Há 104 anos, a 6 de julho,
falecia na Guarda o médico Lopo José de Figueiredo de Carvalho, um nome indissociavelmente
a esta cidade sobretudo ao Sanatório Sousa Martins, de que foi o primeiro
diretor.
Natural de localidade de Tojal
(concelho do Sátão), onde nasceu a 3 de maio de 1857, Lopo de Carvalho
frequentou a Universidade de Coimbra e licenciou-se em Medicina no ano de 1883.
Aluno brilhante, no final do curso foi convidado, pela sua Faculdade, a iniciar
o doutoramento, proposta que declinou.
Nesse mesmo ano foi trabalhar
para a Meda, como médico municipal; aí exerceu a sua atividade profissional,
durante dois anos, prosseguida mais tarde na Guarda, passando ainda o seu
percurso como clínico pelos Açores (Graciosa) e por Lisboa.
Com a fixação na Guarda (onde
residiu até à sua morte) passou também a exercer as funções de professor do
Liceu, à semelhança do que aconteceu com outras conhecidas figuras guardenses
da época; cedo se começou a dedicar à causa da luta contra a tuberculose e a
empenhar-se, ativamente, na criação de estruturas vocacionadas para o
tratamento daquela doença assim como no estabelecimento de normas e
regulamentos sanitários.
“A defesa contra a tuberculose
está regulamentada convenientemente, há muito tempo, na cidade da Guarda e em
todo o distrito; o essencial é cumprir-se a lei e isso é da exclusiva
competência das autoridades (…). É esta cidade a única no país que regulamentou
a sua defesa contra a tuberculose. Os primeiros aparelhos de Trillat (pelo
formol sobre pressão), para a desinfecção das casas e das roupas, que vieram
para o nosso país foram adquiridos pela Câmara da Guarda por proposta minha”,
escreveu aquele médico na resposta a acusações que lhe foram dirigidas por
alguns articulistas da imprensa local, cujo entendimento sobre a importância do
Sanatório divergia das ideias de Lopo de Carvalho e de quantos o acompanhavam
na afirmação e desenvolvimento daquela unidade de saúde.
O primeiro diretor do Sanatório
respondia aos seus críticos dizendo que “a higiene não se pode fazer somente em
artigos de jornais e ofícios burocráticos. Para se fazer higiene é preciso
gastar-se muita água e dinheiro”.
A “Curabilidade da Tuberculose Pulmonar”, trabalho apresentado no Congresso de Medicina de Lisboa, foi uma das suas mais aplaudidas intervenções em reuniões científicas, na maioria das quais levantou a bandeira das potencialidades da Guarda como cidade da saúde. Aquando do “Congresso de Tuberculose” realizado em Londres, em 1901, foi convidado por Sir William Broadbent para a vice-presidência honorária daquele evento científico.
Os seus esforços, conjugados com
o apoio recebido da Assistência Nacional aos Tuberculosos, a que presidia a
Rainha D. Amélia, conduziram à construção do Sanatório da Guarda, inaugurado em
18 de maio de 1907.
Lopo de Carvalho seria agraciado,
pelo Rei D. Carlos, com a Comenda de S. Tiago. “É de todo o ponto merecida a
distinção, que recai sobre um verdadeiro homem de ciência, tisiólogo eminente,
que tem sido, no nosso país, um dos mais denodados combatentes contra a
tuberculose”, noticiou o Diário Ilustrado.
Redator do jornal “Estudos
Médicos”, assim como de “Coimbra Médica”, Lopo de Carvalho colaborou também com
as publicações “Movimento Médico”, “Revista de Medicina e Cirurgia” e “Medicina
Contemporânea”.
O seu consultório funcionou no
edifício conhecido (na atual Rua Vasco da Gama) por Dispensário o qual doou, em
1932, ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos. Na rua que ostenta
o seu nome existe uma casa que Leopoldina Lopo de Carvalho (a esposa deste
médico) doou à cidade, com finalidades específicas; destinado, inicialmente a
Arquivo Distrital nela funcionou um Jardim Infantil com o nome da benemérita
senhora.
Lopo José de Carvalho (pai de
outro conceituado clínico e professor universitário, Fausto Lopo de Carvalho)
faleceu na Guarda a 6 de julho de 1922. “O seu enterro foi a expressão mais
rigorosa e levantada da consideração em que o povo da nossa terra tinha o
ilustre homem de ciência”, realçou a imprensa citadina. O jornal Distrito da
Guarda, a propósito do seu falecimento, escreveu que “o nome do Dr. Lopo de
Carvalho não se perde no passado; o que se perde é a sua inteligência e os seus
vastos conhecimentos científicos”.
O mesmo periódico, passados
alguns anos, destacava os serviços “prestados a esta terra” pelo referido
clínico. “E no estrangeiro, onde foi por várias vezes, tomando parte de
congressos, ou em viagens de estudo, conhecia-se o seu nome em todas as
estâncias de cura de tuberculose. Conhecia-se e admirava-se porque, nesta
especialidade, o médico distinto pairava muito acima do normal”.
De entre os trabalhos publicados
mencionamos “Seroterapia na Tuberculose Pulmonar”, “Uma Epidemia da Febre
Tifóide”, “As causa da Febre Tifóide em Portugal” e “Tuberculosos Curados”,
este em coautoria com Amândio Paul, que lhe sucedeu na direção do Sanatório
Sousa Martins.
Lopo de Carvalho tem o seu nome
na toponímia guardense, numa artéria localizada entre o início da Avenida dos
Bombeiros Voluntários (onde hoje está o Centro Comercial) e o cruzamento das
Ruas Vasco Borges, Rua do Comércio e Largo General João de Almeida.
Hélder Sequeira





