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quarta-feira, 25 de março de 2026

Para além do sonho interrompido...

 

É como um Santuário, a Guarda. Vêm aí acolher-se milhares de crentes da Religião da Esperança, pedindo o restabelecimento da saúde e da vida; a volta do seu sonho interrompido”. Escrevia José Augusto de Castro, no início do século passado, a propósito desta cidade e do seu Sanatório, que foi uma referência nacional, insituição de que falaremos amanhã no Museu da Guarda (no âmbito do ciclo de palestras promovido pela Ordem dos Médicos).

A história, as sucessivas reivindicações de salvaguarda de um património ímpar têm merecido um impressionante alheamento ao longo de décadas;  há cerca de quatro anos atrás foi dado  a conhecer que os investimentos a realizar no Hospital Sousa Martins estavam centrados nas obras mais urgentes; na mesma altura a autarquia guardense mostrou a disponibilidade de colaboração com o objetivo de se conseguir-se a recuperação dos centenários pavilhões do Sanatório. Ao longo dos meses outras intenções, governamentais ou de responsáveis hospitalares, têm sido expressas, balizando promessas…

Os referidos pavilhões são símbolos de um período difícil em que se travou a luta contra a tuberculose. “Foram anos de luta pavorosa, /porém um dia o triunfo canta e reza”, anotou José Augusto de Castro num dos seus poemas.

Natural do concelho da Meda, concretamente da freguesia da Prova, José Augusto de Castro nasceu em1862; foi uma das principais figuras republicanas da Guarda

Durante a meninice aprendeu com o seu progenitor o ofício de alfaiate, profissão que lhe granjeou o sustento, a par do apoio à família, quando – com apenas 14 anos – foi para o Porto. Nessa cidade, fruto dos contactos que manteve, e do ambiente político que se vivia, foi crescendo a sua simpatia e interesse pela causa republicana.

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Em 1886 José Augusto de Castro voltou para junto da família, que residia, então, na aldeia do Vale (Meda), mas ali ficou por pouco tempo; decidiu partir para o Brasil, onde estava estabelecido o seu irmão mais velho. Os seus primeiros trabalhos jornalísticos são escritos na Baía, cidade onde singrou no ramo comercial.

Atingido pela tuberculose veio para a Guarda. “A crueldade do Destino não impediu que me envolvesse a bondade de amigos de nobilíssimo coração, a começar pelo Dr. Lopo de Carvalho, o ilustre médico, especialista da tuberculose, que tomou a peito arrancar-me da garra dilaceradora doença temerosa”. Grato ficou também ao Dr. Amândio Paul, segundo diretor do Sanatório Sousa Martins.

Este foi um período que o marcou profundamente, dele tendo ficado numerosas referências na sua produção literária. Na Guarda fundou, em 1904, “O Combate”; este jornal (que dirigiu até 1931) consubstancia a sua personalidade, o ideal republicano, o espírito combativo e a expressividade da sua escrita.

Tendo desempenhado as funções de Secretário da Câmara Municipal da Guarda (a par de outras atividades nesta cidade), José Augusto de Castro, após deixar de dirigir aquela publicação periódica, foi viver mais tarde para Coimbra, onde morreu a 13 de maio de 1942. Os seus restos mortais foram transladados, em setembro do ano seguinte, para a Guarda, a cidade que ele sempre distinguiu. “Outras terras mais lindas há, de certo…/Porém nenhuma fica assim tão perto/ do puro azul do céu de Portugal”.

Anotando, assim, uma efeméride, concluiremos dizendo que mesmo em tempo de céu cinzento e de enormes preocupações não devemos perder a serenidade, capacidade reivindicativa e o sentido das nossas responsabilidades, consentâneas com a gratidão para quantos pensaram, executaram e fizeram da Guarda a cidade da saúde.

É importante a salvaguarda da memória dos profissionais de saúde que ali trabalharam, mas também é justo honrar e valorizar ( pensando o futuro, melhores condições, a preservação e o aproveitamento adequado das estruturas físicas, a fixação de clínicos)  os atuais.

Hoje, mais do que nunca, é fundamental a cooperação de todos, para ultrapassarmos os problemas do presente, prepararmos (sem demagogia) o futuro da Guarda, recuperarmos o “sonho interrompido”.

 

Hélder Sequeira

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Dia mundial da Tuberculose

 

O Dia Mundial da Tuberculose é hoje assinalado sob o lema “Sim! Podemos acabar com a tuberculose”.

A tuberculose é uma doença curável, porém os esforços atuais para encontrar, tratar e curar todos os que ficam doentes não são suficientes, de acordo com a informação das estruturas e entidades ligadas ao tratamento da tuberculose.

O Dia Mundial da Tuberculose comemora a data, em 1882, em que Robert Koch anunciou a descoberta do Mycobacterium tuberculosis, o bacilo que causa a TB.

Recorde-se que o Sanatório Sousa Martins, inaugurado na Guarda em 18 de maio de 1907, foi uma das principais unidades de saúde de Portugal no combate contra a tuberculose.



No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Tuberculose, a Direção-Geral da Saúde promove o webinar “Tuberculose em Portugal: Dados, Desafios e Caminhos para a Eliminação”, a 25 de março de 2026, dirigido a profissionais de saúde.

O webinar incluirá a apresentação dos dados mais recentes de vigilância epidemiológica da tuberculose em Portugal, referentes a 2025, bem como uma mesa-redonda dedicada aos principais desafios associados ao controlo da doença no contexto nacional.

Contará também com um painel de debate, com o objetivo promover uma reflexão sobre a evolução do país no controlo da tuberculose, destacando boas práticas implementadas, avanços no diagnóstico e na terapêutica, bem como os desafios que persistem para alcançar as metas definidas pela Organização Mundial da Saúde, no quadro da estratégia global de controlo da tuberculose.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que 1/4 da população mundial esteja infetada e destes 5 a 10% têm risco de desenvolver a doença ao longo da vida, sendo este risco maior nos doentes imunodeprimidos.

A tuberculose representa a principal causa de mortalidade a nível mundial por patologia infeciosa. De acordo com o relatório mais recente da Direção Geral da Saúde (DGS) de vigilância e monitorização da tuberculose, no ano de 2023 foram notificados em Portugal 1584 novos casos de tuberculose. A taxa de incidência em Portugal é <20/100000 habitantes.

Em março de 2024 o Programa Nacional Para a Tuberculose (PNT) e a direção executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS) publicaram referências para a reorganização dos antigos Centros de Diagnóstico Pneumológico (CDP) com criação da Consulta Respiratória na Comunidade (CRC).

A CRC é uma unidade especializada no diagnóstico, tratamento e acompanhamento de doentes com tuberculose doença, tuberculose latente e infeção por micobactérias não tuberculosas.

No átrio da consulta externa do Hospital Sousa Martins, na Guarda, vai estar uma banca informativa que poderá ser visitada por todos os interessados.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Sousa Martins é relembrado na Guarda

 



A décima “Conversa Aberta” sobre Médicos Ilustres na Guarda terá lugar na próxima quinta-feira, 26 de março, e será dedicada a José Tomás de Sousa Martins. Trata-se de uma iniciativa da Secção Sub-Regional da Ordem dos Médicos, em parceria com o Museu da Guarda.

“Sousa Martins: um médico na Guarda da memória” é o tema que vai ser apresentado por Hélder Sequeira no Auditório do Museu da Guarda, a partir das 18 horas.

“Os esforços que Sousa Martins desenvolveu, fortalecidos pelas suas esclarecidas convicções, em muito contribuíram para a construção do Sanatório que viria a ter o seu nome, perenemente ligado à mais alta cidade de Portugal.” É referido a propósito desta iniciativa

“Para a Guarda – lembra Hélder Sequeira – vieram milhares de doentes que procuravam aqui a cura da tuberculose. Nesta cidade que não esquece o homem, o médico e o cientista, permanece a devoção popular e a afirmação, a muitas vozes, da sua influência espiritual.”

Esta conversa é aberta a todos os interessados.



sábado, 21 de março de 2026

João Baldi: um músico na toponímia guardense...


Considerado como um dos melhores músicos do seu tempo João Baldi tem o seu nome consagrado na toponímia da Guarda, cidade onde viveu alguns anos.

João Baldi nasceu em Lisboa no ano de 1770, filho de Carlo Baldi tenor italiano ao serviço da Patriarcal de Lisboa.

No Seminário Patriarcal recebeu, a partir dos onze anos, uma destacada parcela da sua instrução que muito beneficiou dos ensinamentos musicais de mestres como João de Sousa Carvalho, Jerónimo Francisco de Lima, Braz Francisco de Lima e Camilo Cabral.

Desde cedo manifestou as suas excecionais aptidões, assumindo-se rapidamente como cantor, organista e pianista distinto.

Como compositor ter-se-á estreado antes dos 19 anos.

No ano de 1789 veio para a Guarda, passando a desempenhar, na Catedral as funções de mestre de capela; num período de grande brilho musical da Sé guardense, com D. Jerónimo Rogado do Carvalhal a dirigir os destinos da diocese.

João Baldi_foto_.png

Após cinco anos na Guarda, João Baldi rumou para a Sé de Faro e seis anos depois regressou a Lisboa, onde foi ocupar o lugar de segundo mestre da Real Capela da Bemposta.

Nessa altura exercia aí as funções de primeiro mestre o contrapontista e organista Luciano Xavier dos Santos; na sequência da morte deste, em 1806, João Baldi passou a ocupar o lugar principal.

Eminente compositor e organista, João José Baldi morreu a 18 de maio de 1816, com apenas 46 anos.

Por ocasião das comemorações do 804º aniversário da Guarda decorreu nesta cidade um concerto que proporcionou a estreia moderna da “Missa para Coro, Solistas e Orquestra”; uma obra que, recorde-se, foi recuperada pelo padre José Pinto Geada

Esta partitura tem para a Sé Catedral da Guarda, e como sustentou José Pinto Geada, uma «dupla importância: primeiro, por representar um dos grandes Mestres que por ela passaram; segundo, sendo o único espécime que resta do antigo arquivo incendiado nas invasões francesas, torna-se, ele mesmo, o símbolo de um espólio valioso, onde outros compositores estariam, de certo, representados”.

João Baldi deixou uma vasta obra, quer ao nível da música religiosa, quer na área da música profana. De lembrar que foi no seu tempo que ocorreram as invasões francesas, tendo sido também mobilizado, como oficial.

Nesses anos compõe vários hinos militares e dois “Te Deum”, assinalando também o final das invasões napoleónicas com o drama lírico “Ulisseia libertada”. João Baldi está, justamente, referenciado na toponímia guardense, mas também a merecer uma das novas placas que, permitindo uma melhor identificação da rua, viabilizará através do código QR associado um melhor conhecimento deste compositor.

 

Helder Sequeira

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Polícia Judiciária da Guarda deteve suspeito de abuso sexual de crianças

 

A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal da Guarda, deteve em flagrante delito, no dia de ontem, um homem com 22 anos, suspeito da prática dos crimes de pornografia de menores e abuso sexual de crianças.

De forma reiterada, o homem acedia e partilhava conteúdos pornográficos em suporte informático, com menores de idade.

Na sua posse encontrou-se cerca de 2700 vídeos e 800 fotografias de bebés, crianças e menores de idade, alvo de tais práticas.


No decurso das diligências operacionais, foram-lhe apreendidos três computadores e diversos dispositivos de armazenamento, guardando os referidos conteúdos.

O inquérito é titulado pelo DIAP de Castelo Branco, onde o detido foi presente, no dia de hoje, a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação tidas por necessárias.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Nos caminhos das "Alminhas"...

 

A Associação de Jogos Tradicionais da Guarda (AJTG) vai promover, no próximo sábado, 21 de março, mais um percurso pedestre temático, cultural e turístico inserido no programa da Semana Santa “Guarda – Cultura e Fé”.


Sob a designação o “Culto Privado das Almas” o percurso vai iniciar-se (pelas 9 horas) em Valdeiras e incidirá sobre o território de São Miguel do Jarmelo, no concelho da Guarda; será um percurso com um grau de dificuldade fácil, ao longo de nove quilómetros, devidamente guiado, com acompanhamento e informação. Recordamos os nossos leitores que a AJTG já em 2024 tinha promovido idêntica iniciativa nas aldeias de Trinta, Corujeira, Fernão Joanes e Meios (concelho da Guarda).

Como foi referido a propósito desse percurso, pretendeu-se levar os participantes à descoberta do património cultural material e imaterial, mas também do património natural daquela área do concelho da Guarda.

A AJTG promoveu também no passado ano (a 23 de março de 2025) um “Percurso das Alminhas” que, com início na Menoita, passou por várias localidades da freguesia de Pera do Moço: Menoita, Rapoula, Pera do Moço e Verdugal; com incidência no património local e na identificação de alminhas.

Singelos monumentos expressivos da religiosidade popular, as “Alminhas” constituem um património ímpar que não tem merecido a devida atenção e a necessária salvaguarda; deste modo, iniciativas como esta promovida pela Associação de Jogos Tradicionais da Guarda são de aplaudir, incentivar e apoiar.

Nesta região do interior existem inúmeros testemunhos do culto das almas, sob diversificadas manifestações de arte e nos mais distintos lugares, embora os caminhos e as encruzilhadas tenham constituído locais privilegiados para a sua implantação.

A representação do Purgatório num oratório, retábulo ou painel, com chamas envolvendo as almas que suplicam aos santos e apelam ao auxílio das preces de quem passa, materializou-se, inicialmente em pinturas, a partir do século XVI; conheceu uma maior difusão no século seguinte, no território português, com maior incidência a norte do Mondego (a sul essa manifestação artística ficou, muitas vezes, no interior das igrejas e nas capelas das Irmandades).

Embora alguns investigadores desta temática argumentem que as “Alminhas” se tenham inspirado e sejam uma herança das “civilizações clássicas de Roma e Grécia que nas suas deambulações já haviam erguido monumentos junto às estradas para devoção aos seus deuses”, sabemos que a origem das alminhas surge na Idade Média.

A partir do Concílio de Trento,1563, a ideia do Purgatório (anteriormente, e em especial nos primeiros séculos do cristianismo existia apenas o Céu e o Inferno) é imposta como dogma, atitude que é interpretada como uma resposta da Igreja Católica à reforma implementada pelos protestantes. Assim, o Purgatório surgia como um local (entre o Céu, para os bons, e o Inferno, para os maus) onde as almas passavam por um estado, forçado, de purificação. Estas manifestações de religiosidade popular e de arte eram, simultaneamente, um alerta permanente para a fragilidade da vida, perante a certeza da morte.

As “Alminhas” eram erguidas, normalmente, por iniciativa individual como homenagem, em memória de familiares ou no cumprimento de promessas. Esta devoção popular atravessou os tempos e embora a meio do século passado tenha sido evidente um rejuvenescimento através da introdução da azulejaria (e alterado o culto inicial para manifestação de fé em santos da predileção pessoal), muitos destes pequenos monumentos, mercê do tempo e da desertificação das regiões, caíram no esquecimento e em progressiva degradação.

 

“Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”…

 

Este apelo, inscrito em inúmeras “Alminhas”, bem pode ser, na atualidade, dirigido a todos nós que temos olvidado um peculiar património (não são conhecidos muitos mais exemplos – com exceção para alguns casos, raros – na Europa), disperso por caminhos, muros, pontes, campos, estradas…

O projeto da AJTG, centrado no “Culto Privado das Almas, é – como já tínhamos salientado em anteriores Anotações – um eminente contributo para a salvaguarda, estudo e divulgação deste património, o qual pode ancorar uma diversidade de roteiros, mas também suscitar investigações contextualizadas em épocas ou tipologias dessas expressões de religiosidade, permitindo a sua descrição/história através de códigos disponibilizados pelas novas tecnologias; exigindo igualmente a adequada sinalética e iluminação (mesmo nos locais mais ermos isso já é viável, através de focos/luminárias com energia solar).

No distrito da Guarda (como noutras regiões, obviamente) é urgente, fundamental, a completa referenciação (ou continuidade desse trabalho, já feito pela AJTG), a defesa, o estudo (por equipas interdisciplinares) e a divulgação das Alminhas, sob o risco de perdermos mais um importante traço identitário do nosso património e cultura.

No próximo sábado poderá redescobrir “alminhas” no percurso que a AJTG lhe propõe nos caminhos de um território rico de história, religiosidade e tradição.

 

Hélder Sequeira


 

terça-feira, 17 de março de 2026

Um chafariz histórico


Associado durante largos anos às tradições académicas da Guarda, o Chafariz da Dorna é uma das poucas construções do género existentes nesta cidade.

A escassos metros de um troço de calçada romana – da via que ligava Braga a Mérida – este chafariz, de estilo barroco, data de finais do século XVIII e foi uma importante estrutura do fornecimento público de água à malha urbana da Guarda.


Ladeado, atualmente, pela Avenida Francisco Sá Carneiro merece estar devidamente inserido no roteiro das referências citadinas.

Nas primeiras décadas do século passado, o Chafariz da Dorna foi o local de batismo dos caloiros guardenses, no contexto de uma tradição académica que tinha o seu ponto alto no primeiro dia de dezembro; nos dias de hoje também os estudantes (provavelmente por desconhecimento) estão alheados desta faceta, que podia ser facilmente revitalizada e aproveitada para projeção desse sítio, reatando os elos com o passado.

Aliás, o próprio espaço circundante pode e deve ser fruído permanente por parte dos guardenses, ou ser aproveitado para diversas atividades culturais, constituindo-se como cenário alternativo.

Há, nesta cidade muitos recantos e encantos por descobrir, valorizar e dinamizar. A criatividade, as propostas inovadoras, as estratégias consentâneas com o tempo presente, o trabalho determinado e a competência devem ser a resposta constante de uma cidade com história.

Há que sentir a cidade, sem deixar espaços, tradições e vivências em zonas de penumbra ou esquecimento, ou cair no pessimismo derrotista e maledicente de alguns…

 

Hélder Sequeira