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terça-feira, 21 de abril de 2026

Prémio Eduardo Lourenço para José Luis Puerto

 

O Prémio Eduardo Lourenço foi ontem a atribuído a José Luis Puerto, a quem o júri reconheceu as qualidades em consonância com o espírito deste galardão, no que diz respeito ao conhecimento profundo da língua e da cultura portuguesas. Como foi referido, esse conhecimento está evidentes nas suas traduções de poetas portugueses e na integração de elementos culturais ibéricos na sua poesia, no seu trabalho etnográfico e na sua investigação sobre a tradição oral.


O Júri do Prémio Eduardo Lourenço, reuniu ontem na sede do Centro de Estudos Ibéricos, na Guarda; a 22ª edição deste prémio Eduardo Lourenço destacou-se pela elevada qualidade e diversidade das candidaturas apresentadas.

Destinado a galardoar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas, o Prémio Eduardo Lourenço 2026, no montante de 7.500,00€ (sete mil e quinhentos euros), foi atribuído por um júri constituído pelos membros da Direção do CEI: Presidente da Câmara Municipal da Guarda, Sérgio Costa; e Reitores das Universidades de Coimbra e de Salamanca, Amílcar Falcão, representado pelo Vice Reitor Delfim Leão, e Juan Manuel Corchado, representado pela Vice Reitora Matilde Olarte; Antonio Notario e María Isabel Martín Jiménez, da USAL; e pelas seguintes personalidades convidadas: Paulo Estudante e Jorge Castilho convidadas pela Universidade de Coimbra e Milagro Martín Clavijo e Juan Antonio Rodríguez Sánchez, convidadas pela Universidade de Salamanca.

Recorde-se que personalidades de relevo de Portugal e Espanha já foram galardoadas nas anteriores edições: Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática de Cultura Greco-Latina (2004), Agustín Remesal, Jornalista (2006), Maria João Pires, Pianista (2007), Ángel Campos Pámpano, Poeta (2008), Jorge Figueiredo Dias, Professor Catedrático de Direito Penal (2009), César António Molina, Escritor (2010), Mia Couto, Escritor (2011), José María Martín Patino, Teólogo (2012), Jerónimo Pizarro, Professor e Investigador (2013), Antonio Sáez Delgado, Professor e Investigador (2014), Agustina Bessa-Luís, Escritora (2015), Luis Sepúlveda, Escritor (2016), Fernando Paulouro das Neves, Escritor e Jornalista (2017), Basilio Lousada Castro, Escritor (2018), Carlos Reis, professor e investigador (2019), Ángel Marcos de Dios, professor (2020), Fundação José Saramago (2021), Valentín Cabero Diéguez, geógrafo e professor (2022), Lídia Jorge, escritora (2023), Isabel Soler, professora e investigadora (2024) e José Tolentino de Mendonça, escritor (2025).

José Luis Puerto (La Alberca, Salamanca, 1953) é escritor, ensaísta, etnógrafo, professor e tradutor de poesia portuguesa contemporânea.

Homem de Fronteira profundamente enraizado na Serra de França e na Raia Ibérica, José Luís Puerto é um dos etnógrafos e investigadores mais reconhecidos das tradições ibéricas, paixão que combina com a criação literária, o ensino, o jornalismo e a reflexão ensaística.

A sua trajetória estabelece uma ponte entre o local e o universal, inspirada no percurso intelectual e cívico de Eduardo Lourenço e na mensagem de grandes escritores portugueses como Eugénio de Andrade, Nuno Júdice, Jorge de Sena e Miguel Torga, que traduziu com profunda sensibilidade e uma linguagem plenamente humana e emocional.

Entendendo a Poesia como um «território que ilumina e revela o ser humano no mundo» desenvolveu uma poética singular, acompanhada de um olhar crítico, solidário, de resistência e dignidade para com os menos afortunados e os esquecidos. A sua obra polifónica oferece uma leitura da tradição com uma voz totalmente nova, que transcende o folclore regional e o reposiciona num horizonte de análise cultural, onde ritos, memórias e tradições são interpretados como respostas humanistas a interrogações universais sobre o tempo, o território, a paisagem e a identidade.

Como afirma Asunción Escribano, «Toda a obra de José Luis Puerto ocupa um lugar de destaque na literatura espanhola contemporânea, distinguindo-se pela sua profundidade, capacidade evocativa e estética delicada. Desde a sua estreia em 1982 com o livro de poemas El tiempo que nos teje, até ao presente, com obras líricas como Ritual de la inocencia (2023), Cristal de roca (2024) ou La belleza de la huella (2024), Puerto desenvolveu uma poética original caracterizada por uma exploração constante do tempo, da memória e da arte».


fonte: CEI

segunda-feira, 20 de abril de 2026

João Gomes: na Guarda da Democracia e Liberdade


A poucos dias da comemoração de mais um aniversário da revolução de abril, é dever de memória evocarmos uma figura incontornável da luta pela liberdade e democracia.

Falamos do Dr. João Gomes, um nome que bem se pode traduzir por grande e exemplar democrata, homem de vasta cultura e humanidade, advogado brilhante, orador apreciado, socialista distinto; um homem sempre fiel aos valores que constituíram a sua ideologia democrática. “Grande advogado, orador inflamado e eloquente, João Gomes, foi até à sua morte indefetivelmente fiel às suas convicções republicanas de sempre”, escreveu Mário Soares numa publicação editada, em 2009 pela Câmara Municipal da Guarda.

João Gomes tutelou uma enorme atividade política, bateu-se pela liberdade, por princípios e ideias; esteve sempre na linha da frente dos interesses desta cidade, do distrito, do interior.

Mesmo quando exerceu as funções de Governador Civil do Distrito não hesitava em discordar – sempre que a sua consciência e o seu amor pela Guarda assim o exigiam – das diretrizes políticas ou opções estratégicas que, na sua opinião, não serviam ou não eram as melhores para a Beira Serra, terminologia que gostava de usar e à qual dava relevo mediático no programa radiofónico “Reflexões Políticas”, emitido, durante alguns anos, na Rádio Altitude.

Em entrevista publicada no primeiro número do quinzenário “Notícias da Guarda” comentava, a propósito das suas funções como Governador Civil que “a maior parte das pessoas vêm para estes lugares para se servirem e terem naturalmente de dizer sim ao Governo. Eu sou capaz de dizer não, se o Governo, para além de certos limites, ofender certos princípios que possam ofender não só a minha dignidade, mas também os interesses da gente da minha terra”.

Dr. João Gomes - Entrevista ao jornal Notícias d O Dr. João Gomes em entrevista ao jornal Notícias da Guarda, publicada no primeiro número daquele quinzenário

 

João Gomes nasceu a 26 de julho de 1912 na freguesia de Avelãs da Ribeira (concelho da Guarda), onde frequentou a instrução primária. Estudou, depois, no Liceu da Guarda e completou o curso liceal em Viseu, no ano letivo de 1928/29; no ano seguinte foi estudar Direito na Universidade de Coimbra, curso que concluiu em 1934.

A sua atividade profissional iniciou-se na Comarca de Celorico da Beira, como subdelegado do Procurador da República e no final do ano de 1935 vem trabalhar para o Cartório Notarial da Guarda, exercendo a partir do início de 1936 as funções de Conservador do Registo Predial da Guarda. A sua atividade como advogado inicia-se em novembro de 1937; no ano seguinte passou a estar ligado, como redator principal, ao “Distrito da Guarda”, semanário republicano regionalista.

Em 1945, João Gomes aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD); no ano de 1958 apoiou a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, presidindo à comissão distrital e dinamizando diversas ações e sessões eleitorais; nesse mesmo ano foi nomeado Delegado, na Guarda, da Ordem dos Advogados.

Nos anos seguintes desenvolveu uma determinada e notável ação política, no contexto da Oposição Democrática e como candidato, nas listas pelo distrito, à Assembleia Nacional.

Em abril de 1974 está na linha da frente do apoio ao Movimento das Forças Armadas, que saúda no decorrer da manifestação realizada a 26 desse mês junto ao Regimento de Infantaria 12, na Guarda; dois dias depois, juntamente com outras figuras políticas vai esperar Mário Soares na fronteira de Vilar Formoso.

Exerceu, no pós-25 de abril, funções docentes no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, lecionando a disciplina de “Introdução à Política”. A partir de finais de 1975, foi o primeiro presidente da Delegação Distrital da Guarda da Cruz Vermelha Portuguesa.

Em 1977, como presidente da Comissão Executiva da Subcomissão Regional, João Gomes é o responsável pelo programa das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, realizadas na Guarda. No ano seguinte foi nomeado Diretor Distrital da Segurança Social do Distrito; em julho de 1983 tomou posse do cargo de Governador Civil do Distrito da Guarda, onde esteve até dezembro de 1985.

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 O Dr. João Gomes, Governador Civil da Guarda, nas I Jornadas de Imprensa Regional Organizadas pelo Notícias da Guarda.

 

Esse lugar foi-me oferecido e quero acentuar que foi por uma questão moral que aceitei. Eu posso ser ainda útil ao meu distrito e essa foi uma das razões que me levaram a aceitar o cargo”. Afirmava, em janeiro de 1984 ao Notícias da Guarda. “Para mim, a política é, acima de tudo, um ato de honra, de carácter e dignidade. Isso é que não vejo em muita gente. Há muitas pessoas que aproveitam a política para outros fins, prejudicando realmente as verdadeiras posições doutrinárias e ideológicas”, acrescentava na entrevista que nos deu para esse jornal, deixando vincadas outras preocupações sobre a cidade e o distrito da Guarda, cuja unidade sempre defendeu.

Em novembro de 1985 foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade, pelo então Presidente da República. Ramalho Eanes considerou-o, num texto publicado em 2009, “um homem bom, que bem quis e soube render os seus talentos”, destacando também ser merecedor do epíteto de “Homem histórico”, “pela sua ação coerente, pela sua ação de uma vida, dedicada aos portugueses.”

Este ilustre guardense foi distinguido em várias ocasiões e lugares, nomeadamente pela Região Militar do Centro (em 1994) com a medalha de brasão de armas e pela Câmara Municipal da Guarda de quem recebeu, em 1988, a Medalha de Prata.

João Gomes faleceu, em Lisboa, a 23 de maio de 2003.

Aquando da comemoração dos 99 anos da implantação da República, a Guarda prestou-lhe uma justificada homenagem e a autarquia fez o lançamento do livro “João José Gomes – Homem do pensamento e da cultura / Homem da palavra e da acção”, que permite um melhor conhecimento do guardense que hoje recordamos; “advogado das liberdades e dos mais necessitados, mas sobretudo o intelectual que, sem desistência de qualquer tipo, sempre procurou estar totalmente atualizado com as grandes questões do nosso tempo”. Anotou Jorge Sampaio.

O seu nome passou está inscrito toponímia da Guarda, da sua cidade, numa rua da zona urbana do Torrão. Como lembrou a sua filha, João Gomes “serviu a Guarda desinteressadamente. Tinha a sua profissão e viveu dela. Nunca se serviu da política. Infelizmente, nem sempre foi compreendido. São, às vezes, ambições desmedidas e invejas mal contidas que provocam determinadas situações”. Escreveu Maria Isabel Gomes no livro atrás referenciado, onde Monteiro Valente (capitão de abril e o rosto da revolução na Guarda) sublinhou que preservar a memória de João Gomes “é fundamental para que as novas gerações compreendam melhor o que foi a ditadura e quanto custou a liberdade. Para que percebam também que o regime democrático em que vivem não foi o resultado de um acaso da história, de uma simples e normal mutação política, mas expressão culminante das aspirações de liberdade dos Portugueses”.

Honrar a memória de João Gomes passa por refletir sobre o seu exemplo, sobre sua vida e atividade política, sobre o seu pensamento, sobre o seu constante empenho no desenvolvimento social e cultural, sobre o seu contributo em prol das verdadeiras causas da cidade e do distrito, sobre o seu amor à Guarda e à liberdade.

A liberdade – dizia João Gomes – é sempre a liberdade daquele que pensa de uma maneira diferente do que nós pensamos”.

 

Helder Sequeira

 

domingo, 19 de abril de 2026

Vinil "Beat da Montanha": lançado o Vol. I


       No Café-Concerto do Teatro Municipal da Guarda foi  apresentado  na passada  sexta-feira, 17 de abril, o “Beat na Montanha Vol. 1” em formato vinil e digital, editado pelo TMG.

Este trabalho nasceu de processos criativos desenvolvidos em contextos educativos, comunitários e prisionais, reunindo rap e cultura bass como ferramentas de expressão coletiva. Com produção de B.Riddim (Luís Fidalgo Sequeira) e participação especial de Maze (Dealema), o álbum dá voz a histórias reais onde cada música é um encontro de talento, expressão, transformação e comunicação coletiva.


Beat na Montanha é um projeto de inclusão social através da arte onde música e palavra se encontram para dar a conhecer vozes que por norma não são ouvidas. “Une crianças, jovens e comunidades vulneráveis num encontro de criatividade, expressão e liberdade de movimento. Cada nota, cada verso, cada imagem é um gesto de inclusão, esperança e transformação”, aliado à sensibilidade artística de cada um.


“O Beat na Montanha aposta fortemente na inclusão social, não apenas como ação artística, mas como espaço de integração, comunidade, expressão de identidade, reconhecimento da diversidade e oportunidades iguais de participação criativa”, referiu Luís Fidalgo Sequeira.

Para ele, “a arte surge como ferramenta de transformação onde a música, a escrita, o som ou a imagem são vistos como meio de conectar diferentes pessoas, dar voz a quem normalmente não teria visibilidade, fomentando a autoestima, comunicação e empatia.”


Por outro lado, acrescentou, o Beat na Montanha “incentiva a descoberta de talento e expressão pessoal, oferecendo meios para que os participantes explorem diversas aptidões (ritmo, voz, imagem, vídeo, composição, escrita), e aprendam técnicas artísticas, colaborando e comunicando coletivamente. Insere grupos vulneráveis ou marginalizados (crianças em instituições sociais; reclusos) num contexto de criação artística coletiva e de valorização com a restante comunidade.”

Ao envolver escolas, instituições sociais e prisões, o Beat na Montanha demonstra que a arte, especialmente música e cultura urbana –onde neste projeto se destaca a sonoridade Hip-Hop – pode ser uma ponte entre realidades distintas e gerar laços comunitários, empatia, reconciliação e inclusão social.


Inclui ainda vertentes audiovisuais, design e ferramentas multimédia, ajudando a desenvolver competências técnicas e criativas nos participantes, algo que pode ter impacto educativo, cultural e até profissional no futuro dessas pessoas.

O vinil está já pode ser adquirido.






Guarda: PJ detém suspeitos de tráfico de droga


Inspetores do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da Guarda da Polícia Judiciária abordaram e detiveram, ontem, dois cidadãos estrangeiros que transportavam consigo cerca de 500 doses individuais de resina de haxixe e 120 doses individuais de cocaína. A detenção surge na sequência de ações de vigilância e prevenção.


Das diligências investigatórias efetuadas, aferiu-se que ambos difundiam na sua comunidade estes produtos estupefacientes e, após esta informação, foram vigiados e abordados, precisamente, quando se encontravam na posse das referidas drogas ilícitas.

Os detidos irão ser presentes ao Tribunal Judicial de Idanha-a-Nova. O titular do inquérito é o Ministério Público de Idanha-a-Nova.


sábado, 18 de abril de 2026

UEPS : Dia Aberto à Comunidade Estudantil

 

No âmbito das comemorações do 6.º aniversário, a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) promoveu um Dia Aberto dirigido à comunidade estudantil da Guarda, proporcionando um contacto direto com a realidade operacional da Unidade.


Durante a iniciativa, foram apresentadas algumas das capacidades, incluindo demonstrações práticas e atividades de carácter técnico e lúdico, como a escalada, permitindo aos participantes experimentar algumas das exigências inerentes à missão da UEPS.

Esta ação teve como objetivo aproximar os jovens da proteção civil, sensibilizando para a importância da segurança, da prevenção e do serviço público.

No próximo dia 22, terá lugar a cerimónia militar do Dia da Unidade, que incluirá a imposição de boinas aos militares que concluíram o 5.º Curso de Emergência de Proteção e Socorro.


Fonte e foto: UEPS


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Lembrar Carolina Beatriz Ângelo


Fundadora da Associação da Propaganda Feminina, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer, em Portugal, o direito de voto, posicionando-se também num lugar de destaque no quadro europeu, ao nível da intervenção cívica.

Nascida na Guarda, a 16 de abril de 1878, aqui frequentou o Liceu, a partir de 1891, antes de rumar para Lisboa onde estudou na Escola Politécnica e, dois anos depois, na Escola Médico-Cirúrgica, concluindo o curso de Medicina em 1902. Nesse mesmo ano casou com o médico Januário Barreto, natural de Aldeia do Souto (Covilhã).

Carolina Beatriz Ângelo, para além do facto que a tem envolvido em singularidade e distinção, é conhecida igualmente por ter sido a primeira mulher portuguesa a desenvolver atividade cirúrgica, no Hospital de São José, em Lisboa; naquela cidade teve consultório na Rua do Almada.

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Tendo abraçado desde cedo a causa feminista, onde pontuaram nomes como Maria do Carmo Lopes, Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório e Domitila de Carvalho, entre outras, Carolina Ângelo viria a aderir à Maçonaria; fundadora, e elemento activo, da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas afastou-se, por divergência de princípios com outras dirigentes, e empenhou-se na criação da Associação de Propaganda Feminista, a que, aliás, presidiu.

Foi um período de grande envolvimento na reivindicação do sufrágio feminino e na exigência do reconhecimento dos direitos das mulheres. Em 1911, no mês de Fevereiro, subscreve, juntamente com outras destacadas figuras feministas, um documento – entregue a Teófilo Braga – em que solicita o direito de voto para a mulher, com reconhecida independência económica. Recorde-se que a primeira lei eleitoral da República Portuguesa condicionava o direito de voto aos cidadãos “com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família”.

Em Tribunal argumentou, em favor do exercício do seu direito de voto, com o facto de ser viúva (o marido falecera em Junho de 1910) e “chefe de família”. Em 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro, considerando que excluir a mulher “é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e da justiça proclamada pelo partido republicano”, sentenciou que “a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral em preparação no lugar e com os requisitos precisos”.

Nesse mesmo ano, a 28 de Maio, e nas eleições para a Assembleia Constituinte, protagonizou o primeiro voto por parte da mulher portuguesa; acto que teve lugar na assembleia eleitoral de S. Jorge de Arroios (Lisboa).

Quando do seu papel de liderança e da sua combatividade em prol dos ideais feministas e republicanos muito havia a esperar, a notícia da morte – a 3 de Outubro de 1911 – de Carolina Ângelo colheu de surpresa mais diversos meios políticos, intelectuais e sociais.

Como escreveu Antonieta Garcia, no seu excelente trabalho “Carolina Beatriz Ângelo – Guarda(Dora) da Liberdade”, a médica guardense “na luta pelo direito ao sufrágio, pela educação feminina, pela emancipação, ergueu a voz, envolveu-se na regeneração do país, na utopia republicana”. Afirmando-se como “mulher de um tempo em devir, moderna, audaz, com talento, com coragem, sabedoria, intuiu que o feminismo não podia ter pressa mas, tacitamente, interveio cultural e politicamente nas res publica, abraçando a causa da igualdade entre os géneros”.

Pioneira do sufrágio feminino, em Portugal, o nome de Carolina Beatriz Ângelo faz parte da toponímia da Guarda e de outros centros urbanos, como Lisboa, Porto, Tavira ou Almada, e foi atribuído também à unidade hospitalar de Loures/Odivelas. A Guarda, contudo, é indissociável desta personalidade que “internacionalizou o feminismo português”.

A toponímia guardense tem registado (há cerca de duas décadas)  o seu nome numa das ruas da zona outrora pertencente à Quinta do Pinheiro.


Hélder Sequeira