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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A indiferença perante o património...


 Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, comentou-nos que “o património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”.

Acrescentava, depois que “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Caetano conhece muito bem a realidade distrital, onde tem desenvolvido uma variada e meticulosa investigação que lhe confirma a evidência. “O distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”. Aludindo ao “extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou”, confessa que é difícil fazer escolhas ou distinções, mas lembra todo um “património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…”.

A ação urgente e pragmática das entidades que tutelam o património é um dos sublinhados que faz nessa entrevista, onde defende que “a curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.”

No decorrer das investigações efetuadas, na nossa zona, tem tido várias surpresas, face a importantes peças do nosso património, de “uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas.”

Outra surpresa, destacou ainda, prende-se com “a abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados”; outrossim os dois “chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do século passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.”

O nosso património não pode ser arrumado para um canto, esperando melhores momentos ou aguardando predisposições pessoais e políticas, sob a oportunidade de agendas eleitorais, sempre com argumentos financeiros subjacentes no contraponto com outras necessidades prioritárias.

Claro que resolver problemas equacionados como prioridade para a comunidade regional não significa haver impedimento de, paralelamente, as entidades ou instituições responsáveis se empenharem na procura das melhores soluções e da sua concretização. Veja-se, a título de exemplo, o que tem sucedido com o património construído do Sanatório Sousa Martins; um progressivo, constrangedor e reprovável adiamento da salvaguarda dos antigos e emblemáticos pavilhões que integravam aquela reputada unidade de tratamento da tuberculose. E sim, o Sanatório Sousa Martins foi um ex-libris da Guarda, e não os seus pavilhões individualmente considerados, como ouvíamos recentemente pela voz de quem tem obrigação de conhecer, minimamente, a história do Sanatório da Guarda…

Pavilhão António Lencastre_Sanatório_foto HS_

Ao longo das últimas cinco décadas houve muitas propostas e soluções apresentadas; assim não é por falta de diagnóstico, mas de tratamento, que a “saúde” dos pavilhões Rainha D. Amélia e D. António de Lencastre (já temos ouvido falar em D. Leonor de Lencastre…) não mereceu a mais que justa, premente e justificada atenção.

É contra esta indiferença que temos de agir, sem tibiezas, em prol da salvaguarda e promoção do nosso património, globalmente entendido; numa atuação inequívoca, assente num espírito de diálogo crítico e construtivo, recusando o anonimato, mas privilegiando a frontalidade e seriedade. É fundamental que deixemos de ser “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados” nas expressivas palavras de Miguel Torga.

Saibamos valorizar o nosso património, conhecer o passado para melhor compreendermos e vivermos o presente, garantindo o seu legado para o futuro!...


Hélder Sequeira 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mobilidade Solidária

 

A Fundação EDP vai apoiar, na edição de 2025 do programa Mobilidade Solidária, 23 instituições sociais em todo o país, com impacto estimado na vida de 22 mil pessoas.

Os donativos, destinados à aquisição de viaturas 100% elétricas e outros equipamentos destinados à mobilidade elétrica, materializam-se num apoio de 15 mil euros a cada instituição.

Mobilidade Solidária_

Estes apoios vão permitir que as instituições reforcem a sua intervenção junto de pessoas em situação de vulnerabilidade como por exemplo aumentando o acompanhamento de idosos e pessoas com necessidades especiais a consultas médicas, rastreios de saúde móveis direcionados a pessoas em situação de sem abrigo e dependentes, apoio domiciliário a pessoas idosas, e distribuição de bens essenciais a famílias em situação de carência.

“Com o programa Mobilidade Solidária reforçamos a capacidade operacional do setor social no caminho para uma transição energética justa. Ao apoiar a adoção de viaturas elétricas aumentamos eficiência, reduzimos custos estruturais e damos às instituições mais autonomia para servir melhor as comunidades. Impacto ambiental e impacto social não competem. Quando bem desenhados potenciam-se mutuamente”, referiu Martin Salgado, da Fundação EDP.
O processo de candidaturas incentivou propostas conjuntas, promovendo parcerias e cooperação institucional, de forma a maximizar a utilização do veículo e estimular a partilha de recursos como boa prática de gestão.

Lançado em 2022, o Mobilidade Solidária tem como objetivo apoiar organizações do setor social na transição para a mobilidade elétrica, permitindo reduzir custos operacionais, ampliar o alcance das respostas sociais e contribuir para a descarbonização do território. Desde o arranque, já beneficiou 20 IPSS, que estimam que este apoio tenha permitindo percorrer 207 868 km elétricos, evitar 27 toneladas de CO₂ e impactar 6 871 beneficiários diretos, traduzindo-se numa poupança média anual de 1 200 euros por instituição.

No distrito da Guarda foi apoiado o projeto da Fundação D. Laura Santos (Moimenta da Serra, Gouveia) instituição particular de solidariedade social, com valências de apoio a idosos e crianças, assim como uma vertente cultural, formativa e desportiva.


 

Castelo do Sabugal


 

Projeto de Biblioterapia na Benespera



Na Benespera vai ser assinalado, no próximo dia 17 de janeiro, o Dia da Freguesia, data da celebração do seu padroeiro, Santo Antão.

O programa tem como um dos momentos altos a inauguração, pelas 15 horas, da Biblioteca Manuel Vítor da Costa Gomes; este é um novo espaço dedicado à leitura, ao conhecimento e à valorização da memória local, prestando homenagem a uma figura marcante na identidade da freguesia.

De acordo com informação divulgada pela Junta de Freguesia da Benespera, a criação deste espaço conta, também, com o apoio da Associação Cultural e Recreativa de Benespera com a cedência de livros e reforça o papel fundamental do associativismo local.

No âmbito desta inauguração terá lugar a palestra subordinada ao tema “Livros: aliados terapêuticos”, proferida por João Barradas, médico da Unidade Local de Saúde da Guarda. O papel da leitura como ferramenta de bem-estar, desenvolvimento pessoal e apoio à saúde mental será a temática a desenvolver nesta palestra.

O evento contará ainda com a presença da equipa de família da Unidade de Saúde Familiar Carolina Beatriz Ângelo que presta cuidados no polo de saúde da Benespera que irá enquadrar e desenvolver o tema da Biblioterapia nesse polo, reforçando a ligação entre cultura, leitura e saúde comunitária.

“O Dia da Freguesia da Benespera afirma-se, assim, como um momento de encontro da comunidade, de celebração das suas raízes e de aposta em iniciativas inovadoras que promovem a qualidade de vida e o acesso à cultura na Beira Interior”, refere a Junta de Freguesia da Benespera.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por Castelo Mendo...


 

Nova direção do Centro Cultural da Guarda



No Centro Cultural da Guarda teve lugar no passado dia 9 de janeiro a tomada de posse dos órgãos sociais daquela instituição onde Daniel Lucas sucede a Albino Bárbara na presidência da direção.

Daniel Lucas_CCultural Guarda 

Daniel Lucas (foto de arquivo)

 

Anabela Guerra, Pedro Correia, Joaquim Mingacho Helena Pontinha, Maria Elvira Bárbara e João Marcelino fazem parte da nova equipa dirigente; como suplentes estão Diana Santos, Mariana Pereira e Maria de Fátima Duarte.

A Assembleia Geral passa a ser presidida por Albino Bárbara (anteriormente era dirigida por José Valbom) que está acompanhado por Carlos Gonçalves e Carla Fantasia; como suplentes estão Ema Mateus, Gonçalo Valbom e Luís Baptista Martins.

O Conselho Fiscal é presidido Alexandre Gonçalves; este órgão integra Cláudia Amaral e Raúl Ribeiro; como suplentes figuram Humberto Vaz e Agostinho Silva.

O Centro Cultural da Guarda – que tem como lema “Pela Guarda, pela Arte, pela Cultura” – é uma instituição que continua a desenvolver o seu projeto, intervindo no quotidiano citadino através das suas várias valências.

Compreenderemos melhor a sua eminente função cultural e social se recuarmos à primeira metade do século XX e olharmos para panorama cultural da Guarda, nessa época; período onde foram registadas distintas fases, entre as quais se evidenciaram o teatro e a música; nesta última área destacaram-se os Orfeões Egitaniense e o Egitânia, bem como a Banda do Regimento de Infantaria 12 que animava as tardes de domingo na Praça Velha e, depois, no jardim José de Lemos, conhecido por Campo.

No ano de 1956 nasceu uma delegação do Movimento Pró-Arte (organização lisboeta dedicada, essencialmente, à música) que despertou muito interesse nos meios intelectuais, propondo-se oferecer música de qualidade. O Montepio Egitaniense acolheu esta delegação, tendo sido criado um curso de música, destinado a todos os interessados.

Começou, por essa altura, a germinar a ideia de uma nova estrutura vocacionada para a cultura. Como foi realçado, “a criação do Centro Cultural da Guarda foi um sonho lindo, tornado realidade por um grupo de guardenses apaixonados pela música, presididos e orientados pelo Dr. Mendes Fernandes e galvanizados pelo entusiasmo e persistência do Dr. Virgílio de Carvalho”.

Foi este grupo que, sensibilizando a direção do Montepio Egitaniense, passou a dispor de um salão onde promoveu audições musicais, abertas ao público, empenhando-se, igualmente, no desenvolvimento de uma ação formativa. A atividade da delegação da Pró-Arte não teve a continuidade desejada e surgiram alguns interregnos.

Após um período de alguma estagnação, em termos de atividade, os dinamizadores do referido núcleo cultural concluíram, definitivamente, pela necessidade de uma instituição que funcionasse como plataforma impulsionadora de projetos e incrementasse a formação musical.

O Dr. Virgílio de Carvalho presidiu à Comissão Promotora do Centro Cultural. Os estatutos do Centro Cultural da Guarda foram apresentados, para a devida aprovação ministerial, em 17 de novembro de 1962.

H.S.

Recomendação para o reconhecimento do cobertor de papa

 


Em Diário da República foi publicada na passada segunda-feira, 12 de janeiro,  a Resolução n.º 4/2026 da Assembleia da República que recomenda ao Governo o reconhecimento e a salvaguarda do Cobertor de Papa como património cultural imaterial Esta resolução recomenda ainda o apoio aos artesãos locais e o incentivo a “práticas de formação, inovação e transmissão intergeracional”.

No ponto seguinte a resolução da Assembleia da República recomenda ao Governo que “integre o Cobertor de Papa em estratégias de turismo cultural sustentável, valorizando-o como símbolo identitário e criativo da Guarda e da região das Beiras e da Serra da Estrela”, defendendo ainda a colaboração “com instituições, associações e agentes culturais na promoção contínua e divulgação desta expressão artística exclusiva, incluindo-a numa estratégia de marketing territorial com alcance nacional e internacional.”

O cobertor de papa é uma manta tradicional da zona da Serra da Estrela, produzida – há vários séculos – a partir da lã churra (mais macia) que é retirada de ovelhas autóctones (ovelha mondegueira). Após o necessário tratamento, a lã é tecida em teares artesanais e de acordo com métodos tradicionais, associando cores e desenhos com perfil diferenciador. O processo termina com o esticar dos cobertores nas “râmbolas” onde secam, ao ar livre, e adquirem o seu aspeto final.

Existem o cobertor branco com três listas castanhas, a manta barrenta ou manta do pastor, a manta lobeira ou manta espanhola, o cobertor branco, o cobertor bordado à mão e o cobertor de papa em várias cores (com o seu conhecido pelo comprido).

O seu uso não se fica apenas pela utilização como elemento de conforto térmico (na cama o seu pelo denso e pesado facilita a transpiração durante o sono e puxa a humidade para a superfície exterior do cobertor), mas passa também por distinto complemento de decoração de interiores.

A Associação Genuíno Cobertor da Papa, sediada em Maçainhas (Guarda) , tem nos seus objetivos a produção daquele autêntico produto e a garantia da sua autenticidade.

Cobertor de Papa _HS_

O declínio da indústria da lã e o surgimento de fibras sintéticas originaram um cenário onde quase se desenhou a sua extinção. Elisa Pinheiro, que desenvolveu trabalhos de pesquisa sobre o cobertor de papa, assinalou-o como “produto final de um longo processo que plasma uma densidade de memórias, sejam elas as dos homens que os produziram, sejam daqueles que, ao longo dos tempos, os consumiram, uns e outros unidos pelos fios de lã que os teceram, num tempo longo da nossa história dos lanifícios”, sublinhando o seu enquadramento “em práticas ancestrais que importa salvaguardar”. Deste modo, é urgente preservá-lo, defender a sua autenticidade, a par de permanentes ações de valorização e promoção.

Este não é um trabalho simples, pois há que equacionar múltiplas realidades e condicionantes, como sejam a necessidade da existência de mais rebanhos de ovelhas autóctones – o que implica olhar com objetividade para a realidade agrícola, para as dificuldades relacionadas com a criação e alimentação dos animais, para o número de pessoas que se dedicam ao pastoreio e ao ciclo da produção de queijo, para as consequências das alterações climáticas que têm condicionado as áreas de pastagens e aumentado as dificuldades ao nível económico/financeiro) – , mais gente a trabalhar no campo e a saber valorizar/rentabilizar as potencialidades endógenas, uma maior consciencialização de todos no que concerne à qualidade e valor dos nossos produtos regionais, optando pela sua compra e incrementando a economia local/regional.

 

Hélder Sequeira