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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Colecionismo Piné no Museu da Guarda


No Museu da Guarda está patente, até 29 de março de 2026, a exposição “Colecionismo Piné: memórias e surpresas”.

Esta exposição é promovida pela Colecionismo Piné, “entidade criada para concretizar um projeto inspirado no legado do colecionador, que inclui a reabilitação de um espaço no centro histórico”.

Como é referido numa nota informativa do Museu da Guarda, o título desta exposição “convoca, em simultâneo, a dimensão íntima e a abertura ao inesperado que marcam o percurso” de António Piné (1931-2022).

Colecionismo Piné_ HS_ -2

Natural do concelho de Pinhel, António Piné exerceu a profissão de farmacêutico na Guarda. “A sua paixão pela arte levou-o a construir uma das mais notáveis coleções privadas da região.”

Grande parte da sua coleção foi doada à Associação Nacional das Farmácias, integrando atualmente o acervo do Museu da Farmácia.

A exposição agora patente no Museu da Guarda, espaço #5, reúne cerca de trinta obras que “permaneceram no seio da família e na cidade, incluindo aquisições recentes realizadas em consonância com o espírito do colecionador”.

Noronha da Costa, Vhils, Cargaleiro, Cesariny, Cutileiro, Paula Rego, Graça Morais, Pedro Croft, Eduardo Batarda, José Guimarães, Bordalo II e Francisco Simões são alguns nomes representados neste certame que propõe um “reencontro com o espírito generoso e curioso de António Piné, para quem a arte foi sempre uma forma de conhecimento, de partilha e de futuro”.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"Interior Sonoro" : arte e inclusão na Guarda

 

“Interior Sonoro” é a designação de um projeto que está a ser promovido pelo Município da Guarda e Teatro Municipal da Guarda (TMG).

Este projeto, que cruza a arte e a inclusão, reúne participantes da CERCIG e da Associação de Estudantes dos Países Africanos de Língua Oficia Portuguesa em sessões semanais de música, teatro, escrita terapêutica, fotografia, expressão corporal e mindfulness.



Guiado pelo eixo “Sombra, Sonho e Trauma”, o projeto, com direção artística do guardense B.Riddim (Luís Sequeira) conta ainda com a colaboração, como formadores, de Maze, Joana Cavaleiro, Miguel Silva, Hugo Quelhas e Vanessa Rei.

O resultado do processo culmina no espetáculo de apresentação, no Teatro Municipal da Guarda (TMG) no próximo dia 4 de julho de 2026, englobando ainda a criação de um livro com conteúdo do processo e um álbum de temas originais.



Cobertor de papa: uma manta tradicional a salvaguardar

 

Alta, imensa, enigmática, a sua presença física é logo uma obsessão. Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza ainda mais viva: a de todas as verdades locais emanarem dela.” Escrevia Miguel Torga a propósito da nossa Serra da Estrela, onde não deixou de anotar a figura de “um homem de pau e manta, a guardar um rebanho”. Uma imagem ampliada em múltiplos e diferenciados registos fotográficos, onde é visível um dos traços identitários do pastor: a manta. Hoje um elemento que integra um ecossistema enraizado nestas terras beirãs, em risco de extinção.

O cobertor de papa é uma manta tradicional da zona da Serra da Estrela, produzida – há vários séculos – a partir da lã churra (mais macia) que é retirada de ovelhas autóctones (ovelha mondegueira). Esta manta abrigava (e isso ainda acontece) os pastores durante a sua deslocação para as serranias, protegendo-os do frio, da chuva (de notar que estes cobertores no sentido do pelo são impermeáveis) e dos lobos, confundidos com as suas cores e forma.

Após o necessário tratamento, a lã é tecida em teares artesanais e de acordo com métodos tradicionais, associando cores e desenhos com perfil diferenciador. O processo termina com o esticar dos cobertores nas “râmbolas” onde secam, ao ar livre, e adquirem o seu aspeto final.

Existem o cobertor branco com três listas castanhas, a manta barrenta ou manta do pastor, a manta lobeira ou manta espanhola, o cobertor branco, o cobertor bordado à mão e o cobertor de papa em várias cores (com o seu conhecido pelo comprido).

O seu uso não se fica apenas pela utilização como elemento de conforto térmico (na cama o seu pelo denso e pesado facilita a transpiração durante o sono e puxa a humidade para a superfície exterior do cobertor), mas passa também por distinto complemento de decoração de interiores.

A Associação Genuíno Cobertor da Papa (AGCP), criada em 15 de maio de 2018 e sediada em Maçainhas, tem nos seus objetivos a produção daquele produto e a garantia da sua autenticidade, estando empenhada em alcançar a certificação daquele cobertor. O declínio da indústria da lã e o surgimento de fibras sintéticas originaram um cenário onde quase se desenhou a sua extinção, que a referida Associação quer evitar; salvaguardando “os seus processos artesanais perante produtos industriais que se apropriaram do nome e, com isso, enganam os consumidores, desonram um património histórico e cultural e concorrem deslealmente com quem continua a usar os processos fieis à tradição secular e artesanal, e respeita a autenticidade do produto”. Como nos afirmou Maria do Céu Reis, da ACCP.

O tradicional cobertor de papa – como por várias vezes tem alertado aquela associação – apresenta um pelo comprido encaracolado ou ondulado (só possível por ser feito com lã churra) bem como ourelas únicas; nelas se podem distinguir uma espécie de "bicos" e pequenos orifícios que resultam do facto de o cobertor de papa, (artesanal e autêntico). necessitar de ser esticado e seco, ao sol, em râmbolas.

COBERTOR DE PAPA_ (26)

“Estes elementos são alguns dos sinais que garantem a autenticidade do cobertor de papa, quer em termos de processo artesanal, quer em termos de matéria-prima, podendo ajudar os consumidores, na hora de comprar, para não serem enganados comprando a imitação industrial que contém poliéster e polipropileno, pelo curto e irregular, e apresenta ourelas cortadas.” As ourelas do cobertor artesanal são inteiras, dado este produto regional ser tecido em tear manual, com lançadeira.

O processo de certificação tem exigido, muito trabalho e verbas, incompatíveis com os recursos financeiros daquela associação, como aliás foi sublinhado no decorrer do Festival do Cobertor de Papa, realizado há dois anos em Maçainhas, o único sítio do país onde hoje é feito.

Elisa Pinheiro, que desenvolveu trabalhos de pesquisa sobre o cobertor de papa, assinalou-o como “produto final de um longo processo que plasma uma densidade de memórias, sejam elas as dos homens que os produziram, sejam daqueles que, ao longo dos tempos, os consumiram, uns e outros unidos pelos fios de lã que os teceram, num tempo longo da nossa história dos lanifícios”, sublinhando o seu enquadramento “em práticas ancestrais que importa salvaguardar”.

Deste modo, é urgente preservá-lo, defender a sua autenticidade, a par de permanentes ações de valorização e promoção. Esta não é uma tarefa simples, pois há que equacionar múltiplas realidades e condicionantes, como sejam a necessidade da existência de mais rebanhos de ovelhas autóctones – o que implica olhar com objetividade para a realidade agrícola, para as dificuldades relacionadas com a criação e alimentação dos animais, para o número de pessoas que se dedicam ao pastoreio e ao ciclo da produção de queijo, para as consequências das alterações climáticas que têm condicionado as áreas de pastagens e aumentado as dificuldades ao nível económico/financeiro) – , mais gente a trabalhar no campo e a saber valorizar/rentabilizar as potencialidades endógenas, uma maior consciencialização de todos no que concerne à qualidade e valor dos nossos produtos regionais, optando pela sua compra e incrementando a economia local/regional.

O incentivo e apoio a projetos (como este da revitalização do genuíno cobertor de papa, cuja produção é feita, naturalmente, numa escala consentânea com a dimensão dos recursos atuais, e em função da evolução do número de encomendas) não devem ficar apenas pelas amáveis palavras de circunstância, pelas manifestações de simpatia nas redes sociais; muito menos deixar enredar a sua defesa em discussões marginais e inconsequentes. É, por outro lado, importante criar estratégias promocionais que alicercem vias de desenvolvimento e âncoras seguras.

Cobertor de Papa_HS_Fot

A utilização do cobertor de papa em calçado (é o caso dos pantufos e das sapatilhas feitas em cobertor de papa, por dentro e por fora) e vestuário tem sido uma excelente forma de chamar a atenção para potencialidades que se abrem com a salvaguarda da sua produção.

Recorde-se que no passado dia 12 de janeiro foi publicada em Diário da  a Resolução n.º 4/2026 da Assembleia da República que recomenda ao Governo o reconhecimento e a salvaguarda do Cobertor de Papa como património cultural imaterial Esta resolução recomenda ainda o apoio aos artesãos locais e o incentivo a “práticas de formação, inovação e transmissão intergeracional”.

No ponto seguinte a resolução da Assembleia da República recomenda ao Governo que “integre o Cobertor de Papa em estratégias de turismo cultural sustentável, valorizando-o como símbolo identitário e criativo da Guarda e da região das Beiras e da Serra da Estrela”, defendendo ainda a colaboração “com instituições, associações e agentes culturais na promoção contínua e divulgação desta expressão artística exclusiva, incluindo-a numa estratégia de marketing territorial com alcance nacional e internacional.”

O apoio das entidades em cuja área de competência ou influência se pode inscrever a ajuda necessária (e justa) é fundamental e outrossim a ação dos media na informação e divulgação dos produtos genuinamente regionais; é igualmente necessária a transmissão aos mais jovens do saber fazer, o envolvimento da investigação académica, uma atitude ativa dos consumidores na preferência daquilo que tem alta qualidade e matriz tradicional e portuguesa.

 

Hélder Sequeira


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pelas Alminhas...

 


O “Culto Privado das Almas” foi a temática do percurso pedestre que a Associação de Jogos Tradicionais da Guarda (AJTG) promoveu, no passado ano, nas aldeias de Trinta, Corujeira, Fernão Joanes e Meios (concelho da Guarda). Uma iniciativa que foi realizada em parceria com o município guardense.

Como foi referido a propósito deste percurso, pretendeu-se levar os participantes à descoberta do património cultural material e imaterial, mas também do património natural daquela área do concelho da Guarda, num trajeto de sete quilómetros. A AJTG já no ano passado tinha promovido (a 23 de março de 2025) o “Percurso das Alminhas” que, com início na Menoita, passou por várias localidades da freguesia de Pera do Moço: Menoita, Rapoula, Pera do Moço e Verdugal; com incidência no património local e na identificação de alminhas.

Singelos monumentos expressivos da religiosidade popular, as “Alminhas” constituem um património ímpar que não tem merecido a devida atenção e a necessária salvaguarda; deste modo, iniciativas como esta protagonizada pela Associação de Jogos Tradicionais da Guarda são de registar, aplaudir, incentivar e apoiar.

Na nossa região existem inúmeros testemunhos do culto das almas, sob diversificadas manifestações de arte e nos mais distintos lugares, embora os caminhos e as encruzilhadas tenham constituído locais privilegiados para a sua implantação.

A representação do Purgatório num oratório, retábulo ou painel, com chamas envolvendo as almas que suplicam aos santos e apelam ao auxílio das preces de quem passa, materializou-se, inicialmente em pinturas, a partir do século XVI; conheceu uma maior difusão no século seguinte, no território português, com maior incidência a norte do Mondego (a sul essa manifestação artística ficou, muitas vezes, no interior das igrejas e nas capelas das Irmandades).

Embora alguns estudiosos desta temática sustentem que as “Alminhas” se tenham inspirado e sejam uma herança das “civilizações clássicas de Roma e Grécia que nas suas deambulações já haviam erguido monumentos junto às estradas para devoção aos seus deuses”, sabemos que a origem das alminhas surge na Idade Média.

A partir do Concílio de Trento,1563, a ideia do Purgatório (anteriormente, e em especial nos primeiros séculos do cristianismo existia apenas o Céu e o Inferno) é imposta como dogma, atitude que é interpretada como uma resposta da Igreja Católica à reforma implementada pelos protestantes. Assim, o Purgatório surgia como um local (entre o Céu, para os bons, e o Inferno, para os maus) onde as almas passavam por um estado, forçado, de purificação. Aliás, estas manifestações de religiosidade popular e de arte eram, simultaneamente, um alerta permanente para a fragilidade da vida, perante a certeza da morte.

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As “Alminhas” eram erguidas, normalmente, por iniciativa individual como homenagem, em memória de familiares ou no cumprimento de promessas. Esta devoção popular atravessou séculos e embora a meio do século passado tenha sido evidente um rejuvenescimento através da introdução da azulejaria (e alterado o culto inicial para manifestação de fé em santos da predileção pessoal), muitos destes pequenos monumentos, mercê do tempo e da desertificação das regiões, caíram no esquecimento e em progressiva degradação.

Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”… Este apelo, inscrito em inúmeras “Alminhas”, bem pode ser, na atualidade, dirigido a todos nós que temos esquecido este peculiar património (não são conhecidos muitos mais exemplos – com exceção para alguns casos, raros – na Europa), disperso por caminhos, muros, pontes, campos, estradas…

Assim, o projeto da AJTG centrado no “Culto Privado das Almas” é um eminente contributo para a salvaguarda, estudo e defesa deste património que pode ancorar uma diversidade de roteiros, mas também suscitar investigações contextualizadas em épocas ou tipologias dessas expressões de religiosidade, permitindo a sua descrição/história através de códigos disponibilizados pelas novas tecnologias; exigindo igualmente a adequada sinalética e iluminação (mesmo nos locais mais ermos isso já é viável, através de focos/luminárias com energia solar).

No concelho e no distrito da Guarda (como noutras regiões, obviamente) é urgente, fundamental, a referenciação (ou continuidade desse trabalho), a defesa, o estudo (por equipas interdisciplinares) e a divulgação das Alminhas, sob o risco de perdermos mais um importante traço identitário do nosso património e cultura.

 

Hélder Sequeira

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Augusto Gil: poesia e independência crítica

 


Numa antologia sobre o autor de “Luar de Janeiro, José Miguel Amarelo anotava que “os grandes homens enobrecem o berço em que nasceram, pelas suas obras e agigantam-se nas cinzas do túmulo em que repousam pela memória do seu povo. Augusto Gil é uma glória da Guarda. Os monumentos da palavra que condensam a alma deste povo, exigem análoga recordação na memória imortal do mesmo povo: o monumento que melhor perpetua a nossa admiração pelo poeta e homem da Guarda é o canto vibrante da sua lírica”.

Vem isto a propósito da passagem (no próximo mês) dos 97 anos após a morte deste poeta. Augusto César Ferreira Gil nasceu na freguesia de Lordelo, Porto, a 30 de julho de 1870; berço fortuito devido à circunstância de sua mãe se encontrar ali, acidentalmente. Faleceu em Lisboa (numa casa situada na Rua Bartolomeu Dias) a 26 de defereiro de 1929.

“Musa Cérula”, “Versos”, “Luar de Janeiro”, “O Canto da Cigarra”, “Gente de Palmo e Meio”, “Sombra de Fumo”, “Alba Plena”, “Craveiro da Janela” e “Avena Rústica” foram as principais produções literárias de Augusto Gil, cujo trabalho evoluiu quase à margem de escolas ou correntes literárias. “Não é um romântico, nem parnasiano, nem simbolista: é ele – o Augusto Gil – nome que é um gracioso ritmo”, observou Bulhão Pato.

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Sampaio Bruno considerava-o, numa missiva que lhe dirigiu em 1915, “um dos raros e grandes escritores” do país, pois “tem emoção e é poeta; tem correção, e é artista. Ter emoção e ter correção é a sua perfeição”. Muitos dos versos de Augusto Gil passaram para o cancioneiro popular, como sublinharam alguns estudiosos da sua obra. Contudo, como já qui escrevemos nas colunas de “O Interior”, prevalece ainda um grande desconhecimento sobre o poeta guardense; a sua projeção vai muito para além da popular “Balada da Neve” e desdobra-se em várias facetas. A sua obra suscita outras abordagens, como bem sublinhou Helena Rocha Pereira, num estudo intitulado “Poetas Gregos em Augusto Gil”. “Para quem conhecer apenas em Augusto Gil o poeta de verso dúctil e cadência fácil, cuja musicalidade lhe granjeou o aplauso dos salões nas primeiras décadas deste século, o cantor de temas não raro marcados pelo circunstancial, o autor sob a influência confessada de António Nobre, João de Deus, Guerra Junqueiro — para esses, será certamente motivo de surpresa ouvir falar da presença de modelos helénicos na sua arte (…)”.

Os versos de Augusto Gil foram também letra de alguns fados, nomeadamente o “Passeio de Santo António”, mas a sua atividade desenvolveu-se ainda no campo do jornalismo, pois dirigiu A Actualidade, publicação editada entre 1910 e 1912. Este jornal mereceu do matemático e docente universitário Aureliano Mira Fernandes o seguinte comentário: “(..) Tem ele mais do que a atitude altiva de quem não deve: tem a independência crítica de quem não pede. E, e se o não dever nobilita, porque eleva, o não pedir glorifica, porque educa.”

Augusto Gil insurgiu-se, nas páginas do semanário, contra as ameaças à liberdade de imprensa, defendeu os ideais republicanos, criticou frontalmente os erros da classe política – mormente dos seus correligionários – defendeu a democracia e os verdadeiros interesses da Guarda; onde “a demagogia da terra, de braço dado com a imbecilidade, criou a Augusto Gil todos os embaraços, lhe acarretou sensaborias e desgostos, sem deixar de o insultar”…o que deixou, aliás, transparecer nos seus versos: “Com alguns, não obstante reparti /Metade de minh’alma e do meu pão.../ Nas lutas que tiveram combati / Com um ardor, com uma exaltação, / Que nunca em pugnas minhas consegui...”

Acrescentando depois que “Quando lhes veio o dia da vitória / E do prestígio que o dinheiro alcança / Entre gente venal e transitória, / Lançaram-me calúnias por lembrança /E rudes vitupérios por memória...”

O nome de Augusto Gil está presente, de norte a sul do território português, integrando a toponímia guardense e figurando ainda em muitas cidades e vilas de Portugal. Será oportuno anotar que muita informação biográfica sobre o poeta, nomeadamente a dispersa em plataformas digitais, carece de correção e atualização.

Se Augusto Gil cultivou a poesia, as letras, o jornalismo, cultivou também o seu amor pela Guarda onde escreveu uma grande parte dos seus melhores poemas. Esta cidade não pode deixar apagar a sua memória e de reconhecer a sua obra literária, a sua intervenção social, política e cultural; o seu exemplo de cidadão…

 

Hélder Sequeira

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

PJ da Guarda deteve suspeito de violação de adolescente

 

A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal da Guarda, em estreita articulação com o DIAP da Guarda, deteve hoje, nesta cidade, um homem, de 44 anos, suspeito da prática de crimes de violação, de coação sexual de tráfico de estupefacientes agravado, praticado contra uma adolescente, de 16 anos.



A investigação, de acordo com informação divulgada pela Polícia Judiciária, teve início no passado dia 16 de janeiro, numa comunicação efetuada pelo serviço de urgência pediátrica da ULS da Guarda, por suspeita de crime sexual, com necessidade de diligências imediatas.

A menor encontra-se internada numa casa de acolhimento na Guarda, sendo que, numa das ausências não autorizadas, conheceu o presumível autor que lhe deu a consumir produtos estupefacientes.

Aproveitando-se do estado de consciência induzido, forçou-a à prática de atos sexuais no interior de uma habitação devoluta e abandonada.

O detido será presente, amanhã, a primeiro interrogatório judicial para aplicação das adequadas medidas de coação.


Uma rainha na Guarda...


Um pouco na linha daquilo que escrevemos em anteriores apontamentos, falamos hoje de uma personalidade com emblemática ligação à Guarda. Referimo-nos a D. Amélia de Orléans, última rainha de Portugal, falecida a 25 de outubro de 1951.

Esta cidade deve-lhe um dos seus principais ex-libris, de que hoje, infelizmente, restam simbólicas e degradadas estruturas arquitetónicas, denunciadoras do desleixo e indiferença das entidades competentes

O Sanatório Sousa Martins ficará perenemente ligado a D. Amélia pelo relevante papel que teve na sua criação; empenhada nas causas sociais, esta rainha dispensou particular atenção aos mais desfavorecidos, sendo, aliás, particularmente significativo o facto de o pavilhão destinado aos doentes mais pobres ostentar o seu nome.

Maria Amélia Bourbon e Orléans nasceu em Twickenham, arredores de Londres em 28 de setembro de 1865 (curiosamente o futuro marido, D. Carlos, nasceu também no mesmo dia, dois anos antes).

A filha mais velha de Filipe de Orleans (conde de Paris e chefe da Casa Real de França) e de Isabel de Montpensier, que se encontravam (à altura) exilados em Inglaterra, apenas foi viver para França no ano de 1871.

Nos anos seguintes, Amélia de Orléans viajou com frequência e frequentou os principais palácios das monarquias europeias; personagem culta, apreciava o teatro, a ópera, a pintura e a leitura, convivendo, em Paris, com os escritores mais eminentes da época. 

Em 1886 conheceu D. Carlos, herdeiro da coroa portuguesa, de quem veio a ficar noiva, nesse mesmo ano; o casamento ocorreu em 22 de maio, em Lisboa, onde cedo manifestou as suas preocupações face ao flagelo da denominada “peste branca”.

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Eça de Queirós definiu-a como “senhora de grande e dedicada esmola. E a sua esmola não baixa majestosamente do trono, numa salva, entre alabardeiros. Ela própria a leva, sob um véu espesso, a todos os recantos (...); ama a caridade racional, que se organiza, se arma em instituição, derrama o bem por estatuto”. A sua atenção às questões culturais manifestou-se por diversas formas sendo a criação do Museu dos Coches Reais, em 1905, uma das mais expressivas traduções dessa postura.

Amélia de Orléans viveu em Portugal entre 1886 e 1910, num período social e politicamente muito complexo, em que soube superar muitas contrariedades e definir uma estratégia de auxílio às camadas sociais com menores recursos. A Assistência Nacional aos Tuberculosos, de que o Sanatório da Guarda foi a primeira unidade hospitalar, constituiu, nesta matéria, uma das obras mais marcantes da intervenção social da Rainha D. Amélia.

Para a tuberculose como para outros tantos males, há meios na ciência para, se não os conjurar, ao menos diminuir os seus estragos e remediar os seus efeitos”, como afirmou, em 1900, numa das suas intervenções públicas. Na cruzada contra a tuberculose, a Rainha procurou, por vários meios, canalizar recursos financeiros para combater a doença; a receita da venda do livro “O Paço de Sintra”, escrito a seu pedido pelo Conde de Sabugosa, e que foi ilustrado com desenhos feitos por D. Amélia, foi um dos muitos contributos para essa causa, em relação à qual o Sanatório da Guarda se afirmou verdadeiro baluarte.

A Rainha D. Amélia, acompanhada pelo Rei D. Carlos, veio à Guarda em 18 de maio de 1907, aquando da inauguração do Sanatório a que atribuiu, como homenagem, o nome do médico Sousa Martins (que falecera em 1897, e de quem já falamos neste jornal em anteriores edições).

A vida da Rainha ficou tristemente marcada pelo regicídio ocorrido, em Lisboa, em 1 de fevereiro de 1908, de que resultou a morte do Rei D. Carlos e do herdeiro D. Luís Filipe, Príncipe da Beira; com a aclamação de D. Manuel II, como Rei de Portugal, a 6 de maio de 1908, D. Amélia passou a colaborar nos atos da governação.

Em julho de 1910, a Rainha, na qualidade de Presidente da ANT, veio de novo à Guarda, numa visita, muito discreta, ao Sanatório e à filha do Conde de Tarouca, que ali estava internada.

Implantada a República, em 5 de outubro de 1910, a Rainha D. Amélia foi forçada ao exílio; começa por se instalar em Woodnorton (Inglaterra), residência do irmão, e em janeiro de 1911 passou a viver em Richmond Hill. No verão de 1921 mudou-se para França; a nova residência situava-se em Chesnay (nas proximidades do Palácio de Versalhes), numa mansão designada por Château de Bellevue.

No ano de 1939 foi convidada por Salazar para vir para Portugal, mas a Rainha não aceitou e passou os anos da segunda guerra mundial em França, onde não esqueceria as suas ligações ao nosso país, tendo hasteado mesmo a bandeira portuguesa na sua residência. Seis anos depois, em maio de 1945, veio a Portugal e foi recebida de forma apoteótica; entrou na fronteira de Vilar Formoso a 17 de maio de 1945, na véspera de se comemorarem trinta e oito anos após a inauguração do Sanatório Sousa Martins.

A Rainha D. Amélia faleceu, em Chesnay (Versalhes) na manhã de 25 de outubro de 1951; o seu corpo seria transladado para Portugal, em março de 1952, tendo ficado no Panteão Nacional.

A Câmara Municipal da Guarda decidiu, a 5 de Dezembro de 1951, atribuir o nome da última rainha de Portugal ao troço da estrada nacional nº 18 que ladeava o Sanatório e o extremo da Rua Batalha Reis; dois anos depois, a autarquia guardense deliberou proceder à eletrificação da referida avenida, junto à qual, no interior de cerca daquele sanatório, foi inaugurado - a 31 de Maio de 1953 - o Pavilhão Novo (bloco da Unidade Local de Saúde que ladeia a Avenida Rainha D. Amélia).

Ao evocarmos esta rainha estamos também a relembrar um importante período da história da Guarda e a projeção alcançada por esta cidade no plano nacional e internacional. 


Hélder Sequeira