e paisagens (naturais e urbanas) bonitas. Em todo o caso, sou dos que acham que História da Arte é, antes de mais e sobretudo, História, pura e dura.

 

O património, nomeadamente monumental, do seu concelho – e da região – contribuiu para se apaixonar pela História da Arte?

Claro que sim, a começar pelo mais próximo: a terra da minha mãe (Granja), que sendo lindíssima, detém uma das mais belas igrejas do Concelho de Trancoso, passando pelas aldeias das redondezas (que ainda hoje me encantam) e sobretudo pela extrema categoria urbanística e arquitetónica de Trancoso. A bravura arquitetónica do seu castelo e das suas muralhas, em particular, ainda hoje me comove. No topo, como sempre, as magnificências urbanas e arquitetónicas da Guarda, uma das cidades mais belas de Portugal onde vim a primeira vez em junho de 1964, para fazer o Exame de Admissão ao Liceu... Como vê, motivações para viver, admirar (e estudar) este património nunca me faltaram…

 

O que destaca, no nosso distrito, em termos patrimoniais e artísticos?

Seria muito difícil escolher, entre o extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou. Sé da Guarda, Convento de Santa Maria de Aguiar, igreja de Almendra; Castelo de Trancoso ou fortaleza de Almeida, solares como o dos Távoras em Souropires (Pinhel) ou como o dos Brasis de Torre do Terrenho (Trancoso) – ou magníficas casas medievais, quinhentistas e de épocas posteriores como as que ainda se encontram um pouco por todo o distrito.

Enfim, tantos e tantos monumentos da maior categoria arquitetónica espalhados por todo distrito! Mas tão ou mais importante que este património arquitetónico é o património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…

 

Acha que o turismo cultural e o turismo religioso estão a merecer a atenção devida?

Devo dizer que no turismo distingo e abomino o turismo de massas, que não só está a descaracterizar o miolo das nossas principais cidades (o centro de Lisboa é hoje uma sombra do que era ainda há vinte anos) como brevemente se arrisca a tornar a nossa vida num inferno a todos os níveis, nisso replicando algo do que foram os efeitos perniciosos das chamadas “drogas da Índia” no século XVI.

Para lá destes efeitos tão gravosos, cumpre lembrar sempre o aviso profético do grande historiador Vitorino Magalhães Godinho, nas palavras do qual “o turismo mata os lugares históricos”,(cito de cor).

Claro que o turismo cultural tem todo o sentido – e o religioso também. Este alimentou milenarmente, em contexto pagão e em contexto cristão, as peregrinações e as romagens cíclicas aos lugares santos. Se hoje as romarias regionais não têm a expressão que tinham, tem, porém, todo o sentido visitar e organizar visitas culturais a sítios e monumentos de inegável interesse patrimonial e religioso.


Tem dedicado particular atenção ao património religioso, nomeadamente na área da Diocese da Guarda. Este património está devidamente salvaguardado e divulgado? O que é urgente e necessário.

O património religioso partilha com o património laico os mesmos condicionalismos e os mesmos problemas em matéria de conservação, reconhecimento e divulgação. Uma abordagem e uma gestão sensata e realista do património deve ter, porém, em conta que o património se constrói e se destrói naturalmente; que vive e que morre; que se faz-se e se desfaz ao sabor dos tempos e das épocas e da vontade e dos desígnios dos homens, numa dinâmica histórica inelutável e fatal em que “ceci tuera cela” (“isto matará aquilo”), nas palavras tão penetrantes de Zola.

O património vive e renova-se, cumprindo-nos conservar o passado, mas também enriquecer esse património com obras e intervenções contemporâneas muito qualificadas – e na Guarda há felizmente exemplos excecionais de renovação, nomeadamente em matéria de arquitetura e de arte sacras. Isto dito, a nossa herança patrimonial está singularmente ameaçada, não só pela passagem do tempo, que tudo leva, mas também pela intervenção desajustada (às vezes com as melhores intenções) daqueles que têm a seu cargo o seu bom uso, a sua proteção e a sua conservação. Como a generalidade deste património não é reconhecido enquanto tal, não só não está protegido como não é dado a estudar nem a conhecer.

Urgente é intervir junto das entidades que o tutelam, no sentido da sua proteção e da sua boa conservação. A curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.

 

As intervenções – que conhece – feitas em edifícios, igrejas e monumentos têm sido as mais adequadas? Quais os principais erros que tem notado?

Também neste aspeto o património religioso partilha a mesma situação que o património laico: um e outro são vítimas de intervenções muito mal aconselhadas e de resultados catastróficos.

O erro mais gritante vivido atualmente em todo o Distrito (mas também em todo o país, Terreiro do Paço incluído, e já na própria Espanha) é o da remoção dos rebocos dos edifícios históricos, isto é, daqueles que comprovadamente eram rebocados e caiados, ao serviço da moda da “pedra à vista” (ou, na Baixa Pombalina e por todo o Sul do território, do “tijolo ou tijoleira à vista”), assim se descaracterizando tanto os edifícios históricos como os edifícios vernáculos.

Esta moda é particularmente gravosa no interior das igrejas de origem medieval, pois a remoção dos rebocos históricos implica a destruição das pinturas quinhentistas (ou anteriores), ocultas sob camadas e camadas de cal, mas que comprovadamente decoravam as velhas igrejas, pois outrora era mais barato ter um retábulo, uma cortina ou uma imagem pintadas que de madeira, de tecido caro ou de vulto, respetivamente. Prova disto é a constante descoberta de pintura mural nas nossas velhas igrejas, durante as obras de conservação presentemente levadas a cabo nas nossas igrejas um pouco por todo o lado.

 

Nas suas deslocações pela região tem encontrado surpresas ou achados que constituam uma inquestionável mais-valia para o património regional/nacional?

Sim, o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas. Outra surpresa ainda - para lá da pintura mural, cuja descoberta se processa dia a dia – é a da abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados: imagens de vulto e relevos do mestre flamengo Arnao de Carvalho, de 1524, reciclados e adaptados no retábulo-mor barroco da igreja de Escalhão, como exemplo maior.

Outra surpresa são os dois chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do séc. passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.

 

Acha que há abandono ou esquecimento do nosso património, nas suas várias vertentes? Os cidadãos do distrito estão indiferentes em relação ao património?

Há abandono e esquecimento, sim – e muito, e muito grave! O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas. Ora o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente. Deve dizer-se, porém que estão a surgir iniciativas muito válidas na Guarda – a cargo da Câmara Municipal e da Diocese – para combater e começar a romper esta situação tão gravosa para o nosso património cultural.

 

Falta investigação, no nosso distrito, sobre o património cultural? E os apoios à investigação existem ou são suficientes?

Falta: em matéria de património, o território do distrito continua a ser em muito grande parte uma “terra incógnita”. Aqui ou lá fora, os apoios à investigação são sempre precários, pois não há dinheiro para tudo. Porém, os investigadores integrados têm ao seu dispor apoios institucionais de âmbito nacional.

Claro que as autoridades civis e eclesiásticas da Guarda e da região devem apoiar projetos de investigação de âmbito regional e local, nomeadamente com apoio logístico aos investigadores e até mediante o apoio à edição das suas publicações relacionadas com o património do distrito e da diocese – mas deve dizer-se que entre nós também há já exemplos de boas práticas nesta matéria.

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Considera que poderia haver uma ligação mais estreita entre as academias e o interior, ao nível da investigação sobre cultura, arte e património? O que sugere?

Considero, embora tenha que reconhecer que há já excelente trabalho feito nesta matéria, nomeadamente em disciplinas como a Arqueologia. Mas em matéria de património artístico está quase tudo por fazer.

Da minha parte, convidei já um pequeno grupo de professores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e outros amigos para visitarem parte do distrito (para começar, a parte que presentemente conheço melhor), dando a conhecer aspetos muito relevantes do nosso património cultural, mas visando também o desejável desenvolvimento de projetos de investigação sobre aspetos muito relevantes – e inéditos – deste mesmo património.

 

Tem guiado algumas visitas culturais ao património religioso do concelho da Guarda. Como surgiram estas visitas e que importância lhes atribui?

As duas visitas que guiei, a Videmonte e a Aldeia Viçosa, foram promovidas pelos serviços culturais da Câmara Municipal da Guarda (Museu da Guarda) e pelas respetivas Juntas de Freguesia. Estas visitas têm uma incidência no património global e não só no religioso, embora este tenha um destaque muito grande como é compreensível e natural num território cristianizado pelo menos há já 1500 anos.

As visitas surgiram na sequência do levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho que estou a fazer a convite da CMG. A importância das visitas é aquela que os participantes e a CMG lhe atribuírem. Por mim pretendo apenas mostrar e ajudar a ver uma aldeia como uma aldeia, uma casa como uma casa, uma igreja como uma igreja, isto é, cada uma destas realidades patrimoniais nas suas lógicas urbanísticas e construtivas, nas suas funcionalidades e na sua coerência essencial – e isto não é comum fazer-se e por vezes pode não ser nada fácil fazer-se.

Pretendo ver e ver em conjunto com os participantes cada realidade patrimonial enquanto tal, no que é e no que não é, sem quaisquer preocupações nem pretensões eruditas ou estilísticas, até porque nestas visitas não falo para estudantes de História da Arte. Neste sentido, nestas visitas guiadas a História da Arte fica no bolso e só salta cá para fora quando é preciso, para ajudar a perceber melhor o monumento que temos pela frente, pois sou dos que acham que uma aldeia, uma casa, um fontanário, um lavadouro são marcos e monumentos próprios de cada “eco-sistema” cultural, de cada complexo “histórico-geográfico” particular – para usarmos a categoria criada por Vitorino Magalhãs Godinho, que sem querer, acabo por citar pela segunda vez… Sinceramente penso que as visitas ganham por eu poder contextualizar as mais diversas componentes patrimoniais patentes em cada aldeia, o que me é muito fácil de fazer pois nasci e fui criado numa aldeia num tempo histórico (hoje desaparecido) em que a velha civilização rural ainda estava viva, no seu pleno vigor.

Por outro lado, como venho de fora do Concelho, penso que posso proporcionar um olhar “fresco” sobre o seu património, aldeia a aldeia, com o encantamento próprio de quem o descobre e o vê praticamente pela primeira vez. Penso que as visitas também ganham por eu procurar ver as aldeias, as paróquias e o seu património arquitetónico e artístico, em rede, isto é, sempre em articulação com o que se passa(va) a nível local, regional, nacional e até internacional. Com efeito, estas localidades, enquanto sede de paróquias multisseculares, integram uma rede gigantesca de paróquias que, ao contrário do que tantas vezes se pensa, não acaba em Vilar Formoso nem sequer nos Pirenéus… O “isolamento” destas aldeias ou desta região, de que tanto se fala, nunca verdadeiramente existiu no passado, pois até às primeiras décadas do século XIX esta região era muito mais aberta do que possamos pensar.

Com efeito estas aldeias desde a Idade Média que incorporavam uma rede de concelhos e de paróquias muito consolidada e muito eficaz, pois abarcava todo o território do Reino. Em contexto nacional – e internacional - as ideias e as formas circulavam; a espiritualidade e a liturgia partilhavam-se; as iconografias e as obras de arte também – e esta circulação contínua e milenar (tantas vezes ignorada ou desvalorizada por nós) contribuiu muito fortemente para modelar a nossa maneira nacional, local, regional e local de viver, de pensar, de rezar – e claro, de modelar e de defender militar e arquitetonicamente ou de sacralizar o espaço natural.

É sobre tudo isto que gosto de falar, e é isto que gosto de procurar, de descobrir e de ver (e de dar a ver) em verdadeira comunhão com os participantes nas visitas guiadas. Como se pode concluir, com objetivos destes, o Românico, o Barroco, ou categorias estilísticas afins, acabam muitas vezes por ser pouco relevantes durante as visitas, apesar de toda a importância que efetivamente tenham (e têm).

 

As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII)” é um dos seus trabalhos académicos que irá ser publicado… Fale-nos deste projeto…

Era a minha tese de doutoramento, defendida já em 2012 e que por motivos vários (sobretudo pelo seu tamanho descomunal) ainda não consegui publicar. Nesta tese procurei identificar, recensear, documentar e estudar as casas da câmara (nome outrora dado entre nós aos paços do concelho) de todos os velhos concelhos portugueses do chamado Antigo Regime, dois terços dos quais foram extintos depois da implantação do Liberalismo. Foi um projeto de investigação muito intensivo de quatro anos, dos quais dois foram na Torre do Tombo, onde encontrei documentação muito importante sobre as Beiras e a Guarda em particular.

Nos dois anos seguintes fiz uma “Volta a Portugal” intensiva que me levou a praticamente todos os concelhos extintos do Portugal das Épocas Medieval e Moderna. A estes seguiram-se quatro anos de redação, mas devo dizer e reconhecer que este projeto desmesurado, de 937+991 páginas (em qualquer país do mundo seria feito por três ou quatro equipas alargadas e bem equipadas, cada uma para sua região…), só foi possível porque teve um apoio substancial da antiga DGAE do Ministério da Educação (sou professor do 2.º Ciclo do E. Básico).

O objetivo foi conhecer as casas da câmara enquanto objeto arquitetónico, mas também enquanto cenário de um poder local multissecular, desde as origens destas casas ou paços, algures no século XIV, até ao fim do Antigo Regime (1834). No fundo foram 500 anos de arquitetura concelhia num universo de cerca de 850 antigos concelhos espalhados pelo país todo, Açores e Madeira incluídos, pois esta arquitetura concelhia constitui um corpus patrimonial gigantesco, qualificado, sumamente coerente e de uma valia arquitetónica e histórica extraordinária. Com efeito, as casas da câmara dos antigos concelhos portugueses têm tanta importância histórica e “documental” como os forais de todos os antigos concelhos, pelo que a futura historiografia dos concelhos portugueses (não gosto do termo “municipalismo”, em bom rigor inaplicável relativamente aos concelhos das épocas Medieval e Moderna), nunca mais passará ao lado do extraordinário testemunho histórico constituído por este monumental corpus arquitetónicos.

 

Quais os trabalhos que tem atualmente em curso e quais os próximos projetos, a curto e médio prazo?

Presentemente colaboro com a Câmara Municipal da Guarda, para quem estou a fazer o levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho, de que já falei acima. Decorrente deste levantamento, que me tem surpreendido pela sua quantidade e pela sua qualidade, como já disse, está prevista a realização de algumas visitas guiadas a outras aldeias do Concelho.

A curto e médio prazo tenho a publicação urgente da minha tese (o editor está sempre a apertar, mas é uma tarefa muito exigente pois, dadas as dimensões imensas do formato “tese”, houve que reduzir, adaptar e cortar, cortar, cortar, para a tornar publicável…) e a publicação de um livro para a Câmara Municipal de Pinhel, quase pronto, suscitado pelas comemorações dos 250 anos de elevação desta antiga vila a cidade e pela criação da respetiva Diocese, mas atrasado por conta da pandemia. Mais a Sul, tenho em projeto a monografia de uma belíssima casa da câmara de um concelho da região de Lisboa.

Depois destas publicações, e ressalvando os compromissos já assumidos e algumas colaborações pontuais, conto “encerrar a atividade” de investigador e dedicar-me à pintura, pois adoro pintar (afinal, eu fui direitinho do Liceu da Guarda para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa…), o que já não faço há 25 anos.

 

Como vê a Guarda e o distrito em termos culturais? O que falta e o que poderia ser feito?

Acompanho muito mal a vida cultural da Guarda e do distrito, pois vivo em Lisboa, mas sei que hoje existem equipamentos culturais excelentes, creio que em todos os concelhos do distrito. Sei também que existem algumas actividades culturais importantes. Tive oportunidade de assistir à estreia absoluta da ópera Felizmente há Luar, de Alexandre Delgado, no TMG, uma iniciativa que temos que aplaudir da forma mais efusiva (apesar das inconsistências músico-dramatúrgicas desta primeira versão da ópera).

Parece-me, porém, que a vida cultural na Guarda e no seu distrito sofre de três problemas principais:

1- Falta de estruturas de produção cultural local, sobretudo a nível das chamadas artes performativas, teatro e música em particular. É inconcebível que os espaços culturais modernos que se espalharam por todo o distrito não sediem ou acolham em permanência estruturas de produção cultural, sobretudo teatro e música, minimamente consolidadas, sejam elas amadoras ou profissionais.

2 - Falta de atividades culturais mais frequentes nomeadamente em matéria de teatro e de música erudita, com o consequente défice de formação e de renovação de públicos.

3 - Falta de colaboração dos concelhos do distrito, uns com os outros, (também) em matéria cultural, o que a meu ver é absolutamente incompreensível, nomeadamente por implicar um enorme desperdício e esbanjamento dos recursos e dos investimentos feitos localmente, concelho a concelho. Não há sentido que as exposições mais importantes não circulem pelo maior número possível de concelhos do distrito; não há sentido que os diversos concelhos não se unam para financiar a formação, organização, gestão e financiamento de uma companhia de teatro inter-concelhia, de padrões profissionais mínimos (sim, eu sei: a CM de Lisboa não tem nenhuma, mas em Lisboa há companhias de teatro para – quase – todos os gostos…), de modo a poder exibir-se por todos os concelhos do distrito. Acho que faz falta a criação de uma companhia “distrital” de teatro, profissional, despretensiosa e verdadeiramente popular, isto é, nos antípodas dos elitismos e dos vanguardismos e dos pseudo-vanguardismos correntes, de que sofrem tantos “programadores” e “directores artísticos” que hoje tutelam estruturas nacionais, regionais e até locais de produção artística, com nítido prejuízo dos públicos locais, que não têm que alimentar nem ficar reféns do snobismo provinciano, nem do ego, nem do umbiguismo inflamado de “agentes artísticos” sedentos de afirmação e sempre atrás da última moda, só porque sim.

Enfim, de que é que estamos à espera para criarmos planos inter-concelhios, que envolvam o maior número possível de concelhos, para a realização regular de concertos populares de música (clássica e outra) ou de sessões populares de cinema, a apresentar nas cidades e no maior número possível de vilas e aldeias do distrito, ampliando, consolidando e aperfeiçoando as experiências que já se têm feito, ou que estão presentemente em curso, nestas áreas?

 

HS/Correio da Guarda

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Daniela Capelo preside ao Conselho Regional da CCDR Centro

 

Daniela Capelo foi eleita hoje como presidente do Conselho Regional da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.


Foto: CMPinhel

A Presidente da Câmara Municipal de Pinhel vai dirigir o Conselho Regional da CCDR durante os próximos quatro anos.

O Conselho Regional elegeu também Jorge Conde, ex-presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, como vice-presidente do Conselho Diretivo da CCDR Centro.

A nova Comissão Permanente do Conselho Regional da CCDR Centro passa a ter como presidente Daniela Capelo (presidente da Câmara Municipal de Pinhel),

vice-presidente António Ribeiro (presidente da Câmara Municipal de Seia), vice-presidente António Franco (presidente da Câmara Municipal da Mealhada) e como vogais Joaquim do Amaral, (presidente da Câmara Municipal de Nelas), Ana Paula Duarte (reitora da Universidade da Beira Interior), Carlos Rabadão (presidente do Instituto Politécnico de Leiria) e José Couto (presidente da direção Câmara de Comércio e Indústria do Centro).


Galo vai ser julgado na Guarda


O Julgamento e morte do Galo do Entrudo vai decorrer no próximo dia 15, integrado no programa do GuardaFolia, atividade a decorrer de 7 a 17 de fevereiro na cidade mais alta de Portugal.

“Já foi ópera, festival da canção e até espetáculo de marionetas gigantes. Este ano, o Julgamento do Galo, catarse coletiva da Guarda, sobe ao palco em formato Wrestling! Em 2026, na Guarda, expiamos os males do mundo com uma Luta de Galos, no Domingo Gordo de Carnaval”. Pode ler-se numa nota informativa da Câmara Municipal da Guarda, que organiza este evento.

O Julgamento e Morte do Galo, ponto alto do GuardaFolia 2026, será este ano uma produção do Teatro do Calafrio, “numa criação satírica, feroz e delirante sobre poder, 'showbiz', vigilância e eterna luta por ocupar o poleiro.”

O espetáculo, a iniciar pelas 18h30 de Domingo Gordo (dia 15 de fevereiro, na Praça Luís de Camões, após o desfile das freguesias), terá como ponto de partida um grande 'show-trial' onde será decidido o destino do Galo, numa mistura de justiça, manipulação e intriga. No centro estará o galináceo concebido pelo artista plástico Rui Miragaia. O espetáculo terá texto de Pedro Dias de Almeida e direção artística de Simão Barros.

 


O enredo, que culminará obviamente com a condenação do Galo à fogueira, decorre num tribunal transformado numa arena de 'Luta de Galos': quatro combates híbridos entre 'wrestling', MMA e lutas clandestinas, onde cada galo-personagem disputa o poleiro supremo, o trono frágil do poder.

No centro de tudo, um Showman omnipresente e omnipotente, parte apresentador de 'reality show' parte tirano, que controla a narrativa, manipula o público e guia o caos como quem muda canais.

À sua volta, a maquinaria judicial distorce-se até ao grotesco. Entre golpes coreografados, intrigas sujas e discursos inflamados, as lutas revelam não só as ambições dos galos, mas também a fragilidade das estruturas que fingem manter a ordem. Tudo culmina num ritual final em que o Galo é condenado, queimado e purificado não pelo peso da justiça, mas pela voracidade do espetáculo.


(Re)Conhecer a Toponímia…

 

Guarda - Rua dos Clérigos - Foto Helder Sequeira.

Por várias vezes escrevemos sobre a importância da toponímia, em cujo âmbito cabem múltiplos contributos e ações que podem suscitar uma ampla diversidade de estudos.

Se a investigação que pode ser desencadeada permitirá, por um lado, um enriquecimento cultural e o reforço da identidade local, por outro, irá identificar situações que exigem uma adequada e correta intervenção.

Independentemente das conjunturas, deve mover-nos uma Guarda da memória, a preocupação por uma cidade que preserve a sua história, dignifique os seus valores, honre os seus pergaminhos, mas saiba construir pontes sólidas para o futuro, envolver colaborações qualificadas, motivar o empenho dos seus habitantes, conquistar quem nos visita. “As cidades são como os homens; têm ou não carácter – e a tê-lo importa preservá-lo”, como escreveu Eugénio de Andrade.

A Guarda é muito mais que o património edificado; é memória, é somatório de vidas, experiências, é (deve ser) um pulsar coletivo, permanente. É imperativo de consciência e cidadania assumir-se uma atitude crítica, uma intervenção constante em prol do nosso espaço coletivo, de referência e de vivências. “O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa” e, como acrescentava Marc Bloch, “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.

Através da toponímia – tema que dá o mote para estas anotações – podemos abrir portas para o conhecimento do passado. Assim, poderemos começar por nos interrogar acerca da atenção que damos à toponímia, aos suportes físicos dos topónimos que condensam em si informação preciosa. Para além da necessidade de substituição de muitas placas, de forma a ser viabilizada uma clara identificação, importa lembrar a importância em associar anteriores denominações toponímicas. Sabemos que foram muitas as alterações toponímicas introduzidas ao longo do tempo.

Como escreveu Pinharanda Gomes, “na Guarda, e no decurso do nosso século [vinte], tem-se cometido, repetidas vezes, aleatórias modificações de toponímicos, dificultando ainda mais as tarefas dos que, por exemplo, dedicados a pesquisas arqueológicas, poderiam atacar desde logo o sítio exato, caso a memória do nome se mantivesse”.

Em vários casos, a designação atual de artérias citadinas é preterida, mercê do enraizamento de hábitos, ao antigo topónimo. Como exemplo, na Guarda, poderemos evocar a Rua Francisco de Passos que continua a ser designada, pela generalidade dos guardenses, como Rua Direita. O seu nome lembra o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de junho de 1926 e 25 de agosto do ano seguinte. Esta rua, recorde-se, constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

As alterações de nomes podem ser minimizadas, nestes como noutros casos, com a referência à anterior designação; aliás as novas placas toponímicas da Guarda, que estão a ser progressivamente introduzidas, já contemplam essa informação, quando é caso disso; essas placas, equipadas com “QRCode”, permitem aos transeuntes obter indicações sobre o nome ou facto referenciados. “Restaurar é restituir. A restituição da toponímia é um ato de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade, de abandono de opções adventícias, por vezes decorrentes das situações políticas, e, por fim, de entrega aos arqueólogos e aos historiadores, de uma nova fonte documental para historiografia a fazer”, tal como anotou Pinharanda Gomes, num dos seus livros.

A toponímia da Guarda é um vasto campo para estudo e investigação e pode levar-nos à (re)descoberta de múltiplas facetas do seu passado, validado por mais de oito séculos de história, enquanto urbe. Neste contexto, justifica-se a edição de um trabalho atualizado, com informação documental pertinente para simples consultas ou para subsequentes investigações.

Recorde-se que a “Toponímia Histórica da Guarda”, da autoria de Vergílio Afonso, foi editada em 1984. Desde essa altura a cidade cresceu, foram criadas novas ruas e urbanizações, atribuídos muito novos topónimos. É certo que têm sido publicados alguns artigos e livros sobre toponímia, como é o caso de “A Toponímia da cidade da Guarda e a construção da memória pública no século XX”, da autoria de Maria José Neto, editado em 2013. Uma obra com o propósito de esclarecer como “as alterações de ordem política interferem na actualização e construção da memória pública”, através da qual foi feito “o levantamento dos topónimos existentes no início do século XX para (…) se identificarem, nas nomeações e renomeações das vias, os topónimos de continuidade e de ruptura com a conjuntura vigente. Caracterizado o espaço do centro histórico no início do século XX, acompanhou-se a expansão da urbe até ao ano de 1980, identificaram-se os protagonistas e os ritos usados na criação da memória pública.” Como escreveu, então, a autora.

Em 2015, o Politécnico da Guarda publicou o livro "Desafios e Constrangimentos do Estudo da Toponímia – intervenções e contributos”, na sequência de um fórum, com várias edições, sobre a mesma temática. Nos últimos anos, com maior ou menor regularidade, têm sido publicados alguns trabalhos incidindo sobre diferentes personalidades consagradas na toponímia guardense.

Ainda que as novas tecnologias e os equipamentos de comunicação hodiernos facilitem o acesso a muitos dados, isso não exclui a importância – para o presente e para o futuro – de uma publicação, abrangente e com múltiplos contributos interdisciplinares, sobre a Toponímia da Guarda; com rigor, ilustrada, de consulta fácil, acessível e útil à generalidade dos cidadãos, residentes ou visitantes.


Hélder Sequeira

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A propósito de Ernesto Pereira

 

Jornalista, advogado e jurista, Ernesto Pereira nasceu na Guarda a 9 de fevereiro de 1903.

Para a posteridade deixou múltiplos, quanto dispersos, testemunhos das suas observações, análises; sustentadas numa inteligência lúcida e brilhante, num trabalho determinado em prol do desenvolvimento da sua cidade.

Embora o seu espólio não seja muito vasto, legou-nos textos de excelente recorte literário, a par de outros onde emergem as suas convicções, a postura moral, uma personalidade forte, uma cultura vasta.

Licenciado em Direito, a paixão pelo jornalismo cresceu progressivamente, e em paralelo, com a sua dedicação à causa da Guarda; no início de 1926, fundou o jornal a Actualidade, projeto que prosseguiu um ano depois em Pinhel, onde se radicou por motivos de ordem profissional.

Naquela cidade integrou a Comissão Orientadora da Frente Única Republicana, empenhando-se, por outro lado, na revitalização da corporação dos Bombeiros Voluntários. Fundou, na cidade falcão, o Colégio, do qual não pôde ser diretor porque o Ministério da tutela o considerava da oposição ao sistema político vigente.

Como por várias vezes deixou claro, o causídico guardense não era pessoa para desistir perante as contrariedades. “Por mil vezes que a pedra se despenhe, voltarei, com muitos esforços, canseiras e sacrifícios, a empurrá-la. E nunca desistirei – porque nunca desiste o homem verdadeiramente digno desse nome”; uma predisposição que demonstrava também na barra do Tribunal, independentemente da complexidade dos processos, servindo-se das suas qualidades oratórias, em tantas ocasiões postas ao serviço de casos que sabia, à partida, dificilmente seriam remunerados.

Num processo julgado no Tribunal da Guarda, em que eram acusados alguns estudantes por desrespeito a um agente da autoridade, Ernesto Pereira assumiu a defesa dos jovens, sem indagar ou avaliar as possibilidades económicas dos mesmos; dirigindo-se ao Juiz, sustentou que “tão digna é a toga que V. Exª usa como a capa negra de um estudante”.

Depois de uma passagem, profissional, pelo Porto voltou à Guarda onde, a partir de 1942, foi editor da Revista Altitude. Lutou pela criação do Museu da Guarda onde viria a assumir funções diretivas.

Ernesto Pereira -.jpg

Empossado no cargo de Presidente da Câmara Municipal da Guarda em 1946, empenhou-se, desde logo, na construção do Hotel de Turismo, na linha dos argumentos que há muito vinha divulgando acerca da urgência de a cidade se desenvolver do ponto de vista turístico.

Por certo seria a pensar nos potenciais visitantes que, junto da Direção Geral da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, defendeu a “justa regalia de que a Guarda sempre gozou por poder dispor de uma carruagem direta Guarda/Lisboa – regalia que certamente não lhe será negada”.

Os problemas urbanísticos estiveram, igualmente, no rol das preocupações do edil guardense. A localização do Colégio Feminino, o novo Cine Teatro, a regularização do Bairro do Bonfim (e da entrada da cidade por esse lado), a abertura dos arruamentos de acesso à Sé, bem como a urbanização da Guarda-Gare foram assuntos devidamente equacionados junto das entidades por quem passava a sua resolução.

No ano seguinte foi nomeado Governador Civil da Guarda, cargo no decorrer do qual procurou afirmar o distrito e incrementar o seu desenvolvimento através de eixos rodoviários e ferroviários; neste último plano, para além das atenções que dedicou às linhas da Beira Alta e Beira Baixa, defendeu a “necessidade urgente de prolongar até Barca de Alva a marcha do comboio diário que sai do Porto, cerca das 15.55 até ao Tua (...). Levar tal comboio até Barca de Alva representa um valioso benefício para as populações do Douro, tanto do lado da Beira e distrito da Guarda, como do lado de Trás-os-Montes e distrito de Bragança”.

Ao longo do período em que desempenhou as funções de Governador Civil, o relacionamento com as autoridades espanholas da província de Salamanca inscreveu-se nas suas prioridades de atuação, procurando incrementar contactos oficiais e pessoais, certo de que seria uma excelente fórmula para resolver muitas questões resultantes da convivência fronteiriça.

Na cidade, o seu círculo íntimo de amigos integrava o Dr. João de Almeida e o Dr. João Gomes (advogado, democrata convicto, opositor ao regime e que foi, como é do domínio público, uma das mais prestigiadas e consideradas personalidades políticas no pós-25 de Abril).

Em 1952, Ernesto Pereira deixou a Guarda para tomar posse como Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas, passando a residir em Lisboa, onde, com frequência, recebia os amigos mais chegados, como António Andrade, Ladislau Patrício, e José Domingues Paulo (uma das grandes amizades dos seus últimos anos).

O seu irmão Abel Pereira (conhecido jornalista do Diário Popular) era outra das presenças, frequentes, na sua casa, onde viria a falecer em Julho de 1966.

A figura deste guardense não se pode analisar fora do contexto da sua época, e desarticulada de um conjunto de determinantes pessoais e familiares. Ernesto Pereira é, sem dúvida, um nome grande da Guarda, cidade onde deixou obra feita ou definida; os regulares contactos ou o convívio com personalidades politicamente posicionadas, não significaram, necessariamente, o partilhar de ideias e objetivos, sobretudo quando se tinha um rigoroso conceito de amizade e um espírito de permanente defesa da liberdade de expressão e pensamento.

Era um homem que procurou sempre a verdade, “essa doce miragem que perpetuamente fascina”, como escreveu em 1926.

A cidade de Pinhel tem o seu nome consagrado na toponímia local, o mesmo acontecendo na Guarda; cidade que não deve esquecer esta carismática personalidade do passado século (como advogado, como jornalista, como autarca, como Governador, como Juiz) .

 

Hélder Sequeira 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

António Arede: a Rádio é uma paixão

 

António Arede nasceu para a rádio (por quem continua a nutrir uma grande paixão) na Guarda; precisamente na estação emissora que em 1948 começou a emitir oficialmente na cidade mais alta de Portugal.

A sua atividade radiofónica começou em 1973/74 na Rádio Altitude, tendo passado depois pela Rádio Renascença entre 1975 e 1990. No tempo das rádios-piratas iniciou a colaboração no RCI, desde a sua criação, projeto que acompanhou nas diversas fases de expansão até à passagem para as instalações atuais.

Respeitado no meio rádio e do jornalismo pela sua larga experiência e pela sua exigência em termos de rigor e qualidade dos trabalhos que produz, António Arede é igual a si próprio, com inquestionável competência e saber, elevado sentido de humanidade e grande cordialidade.

Do seu percurso profissional destaca-se ainda a passagem pela RDP/Centro (Antena 1) e, mais recentemente pelo grupo Media Capital Rádios - Rádio Clube Português, Rádio Clube e pela M80 Rádio.

Com 70 anos, António Arede continua a fazer e a viver a rádio, sempre com a mesma entrega e paixão, abrindo igualmente porta para outra atividade que o tem entusiasmado, de que fala ao CORREIO DA GUARDA. “Hoje passo música dos anos 80 em todo o lado. Cada noite é um sucesso!...”

António Arede - estúdio da Rádio Altitude .jpg

Quem é o António Arede?

Jornalista, 70 anos de idade, apaixonado pela rádio e comunicação, tendo também a atividade de Dj como complemento.

 

És um apaixonado pela rádio e pelo jornalismo. Quando começou essa vocação?

Em finais de 1973, então pela mão do correspondente da RTP em Viseu, José Ayres, que pelos seus conhecimentos no meio conseguiu a minha entrada como colaborador da Rádio Altitude para a área da animação, na altura locução.

 

Nos tempos do liceu o som e a música envolveram-te em atividades. Que recordações gostarias de deixar aqui?

A criação, em 1973, de um núcleo de rádio no liceu, que transmitia música nos intervalos das aulas, através de um sistema interno de som, com colunas instaladas nos recreios e sala dos professores.

Tratava-se do grupo Geração de 60, que também implementou no liceu um grupo de Teatro e um jornal com o mesmo nome (Geração de 60), que na época era impresso em tipografia.

Ainda fiz parte do grupo de Teatro como ator e mais tarde como sonoplasta, uma vez que sentia queda para essa área.

 

Nessa época a inclinação era mais para a Rádio ou para o Jornalismo?

Na época a inclinação era mais para a área da rádio (animação), visto que o conceito de jornalista de rádio ainda não estava criado, as notícias eram lidas de recortes de jornais por alguém que tivesse a melhor voz.

 

A imprensa não suscitou tanto a tua atenção? Porquê?

Na altura não sentia interessa pela imprensa escrita, também porque nunca pensei vir a ser jornalista, e mesmo como jornalista sempre privilegiei o sector rádio, tirando uma pequena experiência na imprensa (jornal Notícias da Tarde, do Grupo JN) e a Agência de Noticias ANOP.

 

Desde cedo tiveste o teu próprio estúdio, com equipamento diversificado, e já distinto na época. Fala-nos dessa época e do trabalho que foi desenvolvido.

Em 1973 estava mais virado para a locução em rádio…era um mundo para mim; depois com o avançar dos anos, em 1975/76, tornei-me correspondente da Rádio Altitude em Viseu.

Foi a partir daí que desenvolvi as minhas próprias instalações criando um sistema para envio do som para a rádio via telefone com mais qualidade, facto que veio a evidenciar-se mais tarde também com a minha entrada para a Rádio Renascença, em 1976; estação que viria a abraçar através da influência do Antunes Ferreira (da Rádio Altitude) e do José Ayres de Viseu.

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Há algum equipamento, adquirido, que te tenha deixado um entusiamo especial? Gravadores de bobines…?

Tenho ainda alguns gravadores de cassetes da época… uns funcionam, outros não; um pequeno OB (como se chamava na altura) para tratamento do som no envio pelo telefone e uma máquina de bobines, que pouco usava na altura, tirando a TANDBERG de fita, portátil, da Rádio Altitude ou a UHER da Rádio Renascença.

 

Recordas-te dos teus primeiros vinis? Quais eram os cantores ou grupos preferidos?

Tudo o que tocava na altura. Eu comprava muita música de vinil, singles e Lps…todo o dinheiro que os meus pais me davam eu investia em música…ainda hoje possuo uma discoteca de milhares de exemplares em vinil e também agora em Cds

Quanto aos grupos preferidos da época, não posso deixar de referenciar os Beatles, os Rolling Stones, Creedence Clearwater Revival, Led Zeepllin, Pink Floyd,entre outros .

 

 

Ainda conservas os teus primeiros vinis? E cassetes?

Conservo tanto os vinis como as cassetes. Aliás no estúdio de radiodifusão que possuo atualmente, embora seja um estúdio moderno já com equipamento digital, também tem gravadores de cassetes a funcionarem, de onde destaco os velhinhos Marantz profissionais portáteis PM222.

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Por essa altura acompanhavas, com frequência o José Ayres (que além de distinto fotógrafo trabalhava para a RTP). Qual foi a influência dele na tua atividade no campo da comunicação social?

Teve toda a influência. Aliás foi através dele que entrei no mundo da rádio e da comunicação…Foi a sua influência que conseguiu a abertura de portas na Rádio Altitude, a minha porta de entrada na Comunicação Social.

Outro homem muito importante para a minha integração foi o Antunes Ferreira que, desde o primeiro momento, me deu a mão e me ensinou bastante, tendo sido a influência para a minha entrada na Rádio Renascença.

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Como surgiu, e quando, a tua ligação com a Rádio Altitude?

Como já expliquei a minha ligação com a Rádio Altitude surge em finais de 1973 princípios de 1974… recordo-me que o meu programa que era gravado, começou ainda no tempo da censura.

Na altura a RA tinha dois administradores, o Antunes Ferreira e o Carvalhinho que era quem censurava os textos dos programas, e as notícias que iam ao microfone, pela voz do Vaz Júnior

 

Quais foram os teus primeiros trabalhos informativos para a Rádio Altitude?

Não me recorda já bem do ano, mas talvez em 1976. Eu ficava fascinado com a forma como se trabalhava... as gravações dos RMs (registos magnéticos) na “Ferrograph” (máquina profissional de fita magnética), onde se inseriam sem qualquer critério de importância de alinhamento as gravações a incluir nos noticiários do RA.

FERROGRAPH - foto.jpg

Foi reformada a redação talvez pelo ano de 1977/78 e foi criada uma redação em Viseu. Na altura tomávamos conta das notícias o Helder Sequeira, o Francisco Carvalho, o Emílio Aragonez, o António José Teixeira e eu.

Viseu enviava um pequeno noticiário com notícias da região que era inserido no noticiário das 12h30. Como a Rádio emitia em Onda Média, ouvia-se bem na região de Viseu, o que justificou a criação de uma segunda redação.

Eu gravava em minha casa as intervenções dos correspondentes da região de Viseu e inseria nos noticiários da Guarda, com outras noticias de Viseu... depois a redação da Guarda prosseguia o noticiário

radio altitude - edifício .jpg

Asseguravas a cobertura informativa, quase diária, para os noticiários da Rádio Altitude. Como tinhas estruturada a tua rede de correspondentes e as tuas fontes de informação?

Criei então uma rede, que contemplava um correspondente em cada concelho, embora na prática só intervinham com a sua voz gravada os correspondentes de zonas onde a rádio entrava e era ouvida.

Os correspondentes eram a minha fonte de informação...depois havia a imprensa regional da época e os contactos na polícia e no hospital…tudo era tido em conta.

 

Que equipamentos utilizavas e como era feito o envio para os estúdios na Guarda?

O envio era feito pelo telefone através de um OB, muito rudimentar, construído por mim, embora mais tarde utilizasse o Shure da Rádio Renascença, uma vez que estava a trabalhar também com eles na área da informação.

Aquilo era uma pequena caixinha que se ligava através de duas pinças à caixa do telefone…depois punha-se o gravador em formato de gravação para amplificar a voz e o som lá saia com qualidade, muito diferente do som normal de telefone…(também servia para gravar os correspondentes) porque recebia e enviava pelo mesmo modo …mais tarde vieram os híbridos telefónicos e tudo ficou mais simples

 

Asseguravas também a cobertura do desporto?

Penso também que sim, embora só as notícias…que eram depois escrutinadas pela equipa do desporto do RA, mas não fazia relatos

 

Em Viseu a tua atividade dinamizou várias iniciativas, que tiveram como palco o Rossio e a Feira de São Mateus. O que recordas desse período?

O aniversario do meu programa de rádio no Altitude…o “Tempo de Juventude” que era gravado em Viseu nos estúdios da Electro Carmo, que a empresa criou para eu poder gravar em Viseu as emissões.

Na festa da aniversário que decorreu no Pavilhão da Feira de S Mateus foram envolvidas várias associações de Viseu e contou com teatro, folclore e grupos musicais.

A Rádio Altitude decidiu, então, vir a Viseu nesse dia com o Antunes Ferreira e o Luís Coito para me entregarem pessoalmente nesse espetáculo a medalha dos 25 anos do RA.

 

Quais os/as colegas que recordas dessa época, em Viseu e na Guarda?

Na Guarda o Abel Vergílio, o Vaz Júnior, o António Pinheiro, o Emílio Aragonez, o Antunes Ferreira, o Luís Coito, o Luís Coutinho, o Padre Vergílio Arderius, o Francisco Carvalho e o Helder Sequeira, entre outros.

 

As pessoas identificavam-no no exterior, reconheciam a tua voz? Como era a reação das pessoas?

Tinha uma voz que era agradável, e as pessoas identificam-me pela voz …eu era o magrinho da voz forte

 

O teu percurso na Rádio passa também pela Guarda onde tiveste funções diretivas no Altitude. Era a época das novas estações de rádio e de novos desafios. O que significou para ti esse tempo?

Foi uma grande experiência para mim ter vindo da RDP para a direção da Rádio Altitude, a convite da então Governadora Civil da Guarda, Marília Raimundo e do Helder Sequeira… Na altura ainda funcionava a onda média, mas já tinham o FM, e eu criei duas programações distintas, uma para FM outra para Onda Média.

Vim também a dirigir a informação da rádio, criando uma agenda de serviços para cobertura de acontecimentos, mas os tempos eram outros… havia outras ferramentas…surgiram os primeiros computadores então oferecidos pela Governadora Civil que vieram facilitar em muito a missão.

Os jornalistas escreviam as notícias à mão, mais tarde na máquina de escrever e por fim nos computadores onde se podia guardar tudo…foi a revolução; na técnica também deixamos de gravar em fita para passar a gravar em computador o que simplificou as coisas.

 

Como vias a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? Há algum episódio que te tenha marcado?

 

A Rádio Altitude tinha muito prestígio na cidade e na região. A voz do Altitude era respeitada por todos.

As pessoas ligavam para a rádio para dar a conhecer este ou aquele acontecimento…até nos acidentes era para nós que as vezes ligavam primeiro.

 

Para além do Altitude há também uma ligação profissional a outras estações, nomeadamente à Rádio Renascença? Fala-nos dessa atividade e das estações onde ocorreu o teu trabalho como jornalista.

 

Como já referi anteriormente a minha ligação à RR passa pelo Altitude…fui indicado pelo Antunes Ferreira, quando a RR criou a equipa nacional de correspondentes distritais.

A RA era o correspondente na Guarda da Rádio Renascença e eu era o Correspondente de Viseu.

 

Até agora qual foi a tua experiência mais positiva na rádio?

A mais positiva foi o ter de assegurar a direção geral de uma rádio em Viseu (Rádio No Ar) e reformatar toda a programação, criando tipologias de programas de acordo com o publico alvo /ouvintes do segmento rádio.

Ao organizar a equipa, consegui aperceber-me das vocações de cada um e todos foram colocados no lugar certo, executando as funções para as quais estavam vocacionados (animação, jornalismo/noticiários/ reportagem de rua, e entrevista em estúdio), pelo que o resultado final foi fabuloso. A rádio subiu as audiências e começou a faturar em publicidade.

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A rádio do passado e do presente: diferenças, semelhanças, desafios?

Eu penso que no meio rádio no passado havia mais criatividade.

Os programas eram de autor, pensados e idealizados com muito cuidado. Escolhia-se criteriosamente a música a passar e os textos para complementar a produção dos conteúdos. Hoje as rádios passaram a ser playlists musicais...e são quase todas iguais nos conteúdos, o que é mau…faltam os programas de autor

 

Hoje é mais fácil o acesso à produção de programas de rádio?

É tudo mais fácil, devido às ferramentas existentes… as novas tecnologias. Hoje pode fazer-se rádio na Web a partir de casa, com pouco equipamento e muita qualidade. A informática veio revolucionar o meio rádio.

 

Atualmente, e sem perderes a tua ligação à música dos anos da tua geração, tens também trabalhado como DJ. Como surge esta faceta?

A atividade de DJ surge numa altura em que entro para o Grupo Media capital rádios, - Rádio Clube Português – Rádio Clube (projeto de rádio informativa) e M80 Rádio. Foi aqui que despertei a vocação de DJ ao ver os colegas de Lisboa a passarem música em festas da Rádio.

Aproveitei a minha passagem por Lisboa e tirei lá o curso de Dj no Centro de Formação para DJs da Pioneer (i4DJ). Tirei dois cursos e hoje passo música dos anos 80 em todo o lado. Cada noite é um sucesso!... Sou requisitado para muitas atuações, tendo os meses quase sempre fechados com datas para tocar, aos fins de semana.

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É um trabalho que gostas de fazer?

Adoro pelo contacto com as pessoas, …depois é o tipo de música que faz mexer toda a gente.

 

Que outras coisas gostas de fazer nos teus tempos livres?

Oiço muito rádios estrangeiras temáticas, para ver as tendências e os estilos, gosto muito de ler, procuro estar ao par das inovações tecnológicas do meio rádio, e ver televisão, noticias, filmes e música. 

 

Como vês hoje a Guarda? Acompanhas o que se passa aqui?

Não estou muito a par do que passa na Guarda atualmente, mas devo confessar que gosto muito das pessoas da Guarda… sempre me trataram muito bem e souberam respeitar o meu valor.

 

Achas que as cidades da Guarda e Viseu estão mais próximas?

Acho que sim, mas no campo político a aproximação devia traduzir-se em cooperações mais alargadas que fomentassem mais valias para ambas as cidades.

 

H.S.