A minha Lista de blogues

sábado, 12 de setembro de 2026

729º aniversário do Tratado de Alcanices


Hoje assinala-se o 724º aniversário da assinatura do Tratado de Alcanices, ocorrida 12 de Setembro de 1297 naquela localidade espanhola.  O Tratado de Alcanices é considerado “um dos suportes da identidade de Portugal”, assumindo um particular significado para a região raiana de Riba Côa.

Com a assinatura deste importante documento passaram para o domínio português os castelos do Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e a localidade de San Felice de los Galegos – na zona de Riba Côa – além de Olivença, Ouguela e Campo Maior.

O rei D. Dinis, de acordo com o estabelecido nesse tratado, desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena. A conjuntura interna espanhola (nomeadamente as divergências profundas dos tutores do rei castelhano) não deixou de se reflectir neste tratado, bem como a visão estratégica do monarca português.

De forma a acentuar os compromissos assumidos, firmou-se a promessa de casamento do rei espanhol, D. Fernando IV, com a filha de D. Dinis (a infanta D. Constança), enquanto D. Beatriz, infanta de Castela, foi prometida ao príncipe D. Afonso (filho de D. Dinis).

As terras de Riba Côa começaram por estar sob o domínio militar de D. Afonso Henriques e mais tarde foram ocupadas por Fernando II de Leão, constituindo um território onde as oscilações dos limites fronteiriços eram constantes.

Alcanices - foto Helder Sequeira.jpeg

      Alcanices

 

O Tratado fixou, de forma clara, a fronteiras portuguesas deste território limitado pelos rios Côa e Águeda e pela ribeira de Tourões. Era, como escreveu Pinharanda Gomes, uma “terra de ninguém” que se converteu no “último pedaço da Hispânia a perder a independência, por diplomacia do senhor rei D. Diniz; cantão no coração da Hispânia, com os municípios de Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo e Sabugal, além de vários outros, hoje extintos mas reais”.

O Côa abandonou o seu papel de fronteira física e sobre ele lançaram-se novas pontes que favoreceram a circulação de pessoas e produtos; veja-se o caso do Porto de S. Miguel (assinalado no Foral de Castelo Mendo, de 1228, como Portum Mauriscum) ou da Rapoula do Côa.

Se na perspectiva portuguesa este acordo veio definir, definitivamente o território português, do ponto de vista castelhano ele foi entendido como aliança com vista à salvaguarda da paz, fundamental para a resolução dos conflitos internos existentes.

Segundo Miguel Ladero Quesada, foi o espírito diplomático de D. Sancho IV “nos últimos anos do seu reinado, sobretudo, a sua morte prematura e a gravíssima crise política castelhana na menoridade de Fernando IV que permitiram a D. Dinis jogar, alternativamente, as cartadas da guerra e da aliança para conseguir mais territórios dos que havia esperado e fixar as fronteiras em limites muitos favoráveis aos seus interesses”.

Para aquele investigador  é de supor que “algumas cláusulas do tratado seriam inconcebíveis em circunstâncias normais para os reis castelhano-leoneses, como as que se verificaram até 1295”.

Contundo, no quadro conjuntural da época D. Dinis terá tido a percepção de como era importante não deixar escapar a oportunidade de alargar o território português através de uma faixa em relação à qual Castela atribuía um interesse menor face às questões oriundas do reino de Aragão e da área peninsular sob domínio islâmico, a sul.

Assim, Alcanices traduz, como muitos reconhecem, um protagonismo inteligente da diplomacia portuguesa, evidenciado mais tarde por vários historiógrafos, cuja interpretação relativamente à passagem de Riba Côa para a Coroa lusitana assentava não na conquista territorial mas na justa restituição de terras, onde se erguia – por exemplo – o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (junto à histórica localidade de Castelo Rodrigo).

Por outro lado, e numa leitura dos discursos historiográficos e geográficos sobre Alcanices, Luis Carlos Amaral e João Carlos Garcia realçam que “a História precede a Geografia no debate do tema, mas é uma certa Geografia que fixa em imagem cartográfica Alcanices como marco final de um processo. Também nem todos os historiadores se preocuparam particularmente com este facto diplomático e político do reinado de D. Dinis”.

Aquando da passagem dos 700 anos da assinatura do Tratado de Acanices realizou-se um Congresso Luso-Espanhol nas vilas de Riba Côa, cujo programa, para além dos diversos estudos apresentados, incluiu várias exposições que reuniram pela primeira vez um valioso acervo das peças mais representativas do património histórico e artístico desta região; uma iniciativa que veio lançar novos olhares e interesses sobre este destacado momento do processo histórico português.

Como salientou o historiador Veríssimo Serrão no decorrer desse congresso, “As grandes vantagens do Tratado de Alcanices resultavam da fixação da fronteira portuguesa que, com excepção de Olivença, ocupada pela Espanha em 1801, correspondia então ao seu traçado actual. A província da Beira constituía a zona nevrálgica do reino de Portugal, por ser esse o local corrente das invasões castelhanas. D. Dinis tratou de imediato da fortificação dos lugares de Riba-Côa, com os seus pontos mais salientes em Castelo Rodrigo e no Sabugal, tendo a defendê-las o castelo da Guarda. Tal foi a base do acordo luso-castelhano”.

A importância deste Tratado para a formação da nacionalidade portuguesa é inquestionável; ele evidencia Portugal, decorridos todos estes séculos, como o país europeu com fronteiras mais antigas.


Hélder Sequeira 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Valhelhas: praia fluvial do ano


A praia de Valhelhas, no concelho da Guarda, ficou em primeiro lugar no concurso "Praia Fluvial do Ano 2026", que contou com 216 participações.
Tratou-se de uma iniciativa do Guia das Praias Fluviais, tendo a votação decorrido em linha. Estavam elegíveis as praias fluviais e zonas balneares de todo o país, classificadas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
Relativamente ao distrito, de referir que a praia fluvial de Loriga (Seia) ficou em segundo lugar, a praia de Aldeia Viçosa (Guarda) em 12º, Ponte de Juncais em 18º lugar, Quinta da Taberna (Guarda) em 23º lugar e Alfaiates (Sabugal) em 25º.



sábado, 29 de agosto de 2026

"Muralhas com História" em Sortelha


Em Sortelha, concelho do Sabugal, vai decorrer de 18 a 20 de setembro o evento ‘Muralhas com História’. Trata-se de uma organização do Município do Sabugal, em parceria com as Aldeias Históricas de Portugal, Junta de Freguesia de Sortelha e Associações Locais.

Nesta décima quarta edição, subordinada ao tema do “Muralhas com História – A Cartada que Mudou a História” o foco vai estar no reinado de D. Fernando I (1367-1383), O Formoso, último monarca da dinastia de Borgonha.

D. Fernando I protagonizou um dos reinados mais conturbados da História medieval portuguesa.

Apesar de ter governado apenas durante 16 anos, o seu reinado ficou marcado por uma sucessão de conflitos militares, crises diplomáticas e dificuldades económicas que colocaram em causa a estabilidade do reino. Após a sua morte, o problema sucessório acabaria por conduzir à Crise de 1383-1385.

Embora relativamente breve, o reinado de D. Fernando constituiu um período decisivo da História de Portugal, funcionando como a ponte entre o fim da Dinastia de Borgonha e o nascimento de uma nova era política que garantiria a manutenção da independência do reino.

A pulseira geral de acesso ao evento (válida para os três dias) tem um custo de 3 euros. A entrada é livre para crianças até aos 12 anos, inclusive, desde que acompanhadas por um adulto. O ingresso online tem de ser trocado pela pulseira na bilheteira física.


A viagem ao quotidiano medieval é complementada com recriação histórica, mercado, acampamento militar, ofícios e vivências, cetraria e animais da quinta, ritmos medievais, animação infantil, artes circenses, torneios de armas a pé e a cavalo.

“Esta recriação histórica assume-se como um projeto cuja oferta cultural é uma estratégia de valorização, revitalização e promoção do património e do próprio território. O cenário dentro do ‘Muralhas com História’ permite aproveitar o património, dando-lhe vida e criando um ambiente ímpar e de forte expressividade.” É referido numa nota informativa do município sabugalense.


De referir que é disponibilizado transporte coletivo, que fará o percurso de ida e volta, entre o Sabugal (Largo da Fonte) e Sortelha (entrada no Centro Histórico), gratuitamente. À chegada a Sortelha é assegurado o transporte (aproximadamente de 15 em 15 minutos) entre os parques de estacionamento e a entrada no centro histórico de Sortelha.



sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Judiciária da Guarda deteve presumível traficante

 


Inspetores do Departamento de Investigação Criminal da Guarda da Polícia Judiciária abordaram e detiveram ontem, em flagrante delito, um homem que se preparava para vender pólen de haxixe em locais de diversão noturna.

O suspeito, quer era já alvo de ações de vigilância e prevenção, foi abordado à porta do seu domicílio, autorizando uma busca domiciliária, durante a qual indicou o local onde tinha escondido cerca de 210 doses individuais daquele produto estupefaciente, para venda e distribuição.

O detido, em liberdade condicional por condenações anteriores por tráfico de estupefacientes e furto qualificado, irá ser presente ao DIAP da Guarda, cujo inquérito é ali titulado, para aplicação das medidas de coação.



Invasão francesa recordada em Almeida

 


Em Almeida vai decorrer a partir de hoje e até domingo, 30 de agosto, mais uma edição da recriação histórica do cerco daquela vila, ocorrido durante a terceira invasão francesa em 1810. Esta iniciativa é já considerada uma referência nacional e internacional na recriação das invasões napoleónicas.

Recorde-se que no passado dia 24 de julho foi assinalado mais um aniversário da trágica batalha do Côa, ocorrida no decurso da progressão dos militares franceses. As tropas anglo-lusas lutaram contra as forças do exército francês do Marechal Ney, no local do Cabeço Negro, junto às margens do rio; esta batalha antecedeu a queda da fortaleza de Almeida e a sua ocupação pelas tropas que entraram em Portugal, sob o comando de Massena.


O Rio Côa foi, até 1297, foi o limite da fronteira entre os territórios dos reinos de Portugal e Castela; atravessa o concelho de Almeida e é um dos poucos a correr de sul para norte. Com a assinatura do Tratado de Alcanices, por D. Fernando de Castela e D. Dinis de Portugal, o castelo de Almeida – entre outras fortalezas – passou para o domínio da coroa portuguesa.

Esta zona teve um grande papel estratégico, do ponto de vista militar; aqui se travaram, ao longo dos séculos, várias batalhas. A importância da fortaleza de Almeida cedo foi acentuada; após o primeiro de dezembro de 1640, o rei D. João IV ordenou a sua reparação, face aos momentos e às difíceis contendas que se avizinhavam.

Desde logo ficou percetível o papel preponderante que Almeida ia ter no processo bélico de manutenção da independência. A vila foi transformada em sede do quartel-general do Governador de Armas da Beira, constituindo-se na mais importante praça do reino português.


Álvaro de Abranches, um dos conjurados da Revolução de 1640 e membro do Conselho de Guerra de D. João IV, foi o primeiro Governador de Armas de Almeida, empenhando-se, de imediato no seu eficaz guarnecimento, rentabilizado o sistema de fortificações de que estava dotada.

A história de Almeida cruza-se, mais tarde, com as célebres – quanto dramáticas – invasões francesas. Destas, a terceira incursão conduzida por André Massena foi a que deixou marcas mais profundas na denominada “Estrela de Pedra”.

Após a conquista de Ciudad Rodrigo (Espanha), em 10 de Junho de 1810, pelas tropas francesas o objetivo do exército invasor era dominar a praça portuguesa, que teria cerca de 2000 habitantes e estava guarnecida com 5 000 soldados e 115 peças de artilharia. Com a aproximação das forças francesas, o comando do exército anglo-luso apelou aos habitantes para abandonarem as suas casas e levarem os seus haveres.

Nos primeiros dias de agosto de 1810 o Marechal André Massena mandou avançar o Oitavo Corpo do exército francês, sob o comando de Junot, dando início ao cerco de Almeida, a 10 de agosto, cuja guarnição militar era chefiada pelo coronel inglês Guilherme Cox, sendo Tenente-Rei o almeidense Francisco Bernardo da Costa.

O cerco decorria há 17 dias quando, ao cair da noite, uma granada francesa provocou uma explosão em cadeia que destruiu o paiol principal, onde estavam armazenadas 75 toneladas de pólvora; centenas de mortos e enormes danos no interior da fortaleza foi o balanço imediato da tragédia.

Na manhã seguinte, 27 de agosto de 1810, Massena exigiu do comandante inglês a rendição imediata da praça, o que acabou por suceder nessa noite.

A fortaleza de Almeida, em estilo Vauban, tem uma planta em forma de estrela irregular, integrando seis baluartes: o de S. Francisco, São João de Deus, Santa Bárbara (designado também de Praça Alta), do Trem (ou de Nossa Senhora das Brotas), Santo António e São Pedro, articulados com idêntico número de revelins.

O conjunto monumental deste baluarte beirão encontra-se rodeada por largos e profundos fossos. Para além das majestosas Portas de Santo António e São Francisco destacam-se no complexo desta fortaleza abaluartada as casamatas, espaços subterrâneos cuja estrutura e solidez os tornava imunes às bombas da época.


No interior do perímetro amuralhado encontra-se o Quartel das Esquadras que ficou a dever-se ao Conde de Lippe (Frederico Guilherme de Schaumburg-Lippe), edifício onde estiveram instaladas forças de infantaria; a antiga Casa dos Governadores da Praça de Almeida; o edifício do Corpo da Guarda Principal (onde funciona a Câmara Municipal), a Igreja da Misericórdia, a Casa dos Vedores Gerais, a Casa da Câmara e o Antigo Convento de Nossa Senhora do Loreto (atual Igreja Matriz) são outros edifícios emblemáticos desta vila do distrito da Guarda.

A recriação histórica começa hoje, pelas 22h00 no Picadeiro D’el Rey acontece o Baile e Sarau Cultural Oitocentista “Do Salão até à Praça”.

O Município de Almeida promove, amanhã e domingo (29 a 30 de agosto), visitas técnicas subordinadas ao tema "Da efeméride do Imperador à tomada da Fortaleza: uma visita pela Praça-forte de Almeida". Esta atividade é um convite para o público geral, desafiando o visitante a explorar as marcas de guerra deixadas nas muralhas abaluartadas e no centro histórico de Almeida, descobrindo vários pontos de interesse, no contexto do cerco efetuado entre os dias 15 a 28 de agosto de 1810.


O percurso orientado, com uma extensão de 2,2 quilómetros e uma hora e trinta minutos de duração, ocorre no sábado das 10.30 às 12 horas e das 17h30 às 19 horas, enquanto que no domingo será das 15 às 16h30, com ponto de encontro no Centro Interpretativo da Fortalezas Abaluartadas da Raia, Portas Externas de São Francisco, em Almeida.

Com esta recriação histórica, que se inicia já hoje, Almeida “regressa ao passado, recriando episódios, ambientes, personagens e vivências de outras épocas, num evento que conjuga a valorização do património histórico e cultural com a animação e a participação do público”.

Durante estes três dias vão decorrer, paradas militares, acampamentos históricos, demonstrações de táticas de batalha, enquanto no Mercado Oitocentista, os visitantes podem observar a recriação do trabalho de artesãos, mercadores e ofícios do século XIX.


Hélder Sequeira 


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Exposições de fotografia na Guarda

 


Foto de Alfredo Cunha 


No âmbito das comemorações do 25.º aniversário, o Centro de Estudos Ibéricos tem patentes duas exposições que foram inauguradas a 19 de agosto, para assinalar o Dia Mundial da Fotografia.

A mostra fotográfica sobre o projeto "Transversalidades: fotografia sem fronteiras", apresentará várias fotografias premiadas nas diferentes edições do concurso, o qual teve início em 2011. A exposição estará patente na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, até 19 de setembro, podendo ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30.

A exposição "Olhares... a propósito do Dia Mundial da Fotografia", com fotografias de autores da Guarda, pode ser visitada – também até 19 de setembro – no Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda, das 10h às 22h, de segunda-feira a sábado.

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Interlocuções entre Música e Tradição

 


O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) promove nos dias 25 e 26 de setembro, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, o Seminário “Interlocuções entre Música e Tradição: das Paisagens Culturais às Paisagens Sonoras”.

Reunindo investigadores de distintas Instituições de Ensino Superior e Centros de Investigação de Portugal e de Espanha, o Seminário propõe um espaço de reflexão e diálogo interdisciplinar em torno das múltiplas formas através das quais as práticas musicais e sonoras participam na construção, preservação, transformação e interpretação das paisagens sonoras e culturais de diferentes países.

Ao longo de dois dias, serão abordadas temáticas relacionadas com a música tradicional, os processos de patrimonialização, a documentação e valorização do património musical e organológico, as manifestações festivas, as práticas comunitárias e as relações entre tradição e contemporaneidade.

O programa inclui ainda a apresentação do livro Iberografias nº 52 “Música e Tradição. Sons, Objetos, Instrumentos e Paisagens” da autoria de Rosário Santana e Helena Santana, numa sessão que reforça a importância da investigação e divulgação do património musical enquanto espaço de encontro entre memória, criação e conhecimento.

Os interessados podem fazer a inscrição e obter mais informações em www.cei.pt