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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Jorge Esteves: um rosto da rádio e televisão


O jornalismo vive em Portugal uma “crise profunda”, considera Jorge Esteves correspondente da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, e com largos anos de experiência na atividade informativa. A sua ligação à comunicação social começou na rádio, meio que será sempre o único a permitir “estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a estação”.

Jorge Esteves nasceu (em 1965) no Ninho do Açôr, concelho de Castelo Branco, mas cresceu na Covilhã, onde acabou por ingressar na Universidade da Beira Interior. Em 2004, com a junção da RDP e da RTP numa única empresa, foi convidado a exercer as funções de jornalista e de coordenador da delegação comum da rádio e da televisão públicas que a Rádio e Televisão de Portugal decidiu criar na cidade da Guarda; frequentou a Licenciatura em Comunicação Social na UBI e completou vários cursos profissionais de Jornalismo em áreas como o Direito, Proteção Civil, Medicina Legal e Segurança Interna.

JORGE ESTEVES_rtp_ Correio Guarda

Como surgiu a tua entrada para a rádio e para o jornalismo?

Por uma situação fortuita, na altura em que frequentava o Curso de Matemática/Informática na UBI, e quando comecei a sentir que não tinha afinidades com a área onde ingressei “por engano”, comecei a colaborar diariamente nas emissões ainda “piratas” da Rádio Clube da Covilhã, como locutor e também como “uma espécie de jornalista”.

Passei a dedicar mais tempo à Rádio do que ao curso superior e acabei por ser convidado a integrar profissionalmente a equipa inicial da RDP/Centro-Rádio Covilhã, delegação que a empresa Radiodifusão Portuguesa, detentora do Serviço Público de Rádio decidiu abrir na cidade beirã.

Com o fim das Rádios Locais da RDP e a criação em 1993, de uma rede de correspondentes nacionais, com presença em vários distritos do país, acabei por ser convidado a assumir as funções na Guarda, a partir das instalações do antigo Emissor Regional e posteriormente da RDP/Centro-Rádio Guarda. Funções que em 1996 passei a acumular com as de Jornalista/Correspondente da SIC Televisão, a partir da Delegação criada na Universidade da Beira Interior.

Em 2004, com a fusão entre a RDP e a RTP acabei por ser convidado como quadro da nova empresa Rádio e Televisão de Portugal a exercer as funções de Jornalista Coordenador da Delegação Comum da Rádio e Televisão públicas, que o Grupo RTP decidiu criar no distrito da Guarda, cessando aí a colaboração com a SIC.

 

O que te fascinava mais na rádio, nessa altura?

A proximidade com o público e o território da Beira Interior, região onde por opção pessoal, profissional e familiar decidi manter-me.

Também me motivava muito a possibilidade de levar à dimensão nacional e internacional e também junto dos centros e instâncias do Poder, a voz e os anseios desta população, ainda muito amarrada e agarrada às teses da “Interioridade”…

Nas dificuldades técnicas e geográficas que enfrentava diariamente no terreno, encontrei sempre motivação extra para procurar ou inventar soluções.

 

Achas que a tua geração vivia a rádio de uma forma diferente do que acontece atualmente?

Substancialmente diferente, muito pela falta meios técnicos, de formas de fazer chegar os sons e a reportagem completa ao estúdio, de fazer pesquisa de informação ou conseguir contactar fontes. Era o tempo em que eu andava sempre com uma lista telefónica, do tipo “Páginas Amarelas” no carro, para conseguir até perceber em que zona era uma determinada aldeia ou freguesia, ou poder fazer um contacto para um Posto Público, para conseguir alguma informação útil.

Também o facto da maior parte das Rádios Nacionais não ter profissionais ou colaboradores espalhados pelo país, fazia com que fora da Grande Lisboa e do Grande Porto, em toda a parte restante do território nacional, as Rádios só falassem de alguma coisa da região, se fosse uma tragédia de grande impacto…E lembro que durante muitos anos, era só a região da Guarda que tinha a sua própria estação de rádio local, a Altitude.

 

E como conciliavas o trabalho entre a Rádio e a Televisão?

Em regra, as duas funções são exercidas em complementaridade, dando para fazer diretos seguidos ou edições diferenciadas para cada um dos meios. Sendo que em situações mais complexas, vai havendo a possibilidade de desdobrar equipas, recorrendo a colegas das delegações vizinhas, que ajudam a cumprir a missão.

JORGE ESTEVES_rtp_ (Correio Guarda)

Quando deixaste a SIC, e o teu trabalho passou a ser na rádio e na televisão públicas, houve mudanças significativas?

Posso dizer que acabou por acontecer numa altura crítica para a SIC, que até aí e logo desde a sua criação como Televisão Independente, era “A Televisão”…

A RTP estava nessa altura muito refém de algum conservadorismo e obsoletismo, e perturbada pelo fulgurante surgimento dos privados.

A TVI, antes do fenómeno Big Brother, ainda era conhecida como a Televisão da Igreja e a SIC, de Pinto Balsemão e Emídio Rangel, já tinha trilhado o caminho de conquistar públicos através de uma programação moderna e popular, produzindo ao mesmo tempo e de forma separada, uma informação irreverente e independente dos poderes, como Contra-Poder ao lado do cidadão.

Só que o facto da SIC ter abdicado do tal programa Big Brother para a TVI, veio a revolucionar as audiências, fazendo com que se entrasse num total desgoverno, com confusão de critérios entre programas e noticiários, com o sensacionalismo a tomar o lugar do rigor.

Foi a oportunidade para a RTP se reorientar, como Estação de Referência, deixando as duas Estações privadas nessa luta inglória pelas audiências e pela sua quota de mercado.

Foi esse o facto, que me permitiu ficar na condição de representante da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, com a mesma tranquilidade e autonomia profissional que tinha antes, como quadro da RDP e colaborador da SIC na região.

 

Como vês a evolução que se verificou, ao nível dos media, desde os teus primeiros anos de atividade nesta área?

A nível técnico, foi uma verdadeira revolução; com os telemóveis, os meios de direto através das redes de dados, as possibilidades de enviar ficheiros ou fazer pesquisas on-line, a quase fazerem esquecer o tempo em que se tinha de procurar um telefone fixo, para conseguir enviar um som através do encosto do gravador, ao bocal do aparelho.

Quanto à qualidade de Informação rigorosa disponível, já não vejo um cenário tão positivo…

A luta pelas audiências a todo o custo, e a confusão de públicos mal formados que não estão preparados para selecionar Órgãos de Comunicação Social credíveis; e pior ainda, para separarem o que leem, ouvem ou veem nas Redes Sociais, daquilo que é uma informação rigorosa, produzida e comunicada com critérios de ética e deontologia jornalística.

Facilita-se assim um terreno fértil, para as tão propaladas Fake-News

 

Como está hoje o jornalismo em Portugal? Achas que há uma crise no jornalismo e na comunicação social?

Uma crise muito profunda, pelas razões explanadas na resposta anterior.

As primeiras vítimas acabam por ser os profissionais mais íntegros, que deixam de ter condições para exercer a profissão com independência e condições básicas de estabilidade profissional; as seguintes são o público, que deixa de ser servido com a qualidade que só o rigor jornalístico garante.

 

Consideras que os meios nacionais, mormente aqueles com quem trabalhas, dão a devida e permanente atenção ao que se passa no interior? Há falta de recursos humanos e técnicos?

Os recursos técnicos e humanos nunca serão os desejáveis, mas a postura com que o profissional e o órgão de Comunicação Social se posicionam no território, pode fazer a diferença.

Pela nossa parte, o território poderá sempre contar com uma presença que não será nunca “só prá desgraça”!...

 

No contexto informativo, e face ao trabalho que tens desenvolvido, como vês a importância do programa “Portugal em Direto”?

É o noticiário do país, em toda a sua extensão, de Norte a Sul, do Litoral ao Interior, e nas suas duas modalidades, de Rádio e Televisão. Para informar os residentes em Portugal, mas também os emigrantes lá fora, sobre o que se passa neste cantinho.

Na Antena 1 e RDP Internacional das 13:15 às 14h, e na RTP 1 e Internacional das 17.30 às 19h. Hora de Portugal continental e ambos de segunda a sexta.

JORGE ESTEVES_RTP_1

Quais os trabalhos ou acontecimentos que te deixaram, até agora, melhores recordações? E as piores?

As piores, obviamente os incêndios e as suas consequências, e também os sustos e perigos a que nos obrigam no seu acompanhamento.

Além de todos os tipos de acidentes que provocam mortes ou ferimentos graves, ou ainda grandes prejuízos ambientais, e aos quais também não podemos deixar de garantir cobertura.

 

Consideras que na atualidade o jornalista, e sobretudo os que trabalham no interior do país, têm que “filtrar” com maior cuidado as fontes de informação?

A proximidade, por vezes traz problemas acrescidos na separação de funções entre a fonte e o jornalista.

A necessidade de triar a informação verificando a veracidade do que a fonte nos está a passar, considero que é tão evidente aqui, como em qualquer parte do mundo. O facto de numa qualquer matéria informativa, haver sempre partes interessadas, obriga o jornalista a atuar permanentemente com o devido profissionalismo, de forma a não deixar que o interesse público seja lesado, ou que uma parte mais indefesa se torne numa vítima.

 

Quais são os principais problemas com que debatem os jornalistas que trabalham no interior do país? As dificuldades são maiores?

Nos chamados territórios de Baixa Densidade, os problemas como a baixa expressão do público e de um meio empresarial que garanta um bom mercado publicitário, aumenta a dependência económica dos Órgãos de comunicação Social, de instituições como as autarquias ou os organismos desconcentrados da Administração Pública. E por arrastamento também as opções e a liberdade editorial.

 

O teu profundo conhecimento da região tem sido útil para as tuas reportagens ou diretos?

Claro que as mais de três décadas de serviço e os milhares de quilómetros percorridos, para os milhares de reportagens feitas neste território, fazem ter um conhecimento dos locais e pessoas que ajuda muito à agenda informativa e de contactos. E também facilita muito a comunicação em direto, sem recurso a cábulas ou notas escritas…

 

As agendas políticas condicionam a informação?

As agendas políticas fazem parte da informação. Deixarmo-nos condicionar por elas, ou servir-nos delas para alimentar os conteúdos, depende só da nossa postura perante elas.

 

Como vês o atual panorama da imprensa regional? A imprensa regional tem vindo a perder a influência? Corre riscos de desaparecer?

A forma de se adaptar e de se reinventar perante as novas realidades é que vai ditar o seu futuro. O setor do Multimédia e das Multiplataformas traz um novo potencial também para os órgãos regionais.

A proximidade será sempre uma vantagem a aproveitar, na relação com os públicos e os factos noticiosos.

 

E a Rádio? Como vês o presente e o futuro, no contexto regional e local?

A Rádio será sempre o único meio que nos permite estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a Estação, e podendo estar a desenvolver qualquer outra atividade, sem a perturbar. Em relação ao futuro, a resposta já a dei, anteriormente.

 

Há algum trabalho especial que gostasses de realizar, sobre a região onde tens desenvolvido a tua atividade jornalística?

Trabalhando com a independência, autonomia e liberdade com que me é permitido desempenhar as minhas funções, diria que só estou limitado pelas realidades que fazem com que alguns projetos continuem adiados e muitas potencialidades se mantenham por aproveitar.

Ou seja, é isso que faz com que haja reportagens que gostava de fazer e assim sendo, ainda não fiz…

 

E quanto a projetos pessoais, em contexto da comunicação social?

Muito sinceramente, na fase da vida profissional em que me encontro, não tenho outros projetos que não sejam, chegar à reforma com dignidade, ajudar quem me suceda a ficar com parte do meu conhecimento sobre este território, e eventualmente se houver algum interesse ou reconhecimento de utilidade na outra parte, retribuir à Rádio Clube da Covilhã, com a mesma colaboração abnegada com que iniciei todo este percurso, aquilo que foi uma carreira profissional com que nunca tinha sonhado antes.

 

Helder Sequeira /Correio da Guarda

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

PJ da Guarda detém suspeito de tentativas de homicídio

 

A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal da Guarda, em estreita articulação com o DIAP de Castelo Branco, deteve, ontem, um homem suspeito da autoria de dois crimes de homicídio qualificado na forma tentada, cometidos a 15 de dezembro do ano passado, na Covilhã.

O agressor, com 37 anos, foi convidado a afastar-se das portas de um bar que tinha acabado de frequentar nessa noite, por estar a consumir estupefacientes.

Nessa altura, tentou esfaquear o proprietário do estabelecimento, que acabou por não ser atingido dado ter conseguido fugir. Todavia, acabou por deliberadamente atingir um outro cliente que interveio, ferindo-o profundamente no pescoço e causando-lhe perigo para a vida.


O suspeito foi localizado com a colaboração da PSP da Covilhã.

O detido foi presente a primeiro interrogatório judicial para aplicação das adequadas medidas de coação. O inquérito é titulado pelo DIAP de Castelo Branco.


CCG: Pela Guarda, pela cultura


 Pela Guarda, pela Arte, pela Cultura” é o lema do Centro Cultural da Guarda. Esta instituição bem merece o nosso aplauso, pela sua historial, pelo seu contributo na promoção da cultura e da Guarda, pelo exemplo de determinação dos seus sucessivos dirigentes.



    Recorde-se – e como já tínhamos escrito numa publicação editada a propósito da passagem do 50º aniversário – que na primeira metade do século XX o panorama cultural desta cidade passou por distintas fases, nalgumas das quais se evidenciaram o teatro e a música; nesta última área evidenciaram-se os Orfeões Egitaniense e o Egitânia, bem como a Banda do Regimento de Infantaria 12 que animava as tardes de domingo na Praça Velha e, depois, no jardim José de Lemos, conhecido por Campo.

    Em 1956 nasceu uma delegação do Movimento Pró-Arte (organização lisboeta dedicada, essencialmente, à música) que despertou muito interesse nos meios intelectuais, propondo-se oferecer música de qualidade. O Montepio Egitaniense acolheu esta delegação, tendo sido criado um curso de música, destinado a todos os interessados. Começou, então, a germinar a ideia de uma nova estrutura vocacionada para a cultura. Como foi realçado, “a criação do Centro Cultural da Guarda foi um sonho lindo, tornado realidade por um grupo de guardenses apaixonados pela música, presididos e orientados pelo Dr. Mendes Fernandes e galvanizados pelo entusiasmo e persistência do Dr. Virgílio de Carvalho”.

    Foi este grupo que, sensibilizando a direção do Montepio Egitaniense, passou a dispor de um salão onde promoveu audições musicais, abertas ao público, empenhando-se, igualmente, no desenvolvimento de uma ação formativa. A atividade da delegação da Pró-Arte não teve a continuidade desejada e surgiram alguns interregnos. Após um período de alguma estagnação, em termos de atividade, os dinamizadores do referido núcleo cultural concluíram, definitivamente, pela necessidade de uma instituição que funcionasse como plataforma impulsionadora de projetos e incrementasse a formação musical. O Dr. Virgílio de Carvalho presidiu à Comissão Promotora do Centro Cultural.

    Os estatutos do Centro Cultural da Guarda foram apresentados, para a devida aprovação ministerial, em 17 de Novembro de 1962, efeméride que lembramos hoje.

    A história do Centro Cultural é o somatório da ação e empenho de muitas personalidades e outrossim dos contributos dos seus associados, em especial aqueles que intervieram, ativa e diretamente, nas atividades das várias secções.

    A identidade do Centro Cultural da Guarda tem sido, ao longo destes 53 anos, preservada e suportada pelas pedras basilares do lema que o CCG adotou desde o seu nascimento. O percurso desta instituição assenta, assim, numa convergência de esforços mas muito deve a personalidades que, com a sua cultura, saber, entusiamo e capacidade de realização souberam manter e revitalizar um projeto de grande alcance cultural e social; tiveram uma consciência clara das dificuldades mas não desistiram nem perderam a esperança.

    “Não é por as coisas serem difíceis que não temos ousadia. É por não termos ousadia que as coisas são difíceis”, como disse Séneca.


Helder Sequeira

Memórias citadinas...




Guarda, Praça Luís de Camões (Praça Velha). Década de 80

Recordar Carolina Beatriz Ângelo...


Fundadora da Associação da Propaganda Feminina, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer, em Portugal, o direito de voto, posicionando-se também num lugar de destaque no quadro europeu, ao nível da intervenção cívica.

Nascida na Guarda, a 20 de Maio de 1877, aqui frequentou o Liceu, a partir de 1891, antes de rumar para Lisboa onde estudou na Escola Politécnica e, dois anos depois, na Escola Médico-Cirúrgica, concluindo o curso de Medicina em 1902. Nesse mesmo ano casou com o médico Januário Barreto, natural de Aldeia do Souto (Covilhã).

Carolina Beatriz Ângelo, para além do facto que a tem envolvido em singularidade e distinção, é conhecida igualmente por ter sido a primeira mulher portuguesa a desenvolver atividade cirúrgica, no Hospital de São José, em Lisboa; naquela cidade teve consultório na Rua do Almada.

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Tendo abraçado desde cedo a causa feminista, onde pontuaram nomes como Maria do Carmo Lopes, Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório e Domitila de Carvalho, entre outras, Carolina Ângelo viria a aderir à Maçonaria; fundadora, e elemento ativo, da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas afastou-se, por divergência de princípios com outras dirigentes, e empenhou-se na criação da Associação de Propaganda Feminista, a que, aliás, presidiu.

Foi um período de grande envolvimento na reivindicação do sufrágio feminino e na exigência do reconhecimento dos direitos das mulheres. Em 1911, no mês de Fevereiro, subscreve, juntamente com outras destacadas figuras feministas, um documento – entregue a Teófilo Braga – em que solicita o direito de voto para a mulher, com reconhecida independência económica. Recorde-se que a primeira lei eleitoral da República Portuguesa condicionava o direito de voto aos cidadãos “com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família”.

Em Tribunal argumentou, em favor do exercício do seu direito de voto, com o facto de ser viúva (o marido falecera em Junho de 1910) e “chefe de família”. Em 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro, considerando que excluir a mulher “é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e da justiça proclamada pelo partido republicano”, sentenciou que “a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral em preparação no lugar e com os requisitos precisos”.

Nesse mesmo ano, a 28 de Maio, e nas eleições para a Assembleia Constituinte, protagonizou o primeiro voto por parte da mulher portuguesa; ato que teve lugar na assembleia eleitoral de S. Jorge de Arroios (Lisboa).

Quando do seu papel de liderança e da sua combatividade em prol dos ideais feministas e republicanos muito havia a esperar, a notícia da morte – a 3 de Outubro de 1911 – de Carolina Ângelo colheu de surpresa mais diversos meios políticos, intelectuais e sociais.

Como escreveu Antonieta Garcia, no seu excelente trabalho “Carolina Beatriz Ângelo – Guarda(Dora) da Liberdade”, a médica guardense “na luta pelo direito ao sufrágio, pela educação feminina, pela emancipação, ergueu a voz, envolveu-se na regeneração do país, na utopia republicana”. Afirmando-se como “mulher de um tempo em devir, moderna, audaz, com talento, com coragem, sabedoria, intuiu que o feminismo não podia ter pressa mas, tacitamente, interveio cultural e politicamente nas res publica, abraçando a causa da igualdade entre os géneros”.

Pioneira do sufrágio feminino, em Portugal, o nome de Carolina Beatriz Ângelo faz parte da toponímia da Guarda e de outros centros urbanos, como Lisboa, Porto, Tavira ou Almada, e foi atribuído também à unidade hospitalar de Loures/Odivelas. A Guarda, contudo, é indissociável desta personalidade que “internacionalizou o feminismo português”.

 A toponímia guardense tem registado o seu nome numa das ruas da zona outrora pertencente à Quinta do Pinheiro. 


Helder Sequeira

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Rádio e IA: um debate necessário

 

O Dia Mundial do Rádio foi assinalado na passada sexta-feira, 13 de fevereiro; uma comemoração instituída em 2011 pelos estados-membros da UNESCO, data que foi validada, no ano seguinte, pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em 2026 o Dia Mundial do Rádio, subordinado ao tema “Rádio e Inteligência Artificial”, teve como objetivo fomentar o debate sobre como a tecnologia baseada em IA está a modificar a produção, a distribuição e o consumo dos conteúdos radiofónicos, mas alertando também para a importância da salvaguarda da ética, da acessibilidade, da criatividade e da confiança dos ouvintes.

Para a UNESCO, a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio ao rádio; aliás, como já anotámos noutras ocasiões, a IA apresenta novos caminhos para mais eficiência e, outrossim, múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes.

Naturalmente que um dos grandes contributos da inteligência artificial é dado ao nível da automação das emissões radiofónicas, apresentando-se como eminente suporte para produção de notícias, definição da sequência musical e de um conteúdo programático convidativo e diferenciado. Através de algoritmos e modelos automatizados a IA tem a capacidade de proceder à análise de uma enorme quantidade de informação, identificando padrões e desencadeando, consequentemente, procedimentos adequados.

Por outro lado, o acompanhamento constante das atualizações e publicações nas redes sociais pode ser efetuado de uma forma rápida, detetando tendências e assinalando notícias e temáticas que podem interessar aos ouvintes, despertando, consequentemente, uma maior atenção da sua parte.

Através de software adequado podem ser produzidas mensagens para as redes sociais assim como conteúdos destinados a plataformas digitais que ampliam o trabalho da estação emissora. Como escreveu Cristiano Stuani, a IA “pode utilizar-se para produzir textos e conteúdos para as redes sociais, personalizar anúncios e analisar dados de audiência, ampliando o alcance da marca e oferecendo publicidade mais relevante e efetiva para os anunciantes”.

O debate em torno das implicações da inteligência artificial no meio rádio é atual e necessário, bem como a necessidade de um melhor conhecimento da diversidade de aplicações disponíveis; ao nível da automação, utilização de voz, criação de cópias de conteúdos, novas fórmulas de atração de ouvintes. Acresce a análise e clarificação das questões éticas, do impacto no emprego, da salvaguarda de direitos de autor e direitos conexos, da distinção de vozes criadas pela Inteligência Artificial. Assim a escolha desta temática, pela UNESCO, para ser debatida no Dia Mundial do Rádio, fez todo o sentido, deixando uma pertinente proposta de reflexão.


 

Na área da indústria de equipamentos para radiodifusão não tem faltado quem argumente que o uso abusivo da inteligência artificial poderá criar situações indesejáveis; para outros ajudará a personalizar os conteúdos das emissões de rádio, a automatizar tarefas repetitivas e a melhorar a qualidade geral da programação. Sustentam, ainda, que a inteligência artificial pode viabilizar economia de tempo para as emissoras, ao assegurar conteúdos para os períodos da noite e madrugada, criando rapidamente podcasts e outros materiais de áudio online para sites.

A utilização da inteligência artificial em novos equipamentos, produtos, serviços e inovações abre, assim, uma discussão ao nível político e ético, entre outras esferas de intervenção; vários especialistas, nesta matéria, fizeram já notar a existência de questões legais sobre os direitos de propriedade e autoria de conteúdos criado por inteligência artificial; alertando também para a clarificação da forma como as emissoras podem proteger, legalmente, os conteúdos próprios.

De facto, a discussão sobre a importância, vantagens e perigos da inteligência artificial deve prender a nossa atenção; não podemos olvidar que a humanização do Rádio é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do processo evolutivo deste meio de comunicação.

A tecnologia pode também contribuir para uma melhor compreensão das audiências, personalizando a experiência dos ouvintes e valorizando os arquivos sonoros; um exemplo elucidativo pode ser a recente sessão de escuta “E temos o Povo”, que decorreu nos estúdios da Rádio Altitude. Tratou-se de uma audição dos sons da primeira montagem radiofónica do 25 de abril, realizada por Pedro Laranjeira, Paulo Coelho e Adelino Gomes.

À margem desta sessão, e quando o questionado sobre se a IA pode ser um perigo para o Rádio, Adelino Gomes dizia-nos que “a inteligência artificial pode ser um perigo para todos nós, não é só para o jornalismo, é para todo o cidadão”, acrescentando haver esperança, “porque afinal todas as mudanças ao longo da história das civilizações foram mudanças que primeiro foram recebidas com muita precaução e até com medo, mas a humanidade, certas pessoas, conseguiram encontrar nelas a forma, o segredo de transformar aquilo que pode ser mau em coisas boas”. Daí chamar a atenção para a prevalência de “um sentido crítico, como sempre tivemos”, tanto mais que “nas redes sociais, os preguiçosos estão a fazer com que nós nademos no mar de falsas notícias. São os preguiçosos”.

E neste contexto de novas tecnologias e afirmação da IA, é interessante anotar que a rádio está a renascer, a reinventar-se. “Os mais jovens, muitos já não vêm televisão, ouvem podcast e ouvem rádio. Acho que por muitos céticos que tínhamos sido sobre o fim da era da rádio, a verdade é que há um renascimento nesse sentido”, comentava-nos Maria Inácia Rezola, Comissária Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, data que ficou indelevelmente marcada na história da radiodifusão em Portugal.

O Rádio, apesar dos múltiplos condicionalismos, continua a ter futuro; onde a IA terá uma presença cada vez mais consolidada, mas a voz, a empatia, a humanização e a essência deste meio devem continuar a orientar as emissões radiofónicas.

 

Hélder Sequeira

in O Interior 18|02|2026

Sessão Científica de Saúde Pública

 

A XII Edição da Sessão Científica de Saúde Pública dos Internos do Centro (SPiC) terá lugar no próximo dia 23 de fevereiro de 2026, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, reunindo profissionais, internos e especialistas para debater os principais desafios e respostas na área da Saúde Pública.


Organizada pela Comissão de Médicos Internos da Zona Centro e pelo Internato de Saúde Pública da ULSG, esta iniciativa anual afirma-se como um espaço privilegiado de partilha científica, reflexão crítica e promoção de boas práticas em saúde pública. O programa tem início às 09h00, com a abertura do secretariado, seguindo-se a Sessão de Abertura. Ao longo da manhã decorrerá uma Mesa Redonda dedicada aos Desafios das Unidades de Saúde, com diferentes perspetivas institucionais, incluindo a Delegação Regional do Centro da Direção-Geral da Saúde, o Conselho de Administração da ULS e a Unidade de Saúde Pública.

Após um momento de pausa para café, terá lugar uma segunda Mesa Redonda subordinada ao tema “Intervenção e Respostas em Saúde”, onde serão abordadas áreas como a Saúde Ambiental e as iniciativas de parceiros na resposta local. Da parte da tarde, destaca-se a Apresentação de Trabalhos Científicos, permitindo aos médicos internos partilhar projetos, investigações e experiências desenvolvidas no âmbito do Internato de Saúde Pública.

A SPiC constitui uma oportunidade de valorização do trabalho científico desenvolvido pelos internos e reforça o compromisso das instituições envolvidas com a formação, a inovação e a melhoria contínua em Saúde Pública.