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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Feira de São João na Guarda

 

Um dos cartazes da Guarda, durante largas décadas foi a feira São João, que desempenhava um importante papel de dinamização económica e social, integrando um conjunto de certames com forte projeção regional.

A feira anual de São João, que ocorre no dia 24 de junho na Guarda, foi criada em 1255 por carta régia de D. Afonso III; este documento estabelecia, como assinalou a historiadora Virgínia Rau, que “devia começar oito dias antes da festa de S. João Baptista e durar quinze dias. Todos os que viessem à feira com as suas mercadorias estariam seguros e isentos de penhora durante trinta dias”.

No decorrer da segunda dinastia a feira de São João continuava a registar grande importância e no século XV era costume os “criadores e lavradores de Castelo Branco e do seu termo levarem os gados da sua criação para venda na feira da Guarda”.

Nos finais do século dezanove a cidade enchia-se, muitos dias antes de “grande quantidade de forasteiros”, e não faltavam, pelas principais artérias as “costumadas fogueiras com danças e cantos”. O teatro, os concursos de gado e as touradas constituíam alguns dos pontos de atração do cartaz citadino, nesses dias de enorme agitação festiva e de muitas transações comerciais.

A viagem de comboio até à Guarda era incentivada com significativas reduções nos preços, oportunidade aproveitada por numerosas pessoas, que engrossavam a multidão de visitantes espalhados por todos os cantos da cidade.

Este quadro, festivo, comercial e religioso – componente que também não faltava – repetiu-se, com mais ou menos cambiantes, durante décadas, deixando um inquestionável impacto na vida da cidade.

Aliás, a própria Câmara Municipal da Guarda deliberou, em julho de 1954, solicitar ao Governo a “necessária autorização para considerar como feriado municipal no concelho da Guarda o dia 24 de junho de cada ano”.

O executivo municipal, de então, argumentava que os festejos de São João “desde tempos imemoriais atingem proporções de relevo”, sendo por isso considerado “dia festivo em toda a região”; por outro lado, a Câmara Municipal aduzia a realização da “importante feira anual de S. João, reputada a de maior expansão e amplitude da região por a ela acorrerem com os seus produtos e gados as populações de toda a região beirã e até transmontana”; as estas razões, acrescentava-se ainda a intenção de o dia passar a figurar no período das “futuras Festas da Cidade” da Guarda.

O médico e escritor Ladislau Patrício (o terceiro diretor do Sanatório Sousa Martins) anotava, numa das suas obras, que “nas vésperas do dia 24 de junho, noite e madrugada, é contínuo o formigueiro de feirantes, a pé, a cavalo, em carroças e em carros de bois, tropeçando nos calhaus soltos dos caminhos impérvios, ou batendo o macadame das estradas poeirentas e brancas”.

Hoje a realidade é distinta, por diversas razões (nomeadamente pela mudança radical nos hábitos de consumo e de comércio), mas a feira de São João, na Guarda, continua a ser uma referência no ciclo anual destes eventos, com possibilidade de se afirmar no calendário com a sua identidade e a renovação consentânea com os tempos de hoje.

 

Hélder Sequeira


terça-feira, 23 de junho de 2026

Rádio F: trigésimo sexto aniversário

 

A Rádio F, que emite a partir da cidade da Guarda, assinala hoje o trigésimo sexto aniversário.

“Desde a sua génese, a Rádio F pautou-se por um cuidado, não apenas na vertente tecnológica, mas sobretudo no fator humano. A estação tem servido durante décadas, como uma verdadeira escola, preparando profissionais que viriam a singrar em órgãos de comunicação de âmbito nacional.” É referido, no sítio da Rádio F, a propósito deste aniversário.

“Outro dos pontos é a evolução que a Rádio F teve desde o início desta década, com a aposta numa programação mais direcionada para a comunidade, com programas com claro interesse da opinião pública”, é sublinhado depois.

Nesta data, a Rádio F lembra Virgílio Ardérius, seu fundador e o diretor até 2023, ano em que faleceu. “Estamos determinados a fazer não apenas mais uma estação de rádio, mas sim uma rádio de nível superior”, garantia o Presidente da Direção da Fundação Frei Pedro. “Chamar-se-á Rádio F este jovem parceiro de outras estações já existentes quer no concelho da Guarda, quer nos concelhos vizinhos; Rádio F porque os seus animadores entendem identificá-la, logo a partir do seu nome, com a cidade-berço deste projeto (...) Por outras palavras - fugindo de regionalismos acerbos e doentios  -  a Rádio F tem como vocação natural dar cor da cidade e da região, impedir que os seus problemas, os seus anseios, os seus sonhos se mantenham num limbo (embora cor-de-rosa) do esquecimento mais ou menos assumido, mais ou menos incompetente.”


domingo, 21 de junho de 2026

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Redescobrir o passado na Póvoa do Mileu

No passado fim de semana teve lugar na Guarda o espetáculo “Funos – Rituais de despedida”, no cenário oferecido pelo conjunto arqueológico e histórico da Póvoa do Mileu. Tratou-se de uma criação do Teatro do Calafrio, numa organização do município guardense, através do Museu Municipal da Guarda, integrando-se no programa do Simpósio Internacional de Arte Contemporânea (SIAC) que decorre até esta sexta-feira, 19 de junho.

O espetáculo recriou o ambiente espiritual e social da época romana, dando voz às emoções universais do luto, da saudade e da esperança na eternidade. Na Roma Antiga os funos eram acontecimentos profundamente enraizados nas tradições e nos rituais que expressavam as crenças religiosas e a estrutura social dessa época; esses rituais funerários romanos traduziam a relação com a morte e a vida após a morte. Constituindo-se como uma matriz da vida e da cultura romana, os funos transmitiam as mudanças e a evolução das práticas funerárias ao longo dos séculos e outrossim o propósito de honrarem a memória dos mortos.

A intensidade cerimonial variava em função da categoria social e dos recursos económicos, sendo a cremação uma prática comum. A procissão funerária era, refira-se, um momento relevante dos funerais romanos; o corpo era transportado, pelas ruas, acompanhado pelos elementos da família e amigos, participando, em muitas ocasiões, pessoas com a missão de verbalizarem lamentações e também músicos. “A procissão passava por lugares significativos da vida do falecido, terminando no local de cremação ou sepultamento”. De anotar que após o cerimonial, era habitual existirem banquetes fúnebres que, para além de reunirem os mais próximos na evocação da memória do falecido, serviam igualmente para reforçar as relações sociais na comunidade.

O espetáculo realizado no espaço da estação arqueológica da Póvoa do Mileu, e na zona envolvente da capela românica aí existente (datado do século XIII, este templo românico está classificado imóvel de interesse público desde 1950), proporcionou um reencontro, pedagógico, com o passado, uma lição sobre alguns aspetos da cultura romana, uma demonstração de criatividade dos elementos envolvidos neste evento e uma leitura clarividente da forma de valorizar e rentabilizar o património arqueológico, histórico e artístico da cidade da Guarda.


Por outro lado, “Funos – Rituais de despedida” foi também repto para um melhor conhecimento, por parte da comunidade, da estação arqueológica do Mileu e de tudo quanto ela representa; um sítio onde, ao longo de décadas, foram detetadas importantes estruturas arqueológicas de distintas cronologias; entre o espólio que foi sendo identificado estão machados de pedra polida, tegulae, cerâmica de construção, "terra sigillata", fíbulas, ornamentos, torso, mós de moinho, pesos de tear, fragmentos de lucernas, moedas, vidros, escápulas, pregos, argola e fivela de cinturão em ferro, escórias de fundição, restos osteológicos humanos, inscrição, lápide funerária (depositada no Museu da Guarda).

O conjunto arqueológico da Póvoa do Mileu, na Guarda, é um dos mais interessantes da Beira Interior. Esta é a opinião do arqueológo Vítor Pereira que coordenado, há alguns anos atrás, os trabalhos de prospeção e estudo ali realizados. Depois de lembrar que a importância deste sítio foi, desde cedo, reconhecida por “vários observadores, historiadores, autarcas e políticos logo no momento da sua descoberta, o que levou à preservação das estruturas, bem como à sua posterior classificação como imóvel de interesse público, em 1957”, o arqueólogo da Câmara Municipal da Guarda não hesitou em denominar o Mileu como “uma estação arqueológica admirável e até pitoresca”.

Vítor Pereira fundamentava esta afirmação no facto de aquela estação arqueológica, hoje praticamente inserida na malha urbana guardense, conjugar “num mesmo local um importante sítio romano, ocupado durante os finais do século I d.C. e o século II, e uma famosa capela românica e o seu cemitério rústico adjacente.”

As investigações realizadas permitem confirmar a existência de “importantes estruturas residenciais, servidas por um peristilo, isto é um pequeno pátio interior, quase certamente alpendrado (um pouco à imagem do que seriam os futuros claustros dos mosteiros e conventos medievais) – e servidas também por um complexo termal, tão típico da civilização e dos hábitos dos romanos.” Aquele arqueólogo lembrou que as estruturas destas termas foram já identificadas na altura da descoberta do complexo arqueológico, em 1951. “No entanto, nas últimas campanhas de escavações confirmou-se a existência de novas e diversas estruturas arquitetónicas de período romano, na área a nascente do complexo termal”.

Os achados mais recentes reforçam o que há muito se presumia, ou seja, “o Mileu encontrava-se integrado numa muito vasta rede comercial que abrangia o Norte e o Nordeste da Península, o Vale do Rio Ebro e a Província romana da Bética (sudeste da Península), mas que alcançava mesmo, embora mais ou menos residualmente, o Sul da atual França (a Gália dos Romanos), a Itália e mesmo o Norte de África”.

As preocupações em salvaguardar o património arqueológico do Mileu remontam a 1951, quando estava a ser construída a atual ligação entre essa zona e o núcleo urbano da então denominada Guarda-Gare.

A Câmara Municipal da Guarda, então presidida por Alberto Dinis da Fonseca, foi sensível aos protestos que então se levantaram, no que foi secundada pela Junta Autónoma de Estradas, organismo que providenciou os projetos necessários à alteração da denominada Avenida da Estação. Os inúmeros achados arqueológicos foram o argumento utilizado, nomeadamente por parte do historiador Adriano Vasco Rodrigues, para que não se destruísse aquela estação arqueológica e fosse permitido um estudo aprofundado.

Aquele investigador classificou esse edifício como um “hipocaustum, ou mais corretamente de uma casa com instalação de aquecimento próprio de clima de Inverno frio.” Recorde-se que, em abril de 2009, o Museu da Guarda promoveu uma interessante ação subordinada ao tema “Dos banhos quentes dos Romanos às energias renováveis”; esta atividade teve por objetivo dar a conhecer o sistema de aquecimento central das casas abastadas da época dos Romanos (“piso radiante”) a partir da observação de peças de barro de condutas de ar quente expostas no Museu da Guarda.


Para além da importância e oportunidade da recriação histórica de “Funos – Rituais de despedida”, este espetáculo lançou o convite e o desafio ao conhecimento e salvaguarda da nossa história e dos nossos valores patrimoniais.

 

Hélder Sequeira

 


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Festa do Solstício em Alvoco da Serra

 

Alvoco da Serra vai acolher de 19 a 21 de junho a Festa do Solstício e a Caminhada do Lampião sob o mote "#o Verão nasce aqui". Os visitantes e habitantes de Alvoco da Serra vão encontrar as ruelas de granito mais floridas do que nunca, instalações artísticas colaborativas e um concurso de varandas e pátios floridos.

Alvoco da Serra volta a acender os seus lampiões, num esforço coletivo dos seus habitantes para preservar a tradição. Esta celebração é muito mais do que recordar o passado, é a partir destas memórias comunitárias que a aldeia também quer “construir futuro”, atraindo novos visitantes que queiram sentir, partilhar e vivenciar a imensa riqueza da vida na montanha.


O programa arranca amanhã, na 19 de junho, às 19 horas, com a abertura oficial da festa, seguida de animação de rua, da experiência da "Rega da Horta" e de música com o dj Janeco.

No sábado, 20 de junho, concentra o maior número de experiências ligadas à identidade da montanha, começando com um passeio de Ebike pelas aldeias da freguesia e uma Oficina de Construção de Hotel de Insetos na Eira às 10h30, dinamizada pelo Centro de Interpretação da Serra da Estrela- CISE. À tarde, o Pátio Barão recebe uma Oficina de Tapeçaria em Lã às 15h00, reavivando os tapetes tradicionais que há muito se faziam na aldeia, enquanto o Forno Comunitário acolhe uma Oficina de Queijo Fresco de Cabra com degustação de produtos locais às 17 horas.

Ao final do dia, pelas 19 horas, o Pátio Barão serve de palco ao concerto dos Ningue Ningue, projeto de César Prata e Maria Isabel Mendonça construído a partir de recolhas musicais e de tradição oral da região. Um dos momentos mais simbólicos acontece às 22h com a mística Caminhada do Lampião, que junta residentes e visitantes num percurso noturno iluminado apenas pela luz dos lampiões.

A partir das 23h30, a energia da montanha transforma-se com o rock dos Ginjas Band, a mítica banda que marcou os anos 90 com as suas atuações icónicas no Ginjas Bar, em Alfama. Este concerto traz consigo uma forte carga afetiva, pois o convite foi feito pelo vocalista e guitarrista Pedro Garcia, conceituado médico pediatra em Lisboa que, sendo natural de Alvoco da Serra, fez questão de trazer os seus companheiros de palco para vivenciarem e celebrarem, em comunidade, o espírito único da sua aldeia de sempre.

O domingo, 21 de junho, convida à preservação do património e ao convívio através de visitas guiadas aos museus da aldeia.

Esta Festa é organizada pela Junta de Freguesia da Aldeia, Sociedade Recreativa de Alvoco da Serra e restantes coletividades da freguesia, com o apoio do município de Seia.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Faleceu o jornalista Fernando Abreu

 

O jornalista Fernando de Abreu faleceu hoje, aos 93 anos.

Fernando de Abreu foi o fundador do Diário da Guarda que durante mais de duas décadas foi editado nesta cidade; foi ainda o responsável pelo surgimento do Notícias de Viseu, Diário de Viseu, Notícias da Serra e da Rádio Cidade Viseu.


A sua primeira atividade profissional como funcionário das Finanças, acabando por seguir o jornalismo a partir do momento que foi convidado para integrar o quadro redatorial Jornal de Notícias.

Nos último anos centrava a sua atenção na poesia, tendo alguns livros publicados.

O corpo estará em câmara ardente na Igreja da Ressurreição/Coração de Jesus em Viseu. O funeral terá lugar amanhã, dia 18, a partir das 15h30.


Prémio "Abraço Ibérico" para Américo Rodrigues

 

A Feira Ibérica de Teatro do Fundão atribuiu a Américo Rodrigues o Prémio "Abraço Ibérico de 2026".

A Organização teve em conta o "seu percurso exemplar na promoção da cultura e da cooperação artística entre Portugal e Espanha, no domínio das artes performativas". Segundo a Comissão, a distinção é atribuída pelo percurso profissional "tão significativo" de Américo Rodrigues, que "tem afirmado uma visão da cultura assente no diálogo, na cooperação e na construção de pontes entre comunidades artísticas e territórios".


A Comissão Feira Ibérica de Teatro do Fundão acrescenta que a ação do atual Diretor-Geral das Artes "em prol das artes performativas, da valorização da criação contemporânea e do fortalecimento das relações culturais entre Portugal e Espanha constitui um exemplo maior do espírito que inspira o Prémio, nomeadamente a convicção de que a cultura é um espaço privilegiado de encontro, partilha e entendimento entre os povos da Península".

O Prémio "Abraço Ibérico de 2026" será atribuído em cerimónia que terá lugar hoje, dia 17 de junho, pelas 19h, na Quinta Pedagógica do Fundão, integrada na sessão de abertura da VII Feira Ibérica de Teatro do Fundão.

Promovida pelo Município do Fundão e a ESTE – Estação Teatral, a Feira Ibérica de Teatro do Fundão tem vindo a consolidar a cidade do Fundão como palco de encontro das artes do espetáculo da Península Ibérica.

A sétima edição da Feira, que decorre a partir de hoje (17 de junho) até 20 de junho, conta com a participação de profissionais de Portugal e Espanha e a apresentação de 21 espetáculos de teatro, dança, circo e música.